quinta-feira, 18 de outubro de 2012

A PONTE


                                                                                  
Tinha consultório de dentista à Rua Santo Amaro, uma mulher e uma filha. A mulher, gorda, flácida, tranquila, era um barril de banha. Não vibrava, não suava. Chamava-se Plácida, um nome perfeito, quase perfeito. A filha Hebe, era o contrário: viva, inquieta, inteligente, não parava em casa. Estava adiante do seu tempo naquela Aracaju provinciana do ano de 1935. Tinha namorados e os beijava na boca. Pintura, cigarros, saias curtas, os seios balançando, soltos e firmes. Mais para bonita do que para feia. Uma moça falada. O pai, dr. Jorge, era daqueles dentistas que viviam de trocar algodão. O cara ia a seu consultório com uma cárie mínima, ele olhava, metia a broca, fazia um buraco enorme e o tapava, depois, com algodão, embebido em gaiacol.
E dizia para o cliente:
- Volte na próxima semana.
E na próxima semana a mesma coisa: tirava o algodão velho e colocava um novo. Um ritual sem fim.
Ganhava dinheiro, parece, de mudar algodão. Um ignorante. A ponto de anunciar em jornais: “Dr. Jorge Macedo não precisa de Raio-X  para resolver os seus problemas dentários”. Enquanto isso Hebe dançava, namorava, ia a Praia de Atalaia, escandalizava a sociedade de Aracaju com as suas palavras, maneiras e atitudes. Um certo dia Hebe arranjou um namorado novo, um rapaz chamado Wilson. Trabalhava na Casa Cristal, de louças e vidros. Era triste, calado, respeitoso. Exatamente o contrário de Hebe, alegre, irônica, espirituosa. Wilson Barroso viera do interior, do alto sertão sergipano, onde os pais, já velhos, trabalhavam a terra, seca e árida. Viera, principalmente, para tratar da boca: tinha mau hálito e dois dentes soltos.
Em Aracaju conseguiu resolver parte do problema – extração e colocação de uma ponte dentária. O mau hálito não tinha jeito, era do estômago, coisa que ele fazia por esconder. E a nova namorada não chegara, ainda, a perceber. Apesar dos pesares a Hebe gostava de Wilson. Poucos dias, em conversa, ela perguntou:
- Como é seu dia?
- Sou um homem triste. Assisto missa todos os dias, trabalho, leio jornal, rezo, vou dormir. Tenho medo do Inferno...
- Você não bebe, não fuma, não trepa, não vai ao cabaré e ainda assim tem medo do Inferno? Que saco!
Ele confessou, encabulado, que não fazia nada disso, mas, de acordo com a Igreja, tinha culpas e pecados capazes de jogá-lo às labaredas eternas.
- Você é santo demais. Você precisa é de más companhias.
Ele esboçou um sorriso amarelo, prendendo sempre a respiração para esconder o mau hálito. E o namoro continuou. Fazia quase um mês. Era São João. E o Recreio Clube anunciou o seu Baile de Chita. Era o melhor da cidade, depois do saudoso Clube dos Diários. Tinha um vasto salão de danças, uma boa orquestra, um bar de primeira categoria. Foi quando Hebe pediu a Wilson para levá-la à festa junina. Ele relutou, não queria ir mas decidiu atender ao pedido da namorada. A noite de São João, fria e estrelada, envolvia os seres e as coisas. Junto ao prédio da Prefeitura Municipal o Recreio Clube era esplendor de luzes, a sanfona soluçando como coisa viva, a voz linda de Sílvio Caldas, os pares volteando ao som de músicas nordestinas. Hebe e Wilson entraram na grande sala iluminada e pouco tempo depois estavam dançando, colados um ao outro, dominados pela magia do ambiente.
Nunca estiveram, assim, tão próximos. Quem falava era Hebe. Wilson, como sempre, calado e receoso. Em dado momento, porém, passaram a falar frente a frente. Logo a seguir Hebe afastou-se um pouco. Procurava fugir ao cara-a-cara, evidentemente. Wilson então perguntou:
- Alguma coisa, querida? Está se afastando de mim?
E ela, muito sincera, irônica e gaiata:
- É que estou sentindo um certo mau cheiro... Será que vem da sua boca?
E ele constrangido, depois de longo silêncio:
- É sim. É a ponte...
Hebe, no mesmo instante, sem doçura e sem piedade, respondeu:
- Então, você me desculpe, mas eu acho que cagaram embaixo da ponte...

Wilson, morto de vergonha levou um lenço à boca, deixou a namorada no meio do salão e saiu do clube como um derrotado. Voltava para as suas missas, para a sua tristeza, para o seu medo solitário do fogo do Inferno. Hebe, agarrada a um outro rapaz, de bigode e costeleta, dançava, ardente e apaixonada, como se aquela valsa fosse a valsa do fim do mundo...
Os cornos da lua, no céu escampo, pareciam sorrir, irônicos, da eterna comédia humana...
NR*Conto retirado do livro Aracaju Bye Bye – Contos virtuais, de 1955. Mário Cabral nasceu em Aracaju, Estado de Sergipe. Viveu dois terços de sua longeva vida de noventa e quatro anos, em Salvador, Bahia. Foi Imortal pela Academia Sergipana de Letras e pela do Rio de Janeiro. Foi jornalista, crítico literário, romancista e um dos mais inspirados poetas da vida literária brasileira. Dele disseram:
“Mário Cabral, poeta e romancista, eis um homem de letras que honra Sergipe e Bahia”. Jorge Amado;
“A tradição de crítica vigorosa de Sergipe, a tradição de Tobias Barreto, Sílvio, João Ribeiro, não se perderá como vocações como a de Mário Cabral”. José Lins do Rego;
“Gostaria de continuar a aplaudir os seus textos. Mande-os para prazer meu. E continui a traçá-los com a sua firme e cáustica pena de escritor brilhante”. Pedro Calmon.   
   

                                                                                                                       Mário Cabral*

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