quinta-feira, 18 de outubro de 2012

O CINEMA PASSADO EM REVISTA*


Amanheci lamentando a atual mediocridade da produção cinematográfica hollywoodiana.  Há muito não consigo assistir a um só filme que me satisfaça. Enredos, interpretações, direção, fotografia não me convencem. Saio do cinema revoltado por ter pago um preço razoável pelo ingresso só para ver produções esmeradas, bons guarda-roupas, cenários suntuosos e avançados recursos de computação, imagens digitais. Nada de bons roteiros, convincentes interpretações do elenco, fotografia esmerada, criativa, muito menos direção digna e inteligente.


O cinema, considerado a sétima arte, sob a minha ótica, é das mais complexas e abrangentes. Ela se apropria de todas as demais. A literatura (script), música, pintura e a escultura (cenários), fotografia (imagem), teatro (interpretação), e, ainda, vai à busca de outros recursos: som, iluminação, computação, edição, cortes e de profissionais familiarizados com todas essas expressões técnicas e artísticas para expressá-lo, convincentemente. Quando uma delas não funciona, o filme está fadado ao fracasso. E, se tal ocorrer, a culpa do insucesso sempre recairá sobre o diretor da obra. Em assim sendo, ao se socorrer de tantos elementos da criatividade humana e de plurais recursos tecnológicos, à obra cinematográfica só restará bem acabada, quando e, se por acaso, emocione o expectador pelo tema, o entusiasme pela forma e o torne cúmplice dos resultados nela obtidos.
Aliás, o ciclo de bons diretores capazes de atingir todos aqueles objetivos acabou. Não temos mais um Alfred Hitchcock, Stanley Kubrick, Charles Chaplin, Orson Welles, John Ford, Federico Fellini, Ingmar Bergman, Akira Kurosawa, Jean-Luc Godard, Louis Malle, Gláuber Rocha. Sumiram todos. Ficamos entregues aos Stevens Spielbergs e aos Georges Lucas da vida. Não que eu os desmereça, pois os reconheço capazes de faturar milhões de dólares em cada uma de suas produções. Nem que despreze a criatividade deles. Mas hei de considerar que estão degraus abaixo dos gênios do passado, que, sem a tecnologia do presente, brindaram-nos com inesquecíveis trabalhos. Verdadeiramente artísticos. As vinhas da ira, Cidadão Kane, A um passo da eternidade, Zorba o grego, Casablanca, A doce vida, Os sete samurais, Acossado, Deus e o diabo na terra do sol, O silêncio, para não ir muito longe. Minha frustração se faz maior porque desde pequenino me fiz cinéfilo. Não perdia um só filme. Sem manifestar preferência por gêneros. Assistia a tudo. Os musicais, A filha do comandante, Escola de sereias, os estrelados pelos dançarinos Gene Kelly e Fred Astaire. Comédias, indo de Carlitos a Cantinflas, passando por Bob Hope, Dorothy Lamour e Bing Crosby, os três Patetas, Os irmãos Marx, Red Skelton, o Gordo e o Magro. Aventuras: Os três mosqueteiros, A carga da brigada ligeira, Capitão Blood, Robin Wood, O cisne Negro, Uma Aventura na África (Africa Quenn). Ação: retratando episódios da Segunda Guerra Mundial ou os que se situavam no período da grande depressão americana, com o surgimento dos famigerados gansters. Românticos: A princesa e o plebeu, Sabrina, My Fair Lady, Candelabro italiano. Suspense: Um corpo que cai, Janela indiscreta, Vertigo. Westerns: Os brutos também amam (Shane), Matar ou morrer. Enfim, assistia até aos filmes classificados como de classe B, assim chamados por terem produção menos requintada e com atores e atrizes desconhecidos. E, em cada um deles, via algo de original, um bom plano, truques quase perfeitos, interpretações corretas, excepcional iluminação e atraente guarda-roupa. Em contraposição aos atuais, que só exploram o filão da violência, do sexo, exacerbando nos espectadores o sentimento da emulação, levando-os a copiar na vida real o que o filme lhes ensinou.
Ao alinhavar tais divagações, dei-me conta de que o Brasil nas décadas compreendidas entre 1940/70, experimentou, também, na área da arte do entretenimento cinematográfico, um período de ouro capitaneado pela Atlântida Cinematográfica. Produtora de filmes notáveis, que o mau humor da crítica tupiniquim, inconformado com o estilo inovador adotado naquelas películas, convencionou chamá-las de chanchadas, posto que traduziam histórias simples, porém bem-engendradas, direção correta, humor, espetáculo musical, caricatura e um eterno final feliz. Davam luz a modismos, a inúmeras gírias e vernáculos que sobrevivem até os dias atuais.
“Meu brotinho por favor não cresça/ Por favor não cresça/ Nem murche como a flor/ veja só que galharia seca/ Está pegando fogo/ Neste carnaval/ Ai, ai brotinho(...).
Esses versos cantados por Francisco Carlos, El Broto, num daqueles filmes, fizeram que a palavra brotinho se disseminasse pelo país como sinônimo de menina, adolescente gostosa, atraente, sedutora.
“Não quero broto/ Não quero, não quero não/ Não sou garoto/ Pra viver nessa ilusão/ Sete dias na semana/ Eu preciso ver minha balzaquiana/ (...)”, foi o estopim para transformar a mulher de trinta anos numa balzaquiana.
A influência das chanchadas foi determinante na então vida brasileira. Isso porque, todas elas, sem exceção, retratavam o momento histórico-político-social da nação, em linguagem simples, acessível a todas as camadas da sociedade.
Para se ter ideia mais precisa do estrondoso sucesso que faziam, lembro-me de que, para assistir ao filme Colégio de brotos, que só perdeu em bilheteria para o clássico E o vento levou, passei mais de cinco semanas para obter um ingresso. Do total de sessenta milhões de brasileiros à época, pelo menos trinta milhões eram adeptos incondicionais dos produtos da fábrica de fantasias e sonhos da Hollyhood brasileira.
Ao Moleque Tião, o primeiro dos filmes produzidos pela Atlântica, somaram-se quase cem criações.  Todas aplaudidas delirantemente pelo público, malgrado o desprezo que a crônica especializada lhes devotava. Desprezo burro, por não distinguir, naquelas realizações simples, o toque genial da direção dos competentes Carlos Manga e José Carlos Burle, de quem fui amigo, o emprego de uma particularíssima linguagem brasileira, a cara do nosso humor, a exaltação das características histriônicas de atores e atrizes como Grande Otelo, Oscarito, um dos maiores comediantes do mundo, Zezé Macedo, Consuelo Leandro, Catalano.
Houve o fantástico aproveitamento das marcantes personalidades de Eliana, Adelaide Chiozzo, Francisco Carlos, Anselmo Duarte, mais tarde ganhador – como diretor – de uma Palma de Ouro em Cannes, com o filme Pagador de promessa, do imortal Dias Gomes, Cyll Farney, Neide Aparecida, Dercy Gonçalves, José Lewgoy, o eterno vilão daqueles filmes, Paulo Gracindo, Heloísa Helena, e uma legião de intérpretes que se tornaram, merecidamente, astros e estrelas em magníficos espetáculos teatrais e em novelas televisivas. O emprego merecido de cantores e cantoras talentosas como as irmãs Batistas, Linda e Dircinha, Dick Farney, Blackout, Emilinha Borba, Marlene, Alcides Gerardi, Doris Monteiro, Silvio Caldas, Nelson Gonçalves e as vedetes estonteantes Virgínia Lane, Mara Rúbia, Luz Del Fuego, Wilza Carla.
Não fosse a Atlântica, nascida em 1941, sem financiamentos oficiais, sem utilizar dinheiro público como, nos dias atuais, exigem nossos cineastas, para consubstanciar seus projetos, por certo não teríamos crescido culturalmente. Ela foi uma escola. Formou excelentes profissionais que emprestam, hodiernamente, seus conhecimentos ao teatro e às nossas televisões.
Por justiça, não devo esquecer de mencionar que a contribuição dada pela Atlândida à cultura nacional, não foi isolada. A Cinédia e a Vera Cruz também tiveram papéis preponderantes nesse mister.
Foi uma pena a chanchada ter morrido. O mesmo sentimento me acode, quando percebo o desaparecimento dos musicais americanos. Resta-me chorar por ambas as perdas. Muito mais pela chanchada. Uma etapa gloriosa da nossa cinematografia, que procura reviver, mas claudica por não encontrar bons scripts e uma linguagem que o público entenda, como a chanchada conseguiu.

*Texto compilado, modificado e acrescentado do livro Contos em Cantos Saudoso de autoria de Luiz Carlos Facó.  Copyright 2008.
           
             
   

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