quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A preguiça ao alcance de todos, extraída do livro Crônicas Recolhidas

          
              Sejamos preguiçosos em tudo,
                        exceto em amar e beber,
               exceto em sermos preguiçosos.
                                                         Lessing  

Meu maior trabalho na vida tem sido justificar minha preguiça. Tarefa laboriosa, afinal, não se trata da indolência que vez por outra ataca a maioria dos viventes. A pachorra que cultivo é sólida, determinada e permanente. É uma preguiça macunaímica, tal qual concebeu Mário de Andrade para o personagem da nossa gente.
 
As justificativas me foram chegando devagar, como convém a um preguiçoso nato. Minha mãe, embora trabalhadeira, descendia de uns índios que preguiçavam nas margens do Fanado, tributário menor das cabeceiras do Jequitinhonha, na foz do qual fui nascer. Já então descendo o rio sem esforço – de Minas Novas, banhada pelo Fanado, a Belmonte, onde deságua o Jequitinhonha –, embalou-se minha nascente aversão ao trabalho.
Aqueles índios do Fanado eram considerados os silvícolas mais preguiçosos do território nacional. Há quem ache a afirmação modesta. Na realidade, seriam dos maiores mandriões do mundo, só comparáveis aos andaluzes, do sul da Espanha. Contava minha mãe, que raramente mentia, ter cansado de, ainda menina, vender cachaça no armazém do meu avô à índia recém-parida, com seu curumim ensebado às costas, para que ela recuperasse o marido, prostrado na rede pelo recente esforço do trabalho de parto. A preguiça, como se vê, concentrava-se quase toda na ala masculina da tribo.
Com essa genética herança, muito penei num mundo devotado ao trabalho, e que, com a imposição das leis capitalistas, está ficando cada vez menos suportável. Algum consolo, é verdade, no curso dessa sofrida ociosidade, fui encontrando aqui e ali. Primeiro, no catecismo: depois de seis dias de trabalho, Jeová deu aos seus adoradores o exemplo supremo da preguiça: repousou para a eternidade. Depois, na sabedoria popular: Trabalhar não mata, mas vagabundear nem cansa.
Ainda criança, alcancei a Segunda Grande Guerra e pude acompanhar o esfacelamento das forças nazistas e fascistas, cujo lema era o trabalho, pelas tropas aliadas, formadas também por ingleses, que jamais trabalharam: viviam da renda das colônias.
Depois, na adolescência, com o Direito à preguiça, de Paul Lafargue, genro de Marx, onde aprendi como os espanhóis desprezam o labor. Descansar es salud , dizem eles, com notável sabedoria. Consta também nesse livro a citação de Virgílio, nas Bucólicas, dirigindo-se a um dos seus pastores: O Meliboe, Deus nobis hoec otia facit (Ó Melibeu, um Deus deu-nos esta ociosidade). Convenci-me então que o lazer, como eu já desconfiava, é dádiva divina.
Não vou cansar improváveis leitores falando do desprezo dos gregos pelo trabalho, nem do Evangelho segundo São Mateus, que cita Cristo pregando a preguiça no sermão da montanha: “Contemplai o crescimento dos lírios dos campos, eles não trabalham nem fiam e, todavia, digo-vos, Salomão, em toda sua gloria, não se vestiu com maior brilho”.
Já adulto, encontrei a inspiração que me faltava no livro de poemas de Mário Quintana: A preguiça como instrumento de trabalho.
Não fora ela, iria encerrar esta crônica falando das ideias do nosso respeitável apostolo do lazer: Guerreiro Ramos. Fica para outra, se me chegar disposição para tanto.
Mas antes, devo acrescentar que no dia do enterro de Jorge Amado li, na Folha de São Paulo, que sua ocupação preferida, declarada por  em entrevista concedida em Paris, há dez anos, era vadiar. Grande homem!
Por fim, como sou baiano, quero deixar aqui registrado o que disse o padre José de Anchieta sobre a Bahia e sua gente:
“É terra desleixada e remissa e algo melancólica, e por esta causa os escravos e os índios trabalham pouco e os portugueses quase nada, e tudo se leva em festas, convívios e cantares.”
Grande terra!
Para rodapé, uma máxima gringa: A bad Day fishing is better than a good Day at work.
 Jayme Barbosa*
TR (Tradução da redação): Um mau dia de pesca é melhor que um bom dia no trabalho.
* Jayme Barbosa foi um dos melhores cronistas da língua portuguesa. Mantivemos, por largo período, estreita relação. Prestes de morrer, telefonei para ele. Atendeu-me, com voz balbuciante e fraca, porém, senhor absoluto da capacidade de raciocinar. Ao perguntar-lhe sobre a sua saúde alquebrada, e, quase, em estado terminal, respondeu-me: “Só a preguiça atávica que possuo impede-me morrer”.
Amigo velho ou velho amigo, minhas saudades de você são eternas!
Obrigado, amigo, pelo convívio que nós mantivemos, sempre permeados por conflitos conceituais, mas, jamais exacerbados, porquanto éramos livres pensadores. 
  LCFacó
l  

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