quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A inveja nossa de cada dia - Como lidar com ela

                              Joaci Góes*

Capítulo: Flashes Invejosos
Rafael e Miguel Ângelo
Rafael Sanzio (1483-1520) sofreu no cerne a inveja cortante que a ele votou Miguel Ângelo (1475-1564), majoritariamente considerado o maior artista plástico de todos os tempos. Quando o jovem Rafael chegou a Florença, aos vinte e um anos, Miguel Ângelo – oito anos mais velho –, que já vinha trabalhando, há anos, os afrescos da Capela Sistina, sentiu-se ameaçado pelo brilho e pela elegância do novo artista. Recomendado ao papa Júlio II pelo célebre arquiteto Bramante, Rafael foi convidado a pintar os aposentos (stanze). Como trabalhavam em áreas distintas, supunha-se que se estabeleceria entre esses dois grandes mestres uma saudável competição, apesar da rixa antiga existente entre Bramante e Miguel Ângelo, então, no auge. Para agravar ainda mais os ânimos, Rafael fora discípulo de Perugino (Pietro Vannucci, 1450-1523), inimigo figadal do autor de Moisés que, num assomo de cólera, o chamara de “pangaré”. A ostensiva vinculação de Rafael a esses inimigos jurados foi o argumento usado por Miguel Ângelo para descartar qualquer possibilidade de ligação com o jovem artista.
Na pintura da sala da Assinatura, concluída em 1511, Rafael seguiu a inspiração do seu gênio, realizando trabalho absolutamente isento de qualquer influência miguelangelesca. No ano seguinte, porém, ao retratar Isaías, resolveu homenagear seu temperamental concorrente pintando à sua maneira, como já o fizera em relação a Perugino, Leonardo da Vinci e Fra Bartolomeo. Tomado de desabrida iracúndia, Miguel Ângelo inquinou de furto o que todos viam como um deferente preito ao seu gênio. Daí em diante, o que quer que Rafael produzisse Miguel Ângelo taxava de plágio grosseiro de suas criações. Obcecado pela ideia de que Bramante trouxera Rafael para perturbar-lhe a vida, como confessou em seu diário –
todas as dificuldades que têm surgido entre mim e o papa foram provocadas pelo ciúme         de Bramante e Rafael”
–, Miguel Ângelo convidou o pintor veneziano Sebastiano Del Piombo (1485-1547) para rivalizar com o autor da Transfiguração. A batalha artística que se travou, desde então, entre Rafael e Del Piombo fazia as delícias da Cúria: Rafael pintava um quadro e Del Piombo fazia a réplica, frequentemente com a ajuda direta do próprio Miguel Ângelo, cuja rivalidade e estilo procurava introjetar. O cardeal Júlio de Medici encomendou a Transfiguração a Rafael e a Ressurreição de Lázaro a Sebastiano Del Piombo. Eugène Muniz, citado por Raiga em seu livro Rafael, disse de Miguel Ângelo:    
“Ao agir como agiu, ele não podia ter como desculpa um ressentimento legítimo ou o         cuidado de sua defesa pessoal. Era a inveja e nada mais a inspiradora de suas ações”.
                Quando se tornou evidente e inegável a força criativa de Rafael, sobretudo depois de sua morte, Miguel Ângelo evoluiu para cristalizar sua inveja dizendo que tudo o que Rafael sabia aprendera consigo.  Tendo sobrevivido por quarenta e quatro anos a Rafael, Miguel Ângelo impôs a crença de que o odiado rival era um talentoso copista, visão incorporada pelos críticos e historiadores de arte do século XVI, a exemplo de Giorgio Vasari (1511-1574), que era, também, arquiteto, pintor e discípulo do autor da Pietà. Séculos transcorreram até que uma revisão criteriosa viesse a conferir a Rafael o lugar do mais elevado mérito, como um criador original e concorrente à altura do criador de Davi. Como o desabafo de Moisés já nos ensinara, a genialidade não é vacina eficaz contra a inveja!
NR*Joaci Góes, é empresário, bacharel em Direito, escritor, articulista, conferencista meticuloso e brilhante. Seus livros, A inveja nossa de cada dia como lidar com ela e Anatomia do Ódio – editora Topbooks – são ensaios que se inserem entre os mais sérios e competentes já produzidos acerca desses dois sentimentos na literatura mundial. Dono de prodigiosa memória, com o dom fácil de empregar a palavra certa no momento oportuno, abriga-se, sem favor, entre os grandes oradores nascidos no Brasil, gênero pouco cultivado entre nós nos dias atuais, pois carente de quem o abrace com brilho e competência.
 Foi Deputado Federal Constituinte e presidente da Comissão de Defesa do Consumidor, Meio Ambiente e Minorias. Relator do Código de Defesa do Consumidor.
Para ele o ócio é desperdício, produzir uma necessidade.
LCFACÓ


                  



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