quinta-feira, 20 de novembro de 2014

O ESCRITOR MÁRIO CABRAL ENVIA CARTA AO AMIGO LUIZ CARLOS FACÓ, SOBRE POESIA E PROSA

Na verdade dirigida aos amantes da poesia e prosa


Caro Facó, amigo e escritor:
Não é nada nova, só vã expressão. A poesia é a essência, o sumo, a ideia e que não subsiste sem forma ou o invólucro da palavra escrita, em dezenas de modalidades, face ao critério dos poetas e das tendências literárias. Escrever sobre o assunto seria preciso produzir um livro. Tudo parte do grego, o povo mais inteligente do mundo. Surgiram o clássico, o heroico, o parnasiano, o romântico e o realismo. Do escritor Marinetti, escritor italiano, vieram novos critérios, canaletes do modernismo e do pós-modernismo. Até, mesmo, a esdrúxula poesia concreta de Ferreira Gullar e de Haroldo de Campos. Uma poesia sem verso, um mirabolante exercício mental, que, não obstante, encontrou adeptos e exegetas. Era a poesia da não-língua, tentando uma vã proeza, algo bem perto do insólito e do ridículo.

E o soneto? Para mim a mais bela forma de expressão poética, obedecendo, de maneira generalizada, à disposição rimária ortodoxa do modelo italiano. Se é bela a ideia, a forma a completa em rima, ritmo, metro, cesura, sonoridade. O segredo maior está na rima, não comum ou de rotina, mas justa, precisa, adequada, em encaixe de maneira absoluta.
Compor um soneto é como esculpir um bloco de mármore, a caneta e o cinzel juntos, harmônicos, sem tempo a medir. E vem a criação, o corte, o retoque, o burilar, a forma ideal de surgir da sombra vaga e difusa. Da massa bruta, surge, de repente, a expressão da vida, emoção ou encantamento. Só o bom soneto é obra de arte e do talento motriz, o mau é peça falida.
No meu tempo, na cidade de Aracaju, admirava os sonetos dos sergipanos Garcia Rosa, Passos Cabral, Cleómenes Campos, Barreto Filho, João Daniel, Artur Fontes e Jacinto de Figueiredo. E os modernos, também, à frente dos quais José Maria Fontes.
Não sou um sonetista para fazê-lo como um Bilac, Cruz e Souza ou Artur Salles com seu maravilhoso Ocaso no Mar ou o nosso Hermes Fontes com o seu doce e comovente Mãe.
Poemas modernos sempre os fiz, escrevi e publiquei. E os produzi sem muito empenho de forma, tipo currente calamo.
Na era antiga a poesia estava no seu apogeu popular, não limitada à elite e aos críticos. A poesia estava aos livros, cadernos, jornais, álbuns, salões e academias, com as declamações de Graziela Cabral, Maria Sabina e Júlia Lopes de Almeida. Não esquecer Didi Caillet, com sua doce entonação de pássaro cativo, a declamar Pirulito que bate bate, pirulito que já bateu. A voz no silente salão azul, trazia a saudade do passado e a nostalgia das cantigas de roda e da ciranda.
O soneto esta na literatura dos grandes poetas mundiais, sempre com fama e destaque. Gosto do que você, Facó, escreve e publica, já o disse e repito, claro e bom som. Muita ideia, percepção, muito talento em prosa, dramaturgia e verso. Mas para mim, o soneto, o bom, não o pasticho, é a forma definitiva e consagrada. Enfim: toda boa poesia, clássica ou moderna, me toca e me incentiva. São da mesma cepa um Jordão de Oliveira e um Portinari, como um Coelho Neto e um Guimarães Rosa, com, O Sertão e Grande Sertão. E de permeio, Os Sertões, de Euclides da Cunha. Três obras-primas sobre o mesmo tema de tragicidade humana. Falo de prosa e de poesia. O soneto é outra coisa: uma forma, um modelo, uma concepção universal. Quem não conhece o Soneto d’Avers? Vai ai abaixo, uma poesia moderna intitulada O Panorama. Veja se gosta:
De feição dúplice. Complexo
de curvilíneas bordas.
Um canyon a dividi-lo  
em partes glúteas.
Ora globos adjacentes
à serpente voraz, que jaz inerte.
Ora profundo traço rubro
por mata ou relva rala a protegê-lo.
Acima um róseo módulo, discreto.
Ali, porém, bem perto,
invertido vulcão.
Esse o panorama
Visto do fundo do vaso.
Amigo e admirador da sua poesia, e do seu talento memorialístico e epistolográfico.
Mário Cabral – 30.01.2007 – SSA.

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