quinta-feira, 10 de julho de 2014

OS ACIDENTES EM OBRAS ATESTAM O SUCATEAMENTO DA ENGENHARIA BRASILEIRA

Por Fernando Alcoforado*

Os acidentes em obras de engenharia parecem ter se tornado uma rotina atual das obras públicas no Brasil. A pressa na execução de obras e o despreparo dos engenheiros estão por trás das falhas registradas em grandes obras no Brasil. Em janeiro de 2007, foi a cratera do Metrô em São Paulo com as obras da estação Pinheiros da Linha-4, matando sete pessoas. Em 2008, chegou a vez do Expresso Tiradentes quando parte da construção caiu no final da noite na zona sul de São Paulo. Em 2009, as vigas de um viaduto do trecho sul do Rodoanel em São Paulo desabaram, destruindo veículos e deixando três motoristas feridos. Recentemente, o desabamento de viaduto em Belo Horizonte se soma às lamentáveis falhas de engenharia registradas anteriormente.


A pressa na execução de obras com os cronogramas apertados geram uma ansiedade
entre os engenheiros que estão resultando em falhas. E isso acontece em todos os
Estados e esferas dos governos federal, estaduais e municipais. Devido à pressa, muitos projetos são mal feitos do ponto de vista técnico faltando, até mesmo detalhes que só são discutidos durante a execução das obras, dando margem a que as empreiteiras sigam seus interesses, que muitas vezes é o de economizar em materiais e superfaturar. Além disso, esse tipo de conduta, por deixar especificidades em aberto, deixa a fiscalização muito comprometida.

Para evitar estes fatos, caberia aos profissionais de engenharia rejeitarem tais pressões, defendendo até o último instante a aplicação do conhecimento técnico correto na execução de projetos e obras contando com o apoio das entidades representativas da Engenharia no Brasil como o CONFEA/ CREAs que deveriam atuar, também, para ajudar a apurar e a punir os responsáveis pelos acidentes nas obras de engenharia que ocorrem cada vez com maior frequência, gerando descrédito para todos os engenheiros do país.

É evidente que, neste contexto tão atribulado vivido pela engenharia brasileira, a
experiência e a qualificação dos engenheiros responsáveis pela execução de projetos e
obras faz a diferença. É esse contingente de engenheiros com vivência em projetos e em canteiros de obras que seria capaz de evitar os desabamentos ocorridos nos últimos tempos no Brasil. Um fato é evidente: tem faltado engenharia nas obras de engenharia do Brasil. Quando não há capacitação adequada das pessoas envolvidas, a chance de se cometer uma imperícia é muito maior.

É preciso considerar o fato de que grande parte das faculdades de engenharia do país é caça-níquel em consequência da privatização do ensino superior do Brasil a partir do
governo FHC e mantida pelos governos Lula e Dilma Rousseff. Muitas dessas
faculdades de engenharia caça-níquel são constituídas por docentes sem gabarito para o exercício da função e, normalmente, sem um olhar para as novas tecnologias. Muitos
docentes estão apenas reproduzindo técnicas ultrapassadas, que fazem o aluno decorar o uso de fórmulas, mas não ensinam o porquê das coisas.

Além do despreparo dos profissionais de engenharia, há carência de engenheiros no
Brasil, especialmente aqueles com larga experiência. No Brasil, temos 6 engenheiros
para cada mil pessoas economicamente ativas no Brasil. No primeiro mundo, esta
relação é de 18 a 28. Segundo dados do Conselho Federal de Engenharia Arquitetura e
Agronomia (CONFEA), existem 712,4 mil engenheiros no país. De acordo com estudo
do Conselho Nacional da Indústria (CNI), para dar conta da demanda por engenheiros,
seria necessário formar 60 mil engenheiros por ano no Brasil. Mas o que acontece no
Brasil é que apenas 48 mil obtêm este diploma a cada ano.

Pode-se afirmar que a Engenharia brasileira está sendo sucateada devido a três fatores.

O primeiro deles diz respeito à precariedade do sistema de ensino no Brasil que impacta fortemente e negativamente na formação do engenheiro pela Universidade brasileira, especialmente pelas faculdades privadas caça-níquel; o segundo concerne à
insuficiência de engenheiros para atender a demanda nacional; e, o terceiro resulta da
incompetência do governo brasileiro em todos os níveis que se caracteriza pela
execução de obras de baixa qualidade por conta de projetos mal elaborados e falta de
planejamento.

Bons projetos, serviços de engenharia consultiva e execução de obras embasadas técnica e economicamente e com elevado nível de segurança dependem fundamentalmente de equipes bem estruturadas, formadas por profissionais experientes no desenvolvimento de trabalhos nas mais diversas áreas abrangidas pelos setores de transportes, energia, telecomunicações, edificações, saneamento, entre várias outras. A lamentável situação atual do Brasil contribui para a falta de projetos básicos e executivos competentemente elaborados e de obras competentemente executadas.

Para se desenvolver, o Brasil, não pode abandonar a sua Engenharia à sua própria sorte e, com o melhor uso desta, deve alavancar seu progresso econômico e social e evitar a eterna dependência tecnológica em relação ao exterior. O Brasil precisa da Engenharia porque é ela que transforma o conhecimento acumulado em universidades e centros de pesquisa em produtos e serviços disponibilizados à sociedade. Os engenheiros e suas entidades representativas precisam se mobilizar para reverter a lamentável situação em que está relegada a engenharia brasileira.


*Fernando Alcoforado, 74, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em
Planejamento Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor
universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento
regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São
Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo,
1998), Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do
desenvolvimento do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,
http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel,
São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era
Contemporânea (EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social
Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft & Co. KG,
Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária (P&A Gráfica e Editora,
Salvador, 2010), Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento global
(Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011) e Os Fatores Condicionantes do

Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), entre outros.

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