Conto
de Artur Azevedo
(foi
respeitada a ortografia original)
Ainda não houve no Rio de Janeiro "república" de estudantes
mais séria que a do Coutinho, na Rua do Resende. Na vizinhança diziam todos que
os moradores daquela casa pareciam, não estudantes, mas altos funcionários e
chefes de família. Era uma "república" modelo.
Como não devia ser assim, se o Coutinho, filho de um rico fazendeiro de
Minas, estudioso, tranqüilo e morigerado, reunira naquele sobrado quatro
comprovincíanos seus, de um comportamento irrepreensível, e todos filhos de
gente abastada, para que nada faltasse em casa, nem houvesse credores à porta?
Um deles particularmente, o Gaspar, era tão grave, que raramente sorria,
poucas vezes conversava, e parecia ter o dobro da sua idade; entretanto, era o
único dos moradores daquela casa que passava as noites fora...
Nunca ninguém viu entrar ali mulheres, o que não quer dizer que os cinco
rapazes fossem santos.
O Coutinho, por exemplo, gostava de uma linda espanhola da Rua do
Riachuelo; mas a pequena só admitia que ele a visitasse pela manhã, pois só
pela manhã estava livre: do meio-dia em diante pertencia a um velho negociante,
octogenário, que lhe tomava toda a tarde e toda a noite sem lhe tomar mais
nada, segundo ela dizia e o Coutinho acreditava, porque os rapazes acreditam em
tudo quanto as mulheres dizem.
Ora, um dia fez anos o Leandro, o mais alegre e o mais novo dos cinco, e
ofereceu aos companheiros um almoço regado por diversas bebidas, que tinham
tanto de finas como de capitosas.
Beberam todos, inclusive o austero Gaspar, mas não se excederam, embora
ficassem mais expansivos que de costume. Tão expansivos que vieram amores à
baila, e o Leandro entrou a contar a sua aventura mais recente.
- Saibam que tenho uma amante! - disse ele.
- Também eu! - acrescentou o Coutinho.
- É espanhola!
- Também a minha.
- Mora na Rua do Riachuelo.
- A minha também! Se disseres que o nome dela é Mercedes, aposto que
somos rivais!
- É efetivamente Mercedes, que ela se chama!
- O número da casa?
- Trinta.
- É a mesma! A mesmíssima!
- Que mulher fingida!
- Que desavergonhada! Ela só consente que estejamos juntos antes do
meio-dia, porque dessa hora em diante pertence a um octogenário!
- A mim só me recebe à tardinha, porque à noite o octogenário lá está!
- E esse octogenário é um unhas de fome...
- Um vinagre...
- Que não lhe dá tudo quanto ela precisa...
- Pelo que é obrigada a recorrer à minha bolsa...
- E à minha!...
- Que mulher!...
- Que desavergonhada!
No calor da inopinada revelação, cortada pelas gargalhadas sonoras de
dois dos companheiros, não repararam os rapazes que o Gaspar chorava
convulsivamente, escondendo o rosto entre as mãos.
Os quatro, que atribuíram esse pranto ao vinho (e até certo ponto não se
enganavam), correram para ele:
- Então?... Que é isso, Gaspar?... Que é isso?...
O austero estudante ergueu a cabeça e berrou, enquanto as lágrimas lhe
deslizavam pelo rosto abaixo:
- O octogenário sou eu!...

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