Literatura: crônica
Por Mariana Martins
“Flanêur,
escritora, observadora, mochileira, arquiteta-urbanista pela FAU USP. Paulista
e Paulistana - com muito orgulho -, com um pezinho na cidade do Porto, Portugal
de onde tem muitas saudades.”
Nossa geração é a geração do
muro, seja de alvenaria, seja de barreiras psicológicas criadas cuidadosamente
para não nos afundarmos demais nos perigosos sentimentos, nas dificuldades de nos
relacionarmos com outras pessoas, sejam as barreiras cibernéticas das redes
sociais. Nós embrutecemos.
© Morguefile.
Não sabemos mais ser gentis - coisa que se
percebe facilmente na hostilidade dos comentários e discussões internet afora.
Coragem? Só atrás de um teclado e de uma telinha. Amigos? Quinhentos, dos quais
apenas dois ou três sabem seu aniversário de cor. Compartimentação de
sentimentos para facilitar a interpretação - sexo, paixão e amor tratados como
se um não tivesse nada a ver com o outro. O terceiro é o bicho-papão das
relações. Ninguém quer nem se imaginar nele. Mas a vidinha segura do casamento
está nos planos da grande maioria que diz não querer saber de amor.
Comprometimento só se as vantagens forem evidentes e as desvantagens puderem
ser minimizadas - e ao primeiro sinal de que existem, melhor correr.
© Red
Lipstick, (foto de Weglet).
O mito da segurança
Desde sempre o homem teve que se proteger. Um
dos mitos mais conhecidos da arquitetura é o mito da cabana primitiva, o da
construção da arquitetura como um abrigo. Seja o conceito da construção do lar
pela casa em volta do fogo em Vitruvio, com paredes e cobertura em Alberti, ou
com colunas como defendia Andrea Palladio, tudo passa pelo mesmo princípio, o
da construção para proteger-se. Na Natureza terrível, poderosa e cruel, o medo
não poderia ser mais que um mecanismo de defesa; a casa, um mecanismo de
resguardo.
É bom duvidar, não ter absoluta segurança de
tudo. É bom porque previne problemas desnecessários. Por exemplo: é bom
suspeitar que uma chaleira no fogo esteja quente antes de segurar o cabo; assim
previne-se queimaduras. É bom suspeitar que possamos estar errados sobre alguma
coisa, para não nos tornarmos cabeças-duras. Mas e quando esse instinto natural
de sobrevivência que carregamos torna-se uma neurose?
© Flickr, (foto de Atp
Tyreseus).
A ilusão da segurança é tão necessária quanto
a certeza de que não estamos seguros. É preciso sentir-se seguro em algum
ambiente, confiar em algumas pessoas, sentir-se abrigado. Sem esse tipo de
conforto, estaríamos o tempo todo sujeitos a uma adrenalina sobrenatural. Mas
nunca estamos seguros.
De fato, sempre há algum fator que pode gerar
insegurança. O prédio em que você vive pode desabar, aquela panela de pressão
na cozinha pode explodir e sabe-se lá o que pode te acontecer ao sair todos os
dias pela porta de casa e atravessar uma rua. Mas são coisas que todos nós
fazemos, com algum sentimento de segurança, ainda que ilusório. Sem esse
sentimento, ficaríamos loucos. Enfrentamos diariamente o medo, ou, o que é mais
provável, nos munimos de um sentimento de segurança que, ainda que ilusório,
nos mantém distantes de um ataque de nervos a cada minuto.
Mundo-cão - a insegurança de todos nós
Embora a plena segurança seja um sentimento
ilusório, como dissemos, é necessário sentir-se seguro o maior tempo possível.
Tropeçar e quase cair na rua é algo que podemos vivenciar sem problemas e
superar, mas estar sob o constante sentimento de alerta à espera de ser atacado
como numa selva, não.
© Morguefile.
A insegurança, o constante medo de ser
agredido de alguma forma por um fator externo, é cada vez mais comum entre nós.
Aparece geralmente com mais facilidade entre aqueles que já sofreram algum tipo
de violência, mas aos poucos torna-se um sentimento generalizado. A sensação de
insegurança, mesmo em ambientes relativamente seguros, só aumenta quando
ocorrem incidentes como o recente caso de Santa Maria. O espetáculo que a mídia
fez em cima do acontecimento só aumenta a sensação de pânico generalizado.
O incêndio que ocorreu em Santa Maria, assim
como eventos que ocorrem de tempos em tempos na forma de grandes acidentes,
atinge a todos de alguma forma. Se não de forma direta, grandes tragédias
atingem a todos de maneira mais indireta causando um sentimento comum de
pertencimento ao mesmo problema. As reações que cada indivíduo produz a esse
tipo de situação, entretanto, serão únicas. Diferenciam-se aqueles que se
sentem afetados ou fragilizados de maneira ordinária e que conseguem superar o
fato, daqueles que acabam sofrendo com o pânico, a ansiedade e as reações a
esse sentimento.
Muros
Embora você possa não perceber - sim, você
mesmo que está lendo esse texto - você toma medidas diárias para se proteger,
conscientes ou inconscientes, consequentes do sentimento de pânico e ansiedade
causados pela insegurança. Boa parte das pessoas acredita que a solução em boa
parte das situações é construir um muro. De forma literal ou metafórica, o
conceito aplica-se amplamente.
© Eveystockphoto.
Em termos literais, a proliferação de
arquiteturas de segurança, condomínios fechados, portarias eletrônicas e
vigilância 24 horas, sem falar da enorme quantidade de muros por toda a cidade
que dão as costas para quem anda pela rua e protegem - parcamente, diga-se de
passagem - apenas quem está no seu interior, é assombrosa. Cada vez há menos
janelas, olhos para a rua. Cada vez há mais vítimas de violência. Alguma coisa
está errada.
Ao mesmo tempo, as pessoas se fecham
progressivamente em seus próprios mundos. Privacidade virou uma espécie de
sinônimo de segurança assim como o anonimato urbano. Se antes era bom que os
vizinhos se conhecessem uns aos outros e suas rotinas, como uma forma de saber
se algo de errado poderia ter acontecido, hoje cada vez menos confia-se em
qualquer outra pessoa, inclusive nos vizinhos. Ninguém mais se conhece. As
pessoas que habitam o mesmo prédio, entram todos os dias às mesmas horas nos
elevadores, encontram-se e cruzam-se todo o tempo, dificilmente passam da
conversa meteorológica para qualquer outra. Constroem-se blindagens, muros,
cascos, a fim de nos protegermos - do quê? Nem sabemos mais. Mas nos fechamos
para evitar qualquer tipo de interação que possa interferir de alguma forma nas
nossas vidas regradas por expedientes e agendas.
Você acha estranho tudo isso que eu disse? Se
acha muito aberto e pensa que tudo isso é uma bobagem? Então vá lá tocar a
campainha do vizinho agora e pedir uma xícara de açúcar. Aproveite e pergunte
como vai a vida dele. Eu te desafio! Se você ainda acha que não é problema, por
favor me mande uma foto da cara de surpresa do seu vizinho. Ele, com certeza,
fará uma.
A verdade é que, ultimamente, intimidade é
rara. À medida que se confia pouco nas pessoas, mais nos fechamos dentro de nós
mesmos e vivemos com as limitações dos problemas e experiências que são só
nossos, já que não nos abrimos a outros. Quando foi a última vez que você
começou um novo relacionamento? Não estou nem dizendo amoroso. Mas quando foi
que você se abriu pela última vez para uma nova amizade ou um novo conhecido?
Faz tempo? E como anda sua mesmice então? Boa?
Nossa geração é a geração do muro, seja de
alvenaria, seja de barreiras psicológicas criadas cuidadosamente para não nos
afundarmos demais nos perigosos sentimentos, nas dificuldades de nos
relacionarmos com outras pessoas, sejam as barreiras cibernéticas das redes
sociais.
A culpa não é da vítima
Se você não tomou o devido cuidado, não
vestiu roupas adequadas, não se manteve afastado, não se protegeu; se colocou o
pé na rua na “hora errada”, prepare-se: a culpa vai ser sua.
Um cartaz de uma garota em meio a um protesto
contra estupro dizia “ninguém me perguntou o que meu estuprador estava
vestindo.” Melhor indício de que a culpa recai sobre a vítima nas situações
mais esdrúxulas é exatamente esse. A roupa da garota foi com certeza examinada
de cima a baixo por quem registrava a ocorrência. A roupa do estuprador para
identificar o criminoso, ninguém quis saber.
© Bangalore, protestos contra
estupro, (Wikicommons, Jim Ankan Deka).
Arrumamos motivos para a ocorrência dos
crimes. Isto está completamente errado. Crime não precisa de motivação. Apenas
oportunidade. Culpar a vítima por exposição ou descuido é ignorância. A culpa
não é da vítima. A culpa é do criminoso e da sociedade de maneira geral que
praticamente o criou e educou como criminoso. Além de uma série de fatores que
geraram a oportunidade do crime. Antes de procurar quem culpar, deveríamos
estar mais preocupados em encontrar soluções para que os crimes não se repitam.
Culpar as vítimas de um crime é coisa que me
dói muito assistir. A sociedade está tão condicionada a se proteger, se
esconder, a sobreviver ao invés de viver, que quando alguém se recusa a isso,
quando alguém sai da bolha, é automaticamente condenado por todos os “ismos”,
preconceitos e preceitos da moralidade e do medo.
A minha geração é a geração do medo. Do carro
blindado com insulfilm, alarme e rastreamento; do muro de três
metros porque “brincar na rua é perigoso”; do “essa saia é muito curta” ou
“esse batom é muito vermelho”; do “andar de mãos dadas na rua já é provocação”;
do gostar de alguém é se expor; e também do “não toma gelado que faz mal.”
E se não somos assim, qual será o preço a
pagar por querer andar descalços e de peito aberto contra o mar de gente que se
agarra a tudo isso?
© Morguefile.








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