Arte pictórica
POR CAROLINA CARMINI
“Gosta de
pensar que se não tivesse nascido, alguém a teria inventado”.
Poussin, artista símbolo
do classicismo francês, soube harmonizar razão e poesia em suas telas. A
sensibilidade dos movimentos e das cores dos personagens divide espaço com o
rigor matemático das paisagens. Poussin marcou a história da arte e tornou-se
referência para diversos artistas.
Poussin, "A Praga de
Ashdod".
Um dos maiores representantes do classicismo
do século XVII, Poussin trouxe para a arte clássica tanto um rigor intelectual
e matemático quanto a sensibilidade de uma poesia visual única em seu período. Durantes
os séculos seguintes, seu trabalho foi inspiração para artistas como
Jacques-Louis David, Paul Cézanne e Pablo Picasso.
Nicolas Poussin nasceu na França em 1594 e
faleceu em Roma em 1665. Seu desejo em ser artista despertou com a visita de um
pintor a sua aldeia. Ambicionando seguir carreira, mudou-se para Paris, mas não
conseguiu pagar a bons professores e acabou por estudar com pintores menores.
Poussin, "O Rapto das
Sabinas" (1637).
Poussin, "A Adoração do Bezerro
Dourado".
Em 1624, conseguiu ir para Roma, onde
trabalhou até ao final de sua vida. Lá estudou fervorosamente e escolheu
cuidadosamente suas influências: as telas de Rafael, as cores de Ticiano, os
frisos dos túmulos greco-romanos e estátuas de antigos escultores. Seu desejo
era que a beleza dessas obras o ajudasse a transmitir sua visão de terras de
outrora.
Poussin desprezava o realismo e a
superficialidade acadêmica. Suas pinturas possuem uma distribuição calculada da
estrutura pictórica, incomum no século XVII. Nesse distribuir matemático das
composições, o artista jogava com o equilíbrio das massas, com o balanço dos
planos e das luzes. Os volumes, os planos, o claro-escuro e o colorido raro são
orquestrados com habilidade e grande segurança. Era praticamente um escravo das
noções clássicas de pureza, grandiosidade e distância, e, no entanto, possui a
vivacidade plástica e o movimento melódico.
Poussin, "Cephalus e
Aurora".
Poussin, "Atenas Apresentando
Armas a Aeneas".
Sua sensibilidade em captar as nuances do gesto, do
desenho, da cor e da movimentação é primorosa. O detalhe variava de acordo com
a obra em questão, criando assim para cada tela uma narrativa própria e
memorável. Seus temas vão desde cenas canónicas de ternura discreta, orgias
‘báquicas’, luto, a virtude cívica e mandamentos bíblicos. Outros, são de sua
própria criação, ou assuntos que nenhum artista havia escolhido para trabalhar.
Com isso, Poussin ficou conhecido por uma pintura peculiar e vigorosa que não
se prende a um estilo único.
Poussin, "A Inspiração do Poeta".
Alguns de seus quadros têm uma mensagem moral
ou filosófica; outros procuram chamar a atenção do homem para a questão da
efemeridade da vida. Os homens elevados a heróis por Poussin são os que trocam
o vício e os prazeres pela virtude e pela razão. Em Midas e Baco,
Poussin sugere o questionamento da ânsia por riquezas que o homem possui,
desvirtuando valores. E, o mais importante, fazendo com que ele perca tudo o
que lhe é de verdadeiro valor.
Poussin, "Midas e Baco".
Um dos trabalhos mais famosos de Poussin, Os
Pastores de Arcádia, retrata uma lápide enorme, onde se lê Et in
Arcadia ego (Até na Arcádia estou), nome pelo qual a pintura ficou
conhecida. Em uma paisagem tranquila e ensolarada, três belos jovens pastores e
uma jovem em finas vestes reúnem-se em torno de uma lápide. A natureza que
seria desordenada, na tela é submetida à uma ordem geométrica, e árvores
tornam-se quase que elementos arquitetônicos da composição.
Um dos pastores encontra-se inclinado
tentando decifrar a inscrição. A frase em latim refere-se à morte, que até
mesmo em terras idílicas está presente. As figuras do quadro se agrupam ao
redor da lápide formando uma espécie de moldura humana com seus rostos
melancólicos e gestos comedidos. Apesar da seriedade do tema, Poussin o trata
com extrema delicadeza a ponto de a morte perder todo o terror.
Poussin, "Apolo e Daphene".
Poussin, "O Triunfo de
Neptuno e Anfitrite".
Em suas representações de mitos clássicos,
Poussin opera através da dualidade, onde a sensualidade é latente e sutil. Em Dança
para música do tempo as jovens deusas e ninfas divertindo-se não
parecem divinas, mas filhas da terra. A seda colorida que recobre seus corpos
deixa os contornos sensuais, o céu azul de nuvens douradas que recobre a
paisagem lírica convida a participar da cena.
Poussin, "Dança para a Música do Tempo".
Em Rinaldo e Armida, há uma
evidente tensão sexual entre o guerreiro adormecido ao pé de uma arvore e a
bela jovem com sua pele branca e seios desnudos ajoelhada ao seu lado.
Poussin, "Rinaldo e
Armida".
A arte de Poussin é a perfeita junção do
poético e da razão. O artista modificou a história da arte ao ampliar o campo
de experimentações e quebrar as fronteiras do que era posto como arte francesa
e italiana. E assim abrir caminho para artistas como Géricault, Ingres e
Delacroix.
Poussin, "Moisés,
Bebé Salvo no Rio".













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