Brasil:
política
Josias de Souza
é jornalista desde 1984. Nasceu na cidade de São
Paulo, em 1961. Trabalhou por 25 anos na "Folha de S.Paulo" (foi
repórter, diretor da Sucursal de Brasília, Secretário de Redação e
articulista).
“A diferença entre a política e a politicagem, a
distância entre o governo e o ato de governar, o contraste entre o que eles
dizem e o que você precisa saber, o paradoxo entre a promessa de luz e o
superfaturamento do túnel. Tudo isso com a sua opinião na caixa de
comentários.”
“Eu vou pra casa”,
limitou-se a declarar Lula aos repórteres que tentaram arrancar dele uma reação
qualquer ao afastamento de Dilma da poltrona de presidente da República.
Habituado a ouvir o personagem durante vários anos, o país ficou sabendo que
Lula, a caminho do automóvel após testemunhar a saída de sua criatura do
Palácio do Planalto, não tinha nada a dizer. Por um instante, nada foi uma
palavra que ultrapassou tudo.
Lula poderia ter dito
muitas coisas. Por exemplo: “Escolher Dilma como candidata em 2010 foi um
grande erro. Renovar a escolha em 2014 foi uma temeridade.'' Ou: “Jamais
deveríamos ter permitido a conversão da rotina em escândalo.” Ou ainda: “Onde
estávamos com a cabeça quando trocamos a responsabilidade fiscal pelo
malabarismo econômico?”
Lula
poderia ter feito um mea-culpa. Algo
assim: “Depois de tudo o que ocorreu no caso do mensalão, eu não poderia ter
avalizado a nomeação de petrogatunos para a diretoria da Petrobras. Pagamos
agora a conta da longevidade de um poder promíscuo.”
Lula poderia ter
despejado dados sobre os gravadores e os microfones dos repórteres: “Na era
petista, todos os estratos sociais prosperaram. A renda dos 10% mais pobres
subiu 129% acima da inflação. A dos 10% mais ricos aumentou 32%. Mas a ruína
econômica mastiga esses ganhos.”
Lula poderia ter
recorrido às lamúrias: “O Brasil usufruiu como poucos do chamado ciclo das
commodities. Mas lamento não ter feito as reformas estruturais. Lamento também não ter impedido a
manobra das pedaladas fiscais, que maquiaram a realidade em meio a uma gastança
que, se reelegeu a Dilma, criou o pretexto para derrubá-la.”
Lula poderia ter
constatado que, em 13 anos, ajudou o PT a protagonizar o caso mais dramático de
flexibilização das fronteiras ideológicas. Dormiu de um lado e acordou do outro
lado, de mãos dadas com Sarney, Renan, Cunha, Collor e o imenso etcétera que
cavou a sepultura do impeachment.
Lula poderia ter dito
como se sente na pele de alvo da PF, do STF e do juiz Sérgio Moro. Antes de
entrar no carro, Lula poderia ter gritado para os repórteres: “Eu amei
profundamente o desastre. E fui correspondido.”

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