Por Fernando Alcoforado*
Com
a eleição de Carlos Andrés Pérez em 1989, foi introduzido o modelo neoliberal
na
Venezuela
no final da década de 1980, que ficou conhecido à época como “el gran
viraje”. Suas propostas incluíam
privatizações, desvalorização da moeda, reforma
tributária,
desregulamentação e redução de tarifas, entre outras. Ao mesmo tempo,
aumentaram
os preços dos produtos produzidos pelas indústrias estatais, principalmente
aquelas
ligadas ao petróleo, o que elevou consequentemente os preços da gasolina e as
tarifas
de transportes públicos.
Esta
situação produziu uma série de protestos nas ruas gerando uma crise de
governabilidade,
que culminou no conhecido Caracazo, caracterizado como uma
insurreição
civil contra o governo Pérez que matou ao menos 300 pessoas (segundo
fontes
não oficiais mais de mil pessoas teriam sido mortas). Em 1991, explodiram novas
manifestações
contrárias à política econômica do presidente Pérez. Os manifestantes
exigiam
o cumprimento das promessas de campanha, traídas quando Pérez chegou ao
poder
e implementou as reformas neoliberais.
Em
fevereiro de 1992, houve a tentativa de golpe militar comandada pelo então
tenente
coronel
Hugo Chávez com o objetivo de tomar o poder no país que foi derrotada pela
ação
dos militares que permaneceram fiéis ao presidente Pérez. Apesar de todas as
demonstrações
feitas pela sociedade civil, das seguidas tentativas de golpe militar, do
aumento
da desaprovação de seu governo e da pressão política das sucessivas greves
que
paralisaram o país, Pérez se recusou a mudar sua política econômica,
persistindo no
aprofundamento
das reformas neoliberais.
Em
março de 1993, o Procurador-Geral, Escovar Salom, denunciou oficialmente Carlos
Andrés
Pérez por má administração de fundos públicos. Em agosto de 1993, o
Congresso
removeu definitivamente o presidente Pérez do cargo de mandatário da
Venezuela
após as claras evidências de corrupção em seu governo. Após o impeachment
do
presidente Pérez, o Congresso elegeu de maneira indireta o senador independente
Ramón
Velásquez que permaneceu apenas oito meses no poder. Sua administração
organizou
as eleições presidenciais de dezembro, na qual Rafael Caldera foi o vencedor.
Em
1994, Caldera resolveu anistiar Hugo Chávez e os demais lideres do golpe
militar
de
1992, libertando-os da prisão. O governo Caldera estabeleceu o controle dos
preços e do câmbio. Ainda em 1994, uma crise financeira provocou o colapso do
sistema
bancário,
o que levou o Estado a assumir o controle de 18 bancos privados e a fuga de
322
banqueiros do país, com o objetivo de escapar das acusações de fraude
econômica,
levando
milhões de dólares na bagagem. No entanto, o primeiro conjunto de medidas
tomadas
pelo presidente Caldera não foi capaz de impedir em 1996 o registro da
inflação
de 103% e o crescimento negativo do PIB de menos de meio ponto.
A
partir de 1995, em uma tentativa de mudar a orientação da economia, o governo
Caldera
optou por tomar os rumos do neoliberalismo, inclusive com a assinatura de um
acordo
com o FMI e o compromisso de realizar reformas neoliberais. Se em um
primeiro
momento as novas medidas econômicas tomadas pelo presidente Caldera
apresentaram
bom resultado, com o passar do tempo a Venezuela retornou aos
problemas
de outrora. Enquanto isto, após dois anos na prisão e demitido do Exército,
Hugo
Chávez incorporou-se à vida político-institucional e apresentou sua candidatura
para
as eleições presidenciais de 1998, sendo eleito com 62,46% dos votos prometendo
combater
a corrupção praticada pela classe política e econômica dominante e uma total
refundação
da República.
Desde
sua eleição em 1998, Hugo Chávez ganhou notoriedade no espaço político latino-americano.
Alguns
o viam como um governante de vanguarda, representando o que há
de
mais avançado no pensamento de esquerda da América Latina, outros o entendiam
como
mais um movimento autoritário levado adiante por um caudilho. Desde 1998,
Chávez
venceu diversos pleitos eleitorais, passou por uma tentativa de golpe militar
em
2002,
demarcou e priorizou sua base eleitoral com diversos programas sociais,
conhecidos
como “missões”, controlou politicamente o país realizando, inclusive,
mudanças
na Constituição do país (fato que se deve, em parte, à sua capacidade política,
mas
também à incapacidade da oposição em se organizar após as derrotas nas urnas) e
com
a prerrogativa de estar buscando os objetivos da inclusão social e da
democracia
participativa
e chegou a sustentar altíssimos níveis de popularidade, principalmente
entre
os anos de 2004 e 2007.
As
duas grandes marcas do governo Chávez diz respeito ao propósito de realizar a
Revolução
Bolivariana e implantar o Socialismo do Século XXI. Esse socialismo
proposto
por Chávez em 2005 no Fórum Mundial em Porto Alegre seria nutrido pelas
correntes
mais autênticas do cristianismo, pelo marxismo e pelas ideias de Bolívar.
Entretanto,
o discurso proposto pelo socialismo do século XXI e sua aplicação prática
se
defrontam com uma série de problemas estruturais que o governo de Hugo Chávez
não
conseguiu resolver como, por exemplo, eliminar com a expansão de seus setores
produtivos
a excessiva dependência do país da importação de inúmeros produtos,
inclusive
de alimentos.
Hugo
Chávez, eleito pela primeira vez em 1998, ganhou quatro mandatos presidenciais
sucessivos
pela via eleitoral. Nos primeiros anos da presidência de Chávez, ele
introduziu
reformas de bem-estar social que resultaram na melhoria das condições
sociais
dos “de baixo” na escala social. Implantou ainda sistemas gratuitos de saúde e
de
educação,
até o nível universitário, financiados pelo governo. Cerca de 1 milhão a mais
de
crianças foram matriculadas na escola primária desde que o líder bolivariano
chegou
ao
poder. Em 2003 e 2004, Chávez lançou campanhas sociais e econômicas convertidas
em
aulas gratuitas de leitura, escrita e aritmética para os mais de 1,5 milhão de
analfabetos
adultos venezuelanos. Este conjunto de medidas trouxe, segundo
levantamentos,
resultados como o crescimento em 150% da renda familiar dos mais
pobres,
entre 2003 e 2006, e a redução da taxa de mortalidade infantil, em 18%, entre
1998
e 2006.
Após
a morte de Hugo Chávez, a Venezuela tem
sido palco de turbulências econômicas
e
violentos confrontos entre chavistas e antichavistas desde 15 de fevereiro
passado.
Expressões
disso são a inflação anual de 56%, a escassez de moeda forte (que gera
especulação
com o dólar) e o desabastecimento de alguns produtos básicos que atinge
mais
fortemente setores de classe média, que veem bloqueados seus hábitos de
consumo.
Sem crédito e sem divisas, a Venezuela passou a depender ainda mais das
vendas
do petróleo como única fonte de ingresso de capitais. Um fato indiscutivel é
que
a
Venezuela é um país dividido e polarizado ao extremo entre chavistas e
antichavistas
cuja
radicalização está crescendo podendo levar à eclosão da guerra civil e a
implantação de uma
ditadura pela facção vencedora para manter a ordem no país. Muito dificilmente,
a democracia representativa se sustentará devido à dificuldade de se
estabelecer um pacto social que exigiria o consenso na Sociedade Civil de
difícil construção na Venezuela.
*Fernando
Alcoforado, 74, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e Desenvolvimento
Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário e consultor
nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial, planejamento
regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos livros
Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil e a
Nova (Des) ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o
Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento
do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de Barcelona,
http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e
Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do
Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA,
Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social
Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller
Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento
Global e Catástrofe Planetária (P&A Gráfica e Editora, Salvador, 2010),
Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento
global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011) e
Os Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV,
Curitiba, 2012), entre outros.

Nenhum comentário:
Postar um comentário