Por Fernando Alcoforado
Um fato incontestável no Brasil é a
falência do serviço de saúde prestado pelo governo brasileiro
à população que não é de responsabilidade apenas do atual governo. A falência
da saúde no Brasil vem de longa data. Em resposta às críticas oriundas dos movimentos
sociais quanto à precariedade da saúde no Brasil, o governo Dilma Rousseff criou o Programa Mais Médicos, lançado em 8
de julho de 2013, cujo objetivo é suprir a carência de médicos nos municípios
do interior e nas periferias das grandes cidades do Brasil. O programa pretende
levar 15 mil médicos, a maioria cubanos, para as áreas onde faltam
profissionais. O formato da “importação" de médicos de outros países foi alvo
de duras críticas de associações representativas da categoria, da sociedade
civil, de estudantes da área da saúde e inclusive do Ministério Público do
Trabalho.
Roberto
Luiz D’Avila, presidente do CFM (Conselho Federal de Medicina) afirmou que o
Programa Mais Médicos é inócuo pelo fato de disponibilizar apenas médicos com estetoscópio
no pescoço. Segundo D´Avila, para fazer frente aos problemas do setor de saúde
no Brasil, é preciso investimento em infraestrutura, insumos, apoio de equipes multidisciplinares
e profissionais estimulados por políticas que reconheçam seu valor e sua
essencialidade, dentro de um modelo de atenção, que míngua devido à incompetência
gerencial do governo federal (Ver o artigo O Programa Mais Médicos publicado
no website
<http://www.administradores.com.br/artigos/economia-efinancas/o-programa-mais-medicos/76877/>).
As entidades médicas protestaram em de
julho em várias cidades do país contra a vinda de médicos estrangeiros para
atuarem no SUS, sem teste exigindo que seus diplomas sejam validados no Brasil.
Para revalidar seu diploma o médico estrangeiro precisaria provar que reside no
Brasil há seis meses ou um ano.
É
oportuno observar que a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (n.º 9394/1996)
exige que
os médicos que obtenham diplomas no Exterior revalidem seus diplomas em instituições
públicas de ensino superior do Brasil para exercerem suas profissões no país.
Tal exigência é reforçada por outra regra ainda em vigor: a Lei n.º 3.268/1957. Portanto,
o Programa Mais Médicos resultou na contratação ilegal de brasileiros e
estrangeiros
com diploma de médico obtido em outros países. Ao desconsiderar essas normas,
o governo brasileiro age irresponsavelmente ao fazer com que a parcela mais carente
da população fique exposta a profissionais sem qualificação comprovada. Ao
lançar o Programa Mais Médicos, o governo Dilma Roussef determinou, por medida provisória,
que a partir de 2015, quem entrar em faculdade de medicina terá que
trabalhar
dois anos na rede básica de saúde pública após cursar os seis anos de graduação
e que apenas após estes oito anos o profissional terá o registro permanente de médico.
Nos dois anos após a graduação, atuará com registro provisório do CRM em postos
de saúde, prontos socorros e Samu e receberá uma bolsa federal com valor entre R$
3.000 e R$ 8.000. O governo por medida provisória aumentou a duração do curso
de medicina de seis para oito anos e ainda por cima criou um serviço civil
obrigatório em região do interior do país, que se não feito, impedirá o
recebimento do diploma de médico, o que configura ser uma medida
inconstitucional conforme assinala o ex2
ministro da Justiça, Miguel Reale Júnior. Pela Constituição da
República, o único serviço obrigatório permitido no país é o militar.
Para
colocar em prática o Programa Mais Médicos, o governo Dilma Rousseff assinou termo
de cooperação técnica com a Opas (Organização Pan-Americana de Saúde), em 26
de abril de 2013 que serviu de base para um convênio específico, firmado em 21
de agosto
de 2013 com o governo cubano. Neste sentido, missões cubanas seriam coordenadas
pelo governo federal e o país contratante, isto é, o Brasil pagaria a Havana pelos
serviços e os médicos só receberiam uma parte. O procurador José de Lima Ramos Pereira,
que preside o Ministério Público do Trabalho, disse que a forma de contratação
dos médicos sem revalidação de diploma fere a legislação trabalhista e a Constituição.
Para
o procurador José de Lima Ramos Pereira, a contratação é totalmente irregular, mesmo
sob o pretexto de resolver uma questão relevante, mas que não está caracterizada
com a urgência que exige uma situação de calamidade, como epidemia e terremoto.
Ele disse que seria preciso concurso público para haver contratação. O governo
será empregador na hora de contratar e dirigir esses médicos, mas, na hora de assalariar,
a remuneração é feita por Cuba ou por meio de acordos. Isso fere a legislação trabalhista.
O governo contrata, mas não paga diretamente os salários. A ilegalidade é flagrante
(Ver o artigo O Programa Mais Médicos publicado no website <http://www.administradores.com.br/artigos/economia-e-financas/o-programa-maismedicos/76877/>).
A
opinião do presidente Roberto Luiz D’Avila do CFM (Conselho Federal de Medicina)
é a de que nenhuma entidade médica é contra a criação de estímulos para melhorar
a qualidade da assistência em saúde no interior do país e na periferia dos grandes
centros. Pelo contrário, todas as entidades médicas defendem a oferta de condições
de trabalho e de emprego dignas que beneficiem pacientes, profissionais e gestores.
Trata-se de uma preocupação legítima, que honra a obrigação constitucional do
Estado de garantir atendimento universal, integral, gratuito e com equidade
para todos
os brasileiros. No entanto, apesar de se valer desta premissa, o Programa Mais Médicos
falha ao oferecer uma solução rasa, de duvidoso efeito duradouro e que contraria
a legislação (Ver o artigo Opinião: Mais médicos ou mais saúde? Publicado
no website <http://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2013/09/17/mais-medicosou-mais-saude.htm>).
Um
fato que fica evidente é a incompetência do governo federal na formulação do problema
de saúde no Brasil ao atribuir à falta de médicos a única causa de sua deficiência.
A solução do problema de saúde no Brasil requer investimentos. Para haver investimentos
na saúde do Brasil, é preciso que o governo federal passe a destinar menos
recursos de seu orçamento para o pagamento dos juros e amortizações da dívida pública
interna que em 2013 correspondeu a 43,98% do orçamento, enquanto foi destinado
22,47% à previdência social, 10,21% para transferência a Estados e Municípios,
4,17% para a saúde e 3,34% para a educação, entre outros setores (Figura 1). Se
não houver uma reversão da tendência de evolução da dívida pública interna e da
política de pagamento de juros e amortizações, o desequilíbrio entre a demanda
e a disponibilidade de recursos para atender as necessidades do Brasil em
infraestrutura econômica e social se acentuará com o decurso do tempo em
detrimento da população e do setor produtivo nacional. Para
o governo brasileiro dispor de recursos para investimento em infraestrutura econômica
e social, terá de renegociar com os bancos nacionais e estrangeiros (credores de
55% da dívida pública), fundos de investimento (credores de 21% da dívida
pública), fundos de pensão (credores de 16% da dívida pública) e empresas não
financeiras (credores de 8% da dívida pública) a redução dos gastos com o
pagamento do serviço da dívida alongando o prazo de pagamento dos juros e
amortizações da dívida pública.
Enquanto
quase a metade dos recursos do governo federal continuar sendo destinado ao pagamento
da dívida pública ao sistema financeiro, a carência de recursos do setor de saúde
não será eliminada. É esta situação que explica porque o governo brasileiro
gasta menos do que a média mundial com a saúde de seus cidadãos. O Brasil é o
7º maior PIB do planeta e, no entanto, ostenta o vergonhoso 72º lugar no
quesito investimento público em saúde (Ver o artigo Brasil: 7° PIB do mundo
e 72° no gasto em saúde publicado no website
<http://www.cqh.org.br/?q=brasil-7%C2%B0-pib-do-mundo-e-72%C2%B0-no-gasto-em-sa%C3%BAde>).
Dados
divulgados em Genebra pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em relação aos
investimentos na área de saúde indicam que o Brasil se coloca em uma posição inferior
à média global (Ver o website <http://saopaulo. estadao.com.br/noticias/geral,gasto-per-capita-do-brasil-com-saude-e-menor-quemedia-mundial-imp-,1032260>.
A OMS destaca que 15,1% do orçamento público do mundo eram destinados à saúde e
no Brasil a taxa era de apenas 4,1%. A OMS também ressaltou a defasagem que
existe entre o Brasil e a média mundial em relação ao porcentual do orçamento
público investido na saúde. Somando gastos privados e investimentos
do Estado, cada cidadão investe hoje no Brasil US$ 990 por ano na
própria
saúde. Os Estados Unidos gastam anualmente, per capita, US$ 3,7 mil; na Holanda,
são US$ 4,8 mil e na Noruega, US$ 6,8 mil. Na outra ponta dos investimentos está
o Congo, na África, com US$ 4 per capita por ano, e a Libéria, com US$ 8. Segundo
a OMS, dos gastos totais de um cidadão com saúde, o governo brasileiro cobre 47%
do valor, anualmente. No entanto, este índice está abaixo da média mundial que corresponde
a 56%. Nos demais países emergentes, a taxa é um pouco superior à do Brasil:
48%. Dos R$ 47,3 bilhões gastos com investimentos pelo Governo Federal em 2013,
o Ministério da Saúde foi responsável por apenas 8,2% dessa quantia. Dentre os órgãos
do Executivo, a Saúde aparece em quinto lugar na lista de prioridades orçamentárias
(Figura 2) (Ver o artigo Saúde representa só 8% do total de
investimentos
públicos no Brasil publicado no website <http://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=24511:saud
e-representa-so-8-do-total-de-investimentos-publicos-no-brasil&catid=3>).
Investimentos
em 2013 http://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=24511:sauderepresenta-so-8-do-total-de-investimentos-publicos-no-brasil&catid=3
Com
base em dados do Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi), de R$9,4
bilhões disponíveis para investimentos em unidades de saúde em 2013, o governo federal
desembolsou somente R$ 3,9 bilhões, incluindo os restos a pagar quitados (compromissos
assumidos em anos anteriores rolados para os exercícios seguintes). Os valores
foram bem inferiores aos investimentos em Transportes (R$ 11 bilhões), Defesa (R$
8,8 bilhões), Educação (R$ 7,6 bilhões) e Integração Nacional (R$ 4,4 bilhões).
Em 13 anos, R$ 47 bilhões deixaram de ser investidos no setor de saúde. Nos
últimos 13 anos (2001 a 2013), foram autorizados R$ 80,5 bilhões específicos
para a
saúde. No entanto, apenas R$ 33 bilhões foram efetivamente gastos e outros R$
47,5 bilhões
deixaram de ser investidos. Em outras palavras, de cada R$ 10 previstos para a melhoria
da infraestrutura em saúde, R$ 6 deixaram de ser aplicados. Para exemplificar, com
R$ 47,5 bilhões, seria possível adquirir 386 mil ambulâncias (69 para cada município
brasileiro); construir 237 mil Unidades Básicas de Saúde (UBS) de porte (43
por cidade); edificar 34 mil Unidades de Pronto Atendimento (UPA) de porte I
(seis por
cidade) ou, ainda, aumentar em 936 o número de hospitais públicos de médio
porte (Ver o artigo Saúde representa só 8% do total de investimentos públicos
no Brasil
publicado
no website-http://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=24511:saude-representa-so-8-do-total-de-investimentos-publicos-no-brasil&catid=3>).
Pelo
exposto, a questão da saúde no Brasil não se resolve apenas com mais médicos como
preconiza o governo federal. A questão da saúde como a da infraestrutura econômica
e social em geral do Brasil requer a adoção de uma política econômica e financeira
pelo governo federal que contemple menor destinação de recursos de seu orçamento
para o pagamento dos juros e amortizações da dívida pública interna a fim de que
haja disponibilidade de recursos para investimentos em saúde, educação, infraestrutura
de energia, transportes e comunicações, etc. Pode-se afirmar que o Programa
Mais Médicos não é outra coisa senão um factoide criado pelo governo Dilma Rousseff
para encobrir sua incompetência na gestão da saúde no Brasil.
Fernando
Alcoforado, 74, membro da Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento
Territorial e Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona,
professor universitário e consultor nas áreas de planejamento estratégico,
planejamento empresarial, planejamento regional e planejamento de sistemas
energéticos, é autor dos livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997),
De Collor a FHC- O Brasil e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São
Paulo, 1998),
Um Projeto para o Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento
do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona, http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944,
2003), Globalização e Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia-
Desenvolvimento do Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea
(EGBA, Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social Development-
The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller Aktiengesellschaft &
Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento Global e Catástrofe Planetária
(P&A Gráfica e Editora, Salvador, 2010), Amazônia Sustentável- Para o
progresso do Brasil e combate ao aquecimento global (Viena- Editora e Gráfica,
Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011) e Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento
Econômico e Social (Editora CRV, Curitiba, 2012), entre outros.
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