Na verdade dirigida aos amantes da poesia e prosa
“Caro Facó, amigo e escritor:
Não
é nada nova, só vã expressão. A poesia é a essência, o sumo, a ideia e que não
subsiste sem forma ou o invólucro da palavra escrita, em dezenas de
modalidades, face ao critério dos poetas e das tendências literárias. Escrever
sobre o assunto seria preciso produzir um livro. Tudo parte do grego, o povo
mais inteligente do mundo. Surgiram o clássico, o heroico, o parnasiano, o
romântico e o realismo. Do escritor Marinetti, escritor italiano, vieram novos
critérios, canaletes do modernismo e do pós-modernismo. Até, mesmo, a esdrúxula
poesia concreta de Ferreira Gullar e de Haroldo de Campos. Uma poesia sem
verso, um mirabolante exercício mental, que, não obstante, encontrou adeptos e
exegetas. Era a poesia da não-língua, tentando uma vã proeza, algo bem perto do
insólito e do ridículo.
E
o soneto? Para mim a mais bela forma de expressão poética, obedecendo, de
maneira generalizada, à disposição rimária ortodoxa do modelo italiano. Se é
bela a ideia, a forma a completa em rima, ritmo, metro, cesura, sonoridade. O
segredo maior está na rima, não comum ou de rotina, mas justa, precisa,
adequada, em encaixe de maneira absoluta.
Compor
um soneto é como esculpir um bloco de mármore, a caneta e o cinzel juntos,
harmônicos, sem tempo a medir. E vem a criação, o corte, o retoque, o burilar,
a forma ideal de surgir da sombra vaga e difusa. Da massa bruta, surge, de
repente, a expressão da vida, emoção ou encantamento. Só o bom soneto é obra de
arte e do talento motriz, o mau é peça falida.
No
meu tempo, na cidade de Aracaju, admirava os sonetos dos sergipanos Garcia
Rosa, Passos Cabral, Cleómenes Campos, Barreto Filho, João Daniel, Artur Fontes
e Jacinto de Figueiredo. E os modernos, também, à frente dos quais José Maria
Fontes.
Não
sou um sonetista para fazê-lo como um Bilac, Cruz e Souza ou Artur Salles com
seu maravilhoso Ocaso no Mar ou o nosso Hermes Fontes com o seu doce e
comovente Mãe.
Poemas
modernos sempre os fiz, escrevi e publiquei. E os produzi sem muito empenho de
forma, tipo currente calamo.
Na
era antiga a poesia estava no seu apogeu popular, não limitada à elite e aos
críticos. A poesia estava aos livros, cadernos, jornais, álbuns, salões e
academias, com as declamações de Graziela Cabral, Maria Sabina e Júlia Lopes de
Almeida. Não esquecer Didi Caillet, com sua doce entonação de pássaro cativo, a
declamar Pirulito que bate bate, pirulito que já bateu. A voz no silente salão
azul, trazia a saudade do passado e a nostalgia das cantigas de roda e da
ciranda.
O
soneto esta na literatura dos grandes poetas mundiais, sempre com fama e
destaque. Gosto do que você, Facó, escreve e publica, já o disse e repito,
claro e bom som. Muita ideia, percepção, muito talento em prosa, dramaturgia e
verso. Mas para mim, o soneto, o bom, não o pasticho, é a forma definitiva e
consagrada. Enfim: toda boa poesia, clássica ou moderna, me toca e me
incentiva. São da mesma cepa um Jordão de Oliveira e um Portinari, como um
Coelho Neto e um Guimarães Rosa, com, O Sertão e Grande Sertão. E de permeio,
Os Sertões, de Euclides da Cunha. Três obras-primas sobre o mesmo tema de
tragicidade humana. Falo de prosa e de poesia. O soneto é outra coisa: uma
forma, um modelo, uma concepção universal. Quem não conhece o Soneto d’Avers?
Vai ai abaixo, uma poesia moderna intitulada O Panorama. Veja se gosta:
De
feição dúplice. Complexo
de
curvilíneas bordas.
Um
canyon a dividi-lo
em
partes glúteas.
Ora
globos adjacentes
à
serpente voraz, que jaz inerte.
Ora
profundo traço rubro
por
mata ou relva rala a protegê-lo.
Acima
um róseo módulo, discreto.
Ali,
porém, bem perto,
invertido
vulcão.
Esse
o panorama
Visto
do fundo do vaso.
Amigo
e admirador da sua poesia, e do seu talento memorialístico e epistolográfico.
Mário
Cabral – 30.01.2007 – SSA.”
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