Ciência
Michael MarshallDa BBC Earth
Se você pudesse construir uma máquina do tempo e voltar ao
passado distante da Terra, teria uma surpresa desagradável: não seria possível
respirar. Sem a ajuda de equipamentos, você asfixiaria em questão de minutos.
Isso porque durante a primeira metade da vida de nosso
planeta não havia oxigênio na atmosfera. O gás tão fundamental para a vida como
conhecemos surgiu há apenas cerca de 2,4 bilhões de anos.
O "Grande Evento da Oxidação" foi uma das coisas
mais importantes a acontecer neste planeta. Sem ele, jamais poderia haver
animais respirando oxigênio, como insetos, peixes e, certamente, humanos.
'Tapetes'
Por décadas, cientistas trabalharam para entender como e por
que o oxigênio surgiu. E eles suspeitam que a própria vida foi responsável por
criar o ar que respiramos.
As mais recentes descobertas sugerem que a vida passava por
uma tremenda transformação antes da "Grande Oxidação". Um salto
evolucionário que ajuda a explicar o que conhecemos hoje.
Formada há 4,5 bilhões de anos, a Terra, na época da Grande
Oxidação, já era habitada. Mas apenas por organismos unicelulares. Não está
exatamente claro quando a vida começou no planeta, mas os fósseis mais antigos
desses microrganismos datam de pelo menos 3,5 bilhões de anos atrás. Isso
sugere que a vida já existia na terra há quase 1 bilhão de anos antes da
"Grande Oxidação".
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| A grande oxidação transformou para sempre a vida na Terra |
Essas formas de vida simples são as grandes suspeitas do
surgimento do oxigênio. Um grupo em particular se destaca: as cianobactérias.
Esses microrganismos hoje em dia são conhecidos por formar "tapetes azuis
ou verdes" em lagos e oceanos.
Suas ancestrais inventaram um truque que se tornou adotado
por muitas outras espécies.
Desenvolveram uma forma de tirar energia da luz do
sol e usá-la para produzir açúcares da água e do dióxido de carbono.
O processo é conhecido como fotossíntese e hoje é a forma
como todas as plantas do mundo de alimentam. Aquela árvore na esquina de sua
casa está usando o mesmo processo químico desenvolvido por cianobactérias há
bilhões de anos.
Do ponto de vista das bactérias, fotossínteses têm uma
inconveniência: produzem oxigênio como dejeto. O gás em nada serve para elas,
que então o liberam para o ar. Sendo assim, a explicação para a "Grande
Oxidação é simples": cianobactérias bombearam oxigênio
"rejeitado" para a atmosfera, transformando a Terra.
Mas se isso explica por que surgiu o oxigênio em nosso
planeta, ao mesmo tempo não explica quando. Cianobactérias já habitavam a Terra
bem antes da "Grande Oxidação", segundo especialistas. "Elas
estão provavelmente entre os primeiros microrganismos que tivemos neste
planeta", diz Bettina Schirrmeister, da Universidade de Bristol, no Reino
Unido.
Cientistas afirmam que já havia cianobactérias há pelo menos
2,9 milhões de anos, devido a evidências da existência de "bolsões"
isolados de oxigênio. Isso significa que as cianobactérias já bombeavam o gás
pelo menos meio bilhão de anos antes de ele surgir na atmosfera. Como?
Uma explicação é que uma série de elementos em volta -
possivelmente gases resultantes da atividade vulcânica - reagiram com o
oxigênio e o "eliminaram". Schirrmeister, porém, afirma que pode ter
sido uma questão de eficiência na produção das cianobactérias. "Alguma
inovação evolucionária nas cianobactérias as ajudou a ter mais sucesso e
importância no ecossistema"
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| Existem diversos tipos de cianobactérias |
Algumas cianobactérias mais modernas fizeram justamente
isso: enquanto a vasta maioria das bactérias é unicelular, as cianobactérias
são multicelulares. Células individuais se uniram para formar filamentos, como
vagões de trem.
E vão além: algumas produzem células especializadas, uma
versão simplificada do que acontece, por exemplo, com animais, que têm células
especializadas para músculos, nervos e sangue.
Descendentes
Schirrmeister acredita que a multicelularidade pode ter sido
um marco para os antepassados da cianobactérias, oferecendo vantagens. Nos anos
mais primitivos da Terra, organismos unicelulares viviam em camadas lamacentas,
que os cientistas chamam de tapetes.
Em cada um desses tapetes poderiam estar diversos tipos de
cianobactérias junto com vários outros vizinhos. Uma cianobactéria multicelular
teria uma vantagem clara para rivais: mais facilidade para se prender a rochas
e resistir a movimentos.
Bactérias multicelulares modernas também se movimentam por
seus tapetes, o que sugere uma habilidade também compartilhada com bactérias
primordiais. Isso pode ter sido uma vantagem na luta pela sobrevivência. Em uma
época que a terra não tinha a Camada de Ozônio, o planeta era bombardeado com
radiação ultravioleta do sol.
"Em formações modernas, cianobactérias mudam de posição
para se proteger dos raios solares. As cianobactérias multicelulares podem ter
desenvolvido a habilidade de se posicionar de maneira ideal no tapete".
A ideia é interessante, mas para isso as cianobactérias
tiveram que evoluir para organismos multicelulares antes da "Grande
Oxidação". Schirrmeister passou os últimos anos tentando determinar
quando. A pista está nos genes das bactérias. Examinando os genes
compartilhados por espécies de cianobactérias e identificando pequenas
diferenças entre eles, Schirrmeister construiu uma espécie de árvore
genealógica das criaturas.
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| Plantas usam a luz do sol para fabricar açúcares, processo conhecido como fotossíntese |
A partir dali, ela concluiu, em estudo publicado em 2011,
que a maioria das cianobactérias modernas descende de ancestrais
multicelulares. Isso sugeriu que a multicelularidade é antiga, mas ainda não
havia uma data.
Em um segundo estudo, publicado em 2013, Schirrmeister
argumentou que a multicelularidade ocorreu pouco antes da "Grande
Oxidação", quando as cianobactérias estavam se diversificando rapidamente.
Em um terceiro estudo, com base em análises de 756 genes presentes em todas as
espécies de cianobactérias, Schirrmeister finalmente estimou que a
multicelularidade ocorreu por volta de 2,5 bilhões de anos atrás - antes da
"Grande Oxidação".
Evolução
Mesmo que esses resultados sejam confirmados, ainda restam
duas grandes questões. A primeira: a evolução realmente ofereceu vantagens às
cianobactérias? Não podemos saber, mas podemos descobrir por meio de testes com
cianobactérias modernas unicelulares e multicelulares em diferentes condições.
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| Certos tipos de cianobactéria se organizam em uma espécie de "barbante" |
A segunda pergunta é mais complicada: por que as
cianobactérias demoraram tanto para desenvolverem a multicelularidade? Se essa
condição lhes dava vantagem, por que não evoluíram mais cedo e detonaram antes
a "Grande Oxidação"?
"Nosso próximo passo é descobrir quais genes são
responsáveis pela multicelularidade nas cianobactérias", diz
Schirrmeister. Se muitos genes forem necessários para a mudança, é
compreensível que cianobactérias tenham demorado para evoluir.
Qualquer que tenha sido a causa, a verdade é que a
"Grande Oxidação" foi um dos mais importantes eventos na história da
Terra. Mas não foi uma boa notícia para todos: na verdade, foi péssima para os
então habitantes do planeta.
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| Animais mais complexos não poderia existir sem oxigênio |
"O oxigênio deve ter sido letal para muitos tipos de
bactérias e podemos presumir que houve grande mortandade", explica a
cientista.
A longo prazo, porém, a oxidação permitiu que um novo tipo
de vida evoluísse. O oxigênio é um gás reativo - é por isso que alimenta chamas
- e, quando alguns organismos aprenderam usá-lo, passaram a ter acesso a uma
nova fonte de energia.
Ao respirar oxigênio, organismos ficaram mais ativos e
puderam crescer mais. Ao ir além da simples multicelularidade desenvolvida
pelas cianobactérias, alguns organismos ficaram mais complexos: viraram plantas
e animais, de esponjas e vermes a peixes. E, por fim, humanos.
Se Schirrmeister estiver correta, as primeiras
cianobactérias multicelulares podem ter sido o gatilho da evolução da vida mais
complexa na Terra.
Nada mal para um bando de micróbios...
Leia versão original desta reportagem (em inglês) no site
BBC Earth.






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