Literatura: crônica (música)
Por Contreraman
“E as
coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca
terminarem. Até um fim que nunca vem...”
Passou-se muito tempo até que
eu conseguisse conectar esses universos, mas nunca o fiz nem o faço da forma
habitual, pegando as referências que a maioria de nós leva da vida com momentos
importantes da política, em nossa humilde opinião.
Quando eu fazia
jornalismo na ECA-USP, eu não realizava as necessárias e talvez benfazejas
conexões entre o contexto político (a política sempre me atraiu) e o ambiente
musical da época. Para mim, era como se eu vivesse, em última instância,
compartilhando, em mim, universos estanques que diziam respeito somente a
estética, pelo lado da música, e o dever-se, pelo lado da política.
Passou-se muito tempo até que eu conseguisse
conectar esses universos, mas nunca o fiz nem o faço da forma habitual, pegando
as referências que a maioria de nós leva da vida com momentos importantes da
política, em nossa humilde opinião. Para mim, a conexão entre os universos
parece ser mais intrínseca, e menos dependente de modismos ou de fases da vida.
Em outras palavras, sou mais frio com tudo isso.
Hoje percebo por exemplo que na década de 80
minha fixação nos guitarristas virtuosos não se devia necessariamente ao jeito
macho-man que eles usavam para enlevar os seus egos, mas, com um olhar mais
pessimista, à descrença na palavra. Faço aqui um breve excurso pessoal.
Eu vivia uma fase horrível, com brigas
horrendas em casa, por motivos familiares que não vem ao caso explicar, e por
outro lado sentia que a ditadura militar (1964-1989) estava sendo objeto de
excessivo palavreado e, por outro lado, tudo o que era dito parecia em última
instância infundado ou originado de quem não mandava. Boatos.
Eu lia a revista Senhor, que não parece ter
deixado muitas marcas no jornalismo político mas que me nutria com análises
menos rasteiras do que as tradicionais e um foco mais conservador que eu
apreciava na The Economist (que, pelo meu parco inglês, mal conseguia ler). Eu
sentia, aqui comigo, que passada a transição (sobre a qual todos os professores
não se cansavam de chutar), algo de novo iria aparecer - algo que eu não
necessariamente estava a fim de conhecer.
As brigas familiares me impunham a descrença
na palavra falada. O contexto sócio-político me impunha descrença na palavra
escrita. Os guitarristas preenchiam esse meu intenso elã numa expressão que não
acontecia. Os meus guitarristas prediletos eram Yngwie Malmsteen, Vinnie Moore
e Tony Macalpine (este, negro).
Hoje noto também: as músicas que mais me
atraíam no "sueco" e erudito Malmsteen
diziam respeito a energia enquanto mola
propulsora da vida (Far Beyond the Sun),
o universo indômito (Krakatau)
e uma certa admissão fatalista de que
as coisas são mesmo isso: Ascenção e queda (Black Star)
e uma ou outra balada de amor romântico
piegas que eu não ousava - como não ousei até há pouco tempo - admitir Dreaming
(Tell Me)
Eu até certo ponto odiava os vocais, mesmo
que ousassem ser bregas como eu apreciava. Eles "diziam" algo, e eu
como que não queria que ninguém mais "me dissesse" nada. Havia nele
claro a atração pelo rebuscado erudito, mas essa não se manteve com o tempo.
Mas havia os outros, que ficaram mais lá para
trás. Como Vinnie Moore.
Em sua obra, as atrações diziam respeito a um
tipo de energia incontida (presente em Race with Destiny)
e
Prelude/ Into the Future,
faixas de Time Odyssey, de Vinnie Moore) ou
em algo que remetia a motivos pessoais (Saved by a miracle).
Neste caso, eu relembrava, enquanto ouvia a
faixa e o solo bastante adequado de bateria, minha forte experiência com motos
e momentos de perigo por que passei.
Mas e em Macalpine?
Tony Macalpine
Aqui é interessante notar como ele me atraía
por seu interesse social (Edge of Insanity) ou quem sabe de
época apesar de no fundo o de que eu mais
gostasse fosse de seu timbre distorcido ao extremo, especialmente nos solos.
Em suma, a única conexão, digamos, social ou
política da obra desses guitarristas em minha psique dizia respeito a uma
descrença no entendimento - que em mim, em grande parte, ainda vigora, mesmo ou
por causa mesmo de minha maior experiência prática (fui síndico e conselheiro,
vivenciei bastante mais de política na prática como repórter, assim como de
vida crua, a chamada vida de cão, enquanto repórter de Geral). Não fiquei com
coração peludo, como dizem, mas quase.
Mas o tempo passou e com ele, minha vida. O
foco nos guitarristas amainou, embora não tenha desaparecido de todo, e fui
ouvindo outras coisas. Mas a curiosidade foi notar como passei ileso por todo o
rock incensado pelos anos 60 e 70, como não entrei na barafunda de paz e amor
ou liberdade, simplesmente, de gente como Lou Reed, David Bowie e outros ainda
mais influentes (Neil Young e Bob Dylan), não sendo porém cego a todas as
conquistas daquela geração e mesmo às influências literárias que advinham dela
(todo o New Journalism, os beats, etc.). Eu preferi descansar, meio sem
perceber, em uma estrela menor (embora grandiosa) deles todos: o canadense
Leonard Cohen.
Leonard Cohen
O hoje velhinho elegante me atraiu, desde o
começo, não por suas supostas mensagens políticas - que sempre existiram. Era
seu jeito simplório mas ao mesmo tempo elegante, seu jeito direto e
melancólico, seu romantismo mais afeito aos fatos, que mais me atraía - e que
atraiu também minha ex-esposa à minha pessoa. O tempo passou e foi esse caráter
mais leve e profundo que permaneceu. Mas como estamos falando de contexto,
preciso citar duas músicas que possuem esse link e que, embora deploráveis para
alguns, passaram a compor meu universo de crença ou descrença no amanhã: First
we take.
Manhattan
Era final dos 80, começo dos 90, queda do
muro de Berlin (que até hoje não entendo, refiro-me ao muro, não à sua queda),
começo do multilateralismo geopolítico (com o fim da Guerra Fria) e os
conflitos no começo superestimados mas depois corretos entre religiões e visões
de mundo (à la Samuel Huntington, que eu lia na época, dado fazer cursos sobre
Filosofia e Estratégia - este último, que não concluí). E First we take
Manhattan e The Future me passavam uma perspectiva nada animadora, muito ao contrário
- sombria, embora - sempre - de extremo bom-gosto.
Era bem o que eu achava. As pessoas falavam
coisas, e não cumpriam. Pregavam moralidade, e molhavam a mão do guarda de
trânsito por alguma infração pela qual não queriam ser penalizadas (e nem levavam
pontos na carteira, caramba), diziam que ouviam o contraditório mas queriam
amassá-lo com porradas ou jogo sujo, falavam acreditar na paz e forjavam a
guerra nos níveis mais baixos das psiques próprias e alheias.
Pois o canadense via tudo isso, e reparava
que o jogo agora iria ser subterrâneo e sobremaneira sujo a ponto de superar
qualquer empecilho moral - não à toa The Future é trilha de
Assassinos por Natureza.
Natural Born Killers
Isso não era aquilo que eu queria como
dever-ser, mas era como as coisas me apareciam, também - e em parte ainda
aparecem, muito embora tente me negar a admitir (em mim mesmo, principalmente,
o que denota uma clara hipocrisia ou ao menos um limite moral em termos de
ausência de escrúpulos). O velhinho falava coisa com coisa - ao menos para mim
(claro que não apenas eu o entendia).
Bom, estamos na década de 90, e tanto mais
iria acontecer... Mas isso fica para outro artigo, também bastante
idiossincrático!
















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