segunda-feira, 29 de outubro de 2012

MEMÓRIA SERGIPANA - MEU AVÔ – HEROI ANÔNIMO E FILÓSOFO DO SERTÃO

                                                                               Edson Valadares*
              Na pia de batismo, o meu avô recebeu o nome de Estandislau Carlos de Almeida, certamente um nome digno de honrar qualquer dinastia portuguesa, de cuja nacionalidade descendia, com orgulho.
                Ele nasceu por volta de 1870, em uma fazenda sertaneja escondida entre as montanhas, e faleceu na capital do Estado de Sergipe, aos 86 anos de idade, vitimado por câncer, o único adversário que o venceu. Consultou médico, pela primeira vez por ocasião dessa doença, contra a qual lutou bravamente. Morto, enterraram-no em um fosso de um sombrio cemitério, tendo os dentes naturais completos, sem uma única cárie. Nunca visitara um dentista.
             
Fazenda do agreste sergipano

 
              Durante toda a minha, já longa, existência, conheci muitas personalidades de diferentes níveis sociais e intelectuais. Nessa constelação de pessoas, meu avô ocupa, no meu espírito, lugar especial. Ele foi, em realidade, um heroi anônimo do sertão, um filósofo nato, enfim, um homem de natureza superior.  Exemplo de honestidade, trabalhador incansável, competente em várias atividades, valente e extremamente humano. Demonstrava aversão à mentiras, injustiças e traições.
                Sua estatura era de 1.85m. estava acima dos padrões das populações sertanejas. De compleição atlética, ele tinha capacidade de dominar touros bravios, segurando-os pelos chifres. Nesses momentos, de proeza, fazia-me lembrar o legendário Sansão.
                O meu heroi nunca frequentou a escola dos homens, mas foi aluno destacado da vida e obteve grau na universidade da natureza.
                Possuidor de uma profunda sabedoria inata, e, também adquirida dos seus ancestrais, esforçava-se por transmitir-me seus conhecimentos através de aforismos e metáforas que criava “por dá cá aquela palha”. Ambos, abrigos de indiscutíveis verdades.
                Ademais, cria em Deus, frequentava a Igreja Católica, sem ser carola ou beato.
                Viajava pelo sertão em seu fogoso cavalo Alazão; atravessava regiões desérticas, muitas das quais perigosas, infestadas de bandoleiros violentos e sádicos. Para defender-se, como arma, portava apenas um facão, do qual não se apartava, nem para dormir.  Preocupava-o morrer sem lutar, se atacado por bandidos, deixando a família, que dele dependia ao léu, e perder o dinheiro vivo que carregava nos bolsos, destinado ao seu negócio de compra e venda de bovinos e muares.
                Nesses trânsitos, acoitava a céu aberto para apreciar a luz da lua, o cintilar das estrelas e ouvir o ciciar do vento, o triste piar das corujas, mesmo sabedor que seria atormentado pelas picadas das formigas que por ali pululavam. Confortava-se e tranquilizava-se, nessas ocasiões, por saber-se observado e protegido pelo seu fiel anjo da guarda, o cão Robalo, e pelo pisca-pisca das estrelas e dos vaga-lumes. Não o inquietava o risco de conviver e dormir com vaqueiros desconhecidos que contratava durante suas jornadas. Mais vale um homem de princípios e corajoso, que um verme travestido de homem, que atua ardilosamente, escondido entre as sombras. – Esses, eu os esmago à pisadas, resmungava ele, com convicção.
                Parece evidente que ele se achava permanentemente protegido pela divindade, o que, em parte, eu discordo. Na verdade, ele era guardado não só por Deus, mas por suas ações. Todas, sempre dignas, respeitáveis, corajosas e pela fama que percorria pelo sertão de que ali estava um cabra-macho, senhor do tempo e de ações justas. Enfim, um heroi popular do mesmo jaez de Lampião e Antonio Conselheiro.
                Ele exercia os misteres de fazendeiro e de agricultor com rara experiência e habilidade. Não fumava, nem bebia álcool, porém mascava tabaco, para desespero da minha avó.
                Manejava a enxada, o machado, a foice e o facão com a mestria com que faziam os gladiadores romanos ao manusearem suas lanças e espadas.
                Tratava da saúde dos animais da fazenda com a competência dos bons veterinários, sendo capaz de fazer pequenas cirurgias, quando necessárias, em seus pacientes. Todas, com ótimos resultados.
                O Hércules sertanejo domava cavalos enormes, bravios, como os melhores campeões de rodeios. Enfrentava bois gigantescos, violentos, usando para sua defesa uma vara com ferrão, que, as mais das vezes, dispensava para não maltratar seus animais. Quando os abatia, retirava-lhes o couro, curtia-os e vendia-os no mercado. Com golpes certeiros eliminava os ofídios peçonhentos, notadamente cascavéis e jararacas, que povoavam sua propriedade em grande quantidade. Por questão de pura sobrevivência sua e dos seus, porquanto odiasse maltratar quaisquer animais.
                Enfrentava nas cheias, quando da invernada, as águas dos rios caudalosos, embora não perenes, que serpenteavam suas terras, a nado ou montado no valente Alazão, que jamais o desobedeceu. Era tão valente quanto o dono. Sempre arisco e não empacava. Eu, mesmo, fui salvo, daquelas traiçoeiras, irrequietas e furiosas águas, por aquela dupla, que a mim parecia se confundir num único ser, saído do olimpo grego.
                Era ele, também, exímio pescador. Não conheceu competidor quando jogava sua tarrafa, que parecia mágica. Laçava com precisão, quase absoluta, as rezes que percorriam os campos em grande velocidade. Nesse ofício, tinha a exatidão e a arte dos “cow-boys” retratados pelos filmes hollywoodianos.
                Como caçador ninguém o superava. Os seus tiros certeiros, de espingarda, levavam pavor às suas vítimas – aves predadoras, onças e gatos do mato.
                Seu “aboio” forte, lírico, demorado e nostálgico, tornou-se referência em todo sertão. Mesmo ouvido à distância, tinha parecença dos advindos de uma trompa, instrumento, segundo especulações dos seus admiradores, parecia estar escondido ou guardado em sua garganta.
                Ordenhava com rapidez, fazendo crer que seus enormes dedos eram movidos a eletricidade.
                Já naqueles tempos recuados, ele preocupava-se com a ecologia, por mero instinto. Conservava as matas da fazenda e jamais permitiu o corte de qualquer árvore, insistindo em preservar as que marginassem os rios e outras nascentes de água. Sábio homem!
                Se as autoridades do nosso país pretendessem erigir um monumento em homenagem à bravura do homem sertanejo, ninguém melhor do que ele poderia servir de modelo, pois foi, sem dúvida, um êmulo de Hércules e de Salomão, pela força do primeiro e a sabedoria do segundo.
                Além de admirá-lo eu o amava. Se me fossem dados poderes de interagir com as deidades, por certo, de há muito, eu já o teria entregado aos cuidados dos deuses!          
*Edson Almeida Valadares é de tradicional família sergipana. Por conta da sua formação universitária levou a vida trabalhando com números, percentagens, colunas de haveres e débitos, num puro exercício cartesiano – Descartes –, “inspirado no rigor matemático e racionalista”. Perto dos seus setenta anos aposenta-se da Petrobras, onde exercia as funções de contador geral de uma das unidades da empresa. A partir daí, para vencer a ociosidade decorrente daquela nova situação, para ele desconhecida, volta-se à literatura. Lê os clássicos da prosa e do verso. Ama a Ilíada e a Odisséia. Não satisfeito, recorre aos poetas franceses, alemães, ingleses, brasileiros, e penetra em cada uma de suas escolas literárias. Procedimento repetido com os prosadores. Torna-se adicto de Salústio e Jack London.  Num voo maior, pesquisou a História da Literatura em todas as suas vertentes e aventurou-se em compor seus primeiros versos que, de tímidos, a princípio, com o passar do tempo ganharam força e se tornaram profundos e bem acabados. Não bastassem tais feitos para um homem de idade avançada, ele aconchegou-se à prosa com o mesmo entusiasmo. Notabiliza-se, através da edição do livro Memórias do Sertão do qual foi extraída a crônica acima, que, a partir da fazenda do seu avô, onde se passam os acontecimentos de sua infância, ele faz um estudo sociológico do sertanejo, seus hábitos e costumes. Ainda insatisfeito, arremete-se para abraçar outros dois gêneros literários: a epistolografia e o diário. E o fez com a mesma competência, tal qual aquela que o conduziu a esgrimir a prosa e o verso. Chamo-o de talento extemporâneo, sem lhe fazer nenhum favor. Hoje, perto de completar seus noventa anos, continua a expressar extremado vigor de pensamento. Tenta imitar Hércules na execução de trabalhos quase impossíveis de serem realizados: Edson candidatou-se à Academia Sueca de Letras, para receber o Nobel de Literatura, sem significativos apoios, senão os oriundos do seu próprio talento. Loucura ou confiança? Eis a questão, como diria William Shakespeare! Eu, por meu turno, o aplaudo, só não procedo assim quando ele se arvora como crítico literário. Sua exacerbada arrogância, apegado desejo de contestação, teimosia, e incapacidade de isenção, o inabilitam ao exercício desse desgastante e árduo ofício – sem demérito algum para a sua substantiva cultura –, gênero tão bem conduzido por seu conterrâneo Mário Cabral, que será sempre nosso eterno mestre – dele e meu.
NR: p/ LCFACÓ
 

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