Bahia: política
Por Joaci
Góes
É
empresário, político, escritor, articulista,
Membro da
Academia de Letras da Bahia (BR)
UM GRANDE
DESAFIO
Michel Temer defronta o maior desafio político-econômico imaginável, em
razão do estado de penúria em que se encontram as contas públicas brasileiras, exigentes de largo espaço de
tempo para a restauração de sua normalidade, tarefa que exige sacrifícios, com
os quais todos concordam, desde que recaiam sobre os outros! Algo como as
radicais mudanças propostas pelo Gato Pardo de Lampedusa: “Mudemos radicalmente
o estado das coisas, desde que permaneçam exatamente como se encontram”!
Milton
Friedman e sua mulher, Rose, herdeiros do pensamento liberal, cultivado,
sobretudo, na Universidade de Chicago, escreveram um livro, The tiranny of the
status quo, em que analisam as dificuldades para mudar as práticas dominantes
numa determinada sociedade.
O populismo
bolivariano do governo petista estimulou, como nunca, a gastança irresponsável,
na crença infantil de que o Estado é capaz de tudo, inclusive de criar quanta
riqueza for necessária para atender à política de manutenção do poder a
qualquer preço, como tão bem expressou Dilma Rousseff: “Farei o diabo para
ganhar estas eleições”! E fez, como todos sabemos! O governo agiu como se não
compreendesse que o Estado, ao contrário de criar riquezas, vive à custa da
sociedade, como advertiu Frederick Bastiat, em meados do Século XIX.
Ao término
da insensata aventura petista, o Brasil patina numa crise cujo reflexo mais
grave se exprime nas elevadas taxas de desemprego que infelicitam a Nação. Para
superá-la, é indispensável a retomada do crescimento econômico que depende do
grau de confiança que o governo for capaz de inspirar aos setores produtivos.
Imperativos de ordem prática impedem que Michel Temer monte um ministério com
personalidades acima de qualquer suspeita. Com a flexibilidade que demonstrou,
alimentada por sua larga experiência política, reuniu a melhor equipe possível,
permitida pelas circunstâncias, ainda que a reboque de inevitáveis críticas,
inclusive pela ausência de mulheres no primeiro escalão. A governabilidade,
expressa na capacidade de aprovar as medidas que encaminhar ao Congresso, falou
mais alto.
A aprovação
de algum tributo, ainda que por tempo determinado, a par da adoção de medidas
que restrinjam direitos e privilégios de diferentes setores, vai depender da
disposição de cortar na própria carne de certas áreas que primam pelo
esbanjamento de recursos públicos, a exemplo das duas casas do Congresso
Nacional, a Câmara dos Deputados e o Senado da República. O Custo anual somado
das duas casas sobe a 12 bilhões de reais, cabendo a cada uma um orçamento
superior ao da cidade do Salvador, com seus três milhões de habitantes. Pode?
Até quando o
Congresso funcionava no Rio de Janeiro, os congressistas não tinham direito a
passagens aéreas, a apartamentos funcionais, a escritórios, nem a funcionários.
Observe-se que, à época, atuavam parlamentares da expressão dos irmãos João e
Otávio Mangabeira, Luís Viana Filho, Juracy Magalhães e Tarcilio Vieira de
Melo, para ficarmos, apenas, com nomes baianos. Os fatos comprovam que o
Congresso Brasileiro piorou de qualidade, à proporção que aumentou o custo de
sua manutenção.
Com o
advento da revolução digital, registrou-se sensível aumento da produtividade
das organizações, em escala planetária, com expressivo aumento de ganhos para
as partes envolvidas. A General Electric, por exemplo, paralelamente à redução
do número de seus empregados, mais que dobrou o seu faturamento.
A japonesa
Toyota, uma das líderes mundiais na produção de automóveis, chegou ao extremo
de montar fábricas inteiramente operadas por robots. Enquanto isso, o setor
público brasileiro, ignorando inteiramente o edificante exemplo do mundo desenvolvido,
vem aumentando seu quadro de pessoal, sem incorporar os ganhos de produtividade
proporcionados pelas novas tecnologias. O resultado é o que se vê: não obstante
dotados de recursos vultosos, como a educação e a saúde, os órgãos públicos
nacionais vêm elevando seus gastos operacionais acima dos ganhos de
produtividade, no estilo que vem quebrando os países bolivarianos que leem na
velha e carcomida cartilha do populismo inconsequente que levou o Brasil às
cordas.
Para a
Administração Pública brasileira retomar os caminhos da eficiência, impõe-se a
restauração do primado da meritocracia na escolha dos servidores públicos,
enquanto rezamos pelo adensamento da consciência de que sem uma educação de
qualidade accessível a todas as camadas, a universalização da genuína cidadania
será uma permanente miragem.

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