Literatura/ série: ”vale
a pena ler de novo”.
Foi
professor, bacharel em direito, jornalista, escritor, sobremodo poeta. Morto
aos 33 anos deixou enorme lacuna no meio intelectual da Bahia. É reverenciado
até os dias atuais.
O autor ao lado de João
Ubaldo Ribeiro
Luiz
Carlos Facó
Excerto de uma palestra pronunciada em 2011
sobre o singular poeta, na Academia de Letras e Arte de Salvador.
O MAIOR POETA BAIANO DO
SÉCULO XX, SILVIO VALENTE. GENIALIDADE E ESTRO
Pelo lado paterno Sílvio tinha parentesco com os membros dos clãs Luz,
Pinto de Carvalho, Olivieri, Gama e Abreu.
Do materno, devido aos avós Fernando
dos Santos Pereira, casado com Olívia Tanajura Macedo Costa, tinha consanguinidade
com os membros das famílias Tananajura, Macedo Costa e Santos
Pereira.
Sílvio, nasceu em Salvador num velho sobrado na Rua Gambôa de Cima a 27
de fevereiro de 1918, veio a falecer de nefrite aguda, a 4 de maio de 1951. Mas
até seu nascimento foi cercado de controvérsia. Gêmeo de Magno, dele diferia
fisicamente em tudo. Enquanto Magno era de pele clara, Sílvio ostentava na sua
a cor trigueira, a do moreno baiano, parafraseando o poeta Cruz e Souza: era um
pastor de tez morena, queimado ao sol adusto. Mas, as diferenças entre os dois
não pararam ai. No decorrer da vida elas se acentuaram. Magno voltou-se ao
cartesianismo. Sílvio, ao humanismo, embora por ironia do destino, em
determinada época da vida, para socorrer suas raquíticas finanças, ensinasse
matemática.
Quando, no início da década de 80, entrevistei Mágno, ele estava em
condições adversas. Muito doente. Tomado pelo enfisema pulmonar. Mesmo assim
disposto a falar do irmão mabaço (gêmeo), como se dizia antigamente do gêmeo,
confessou-me, num depoimento emocionado: Sílvio nada tinha de
brincalhão. Estava sempre voltado aos livros. A escrever, poetar, ensinar. A
prosear com os amigos da boemia, do Tabaris. A beber da boa caninha de Santo
Amaro e do John Bull. Ademais era dono de modéstia invulgar. Suas poesias,
traduções de poetas estrangeiros, as quais denominava de moedas falsas, não o
seduziam publicá-las, exceção abertas à prosa. Embora exaltado, brigador, de
temperamento forte, era civilizado no trato com as pessoas, conquanto não poupasse
críticas a elas, quando merecessem. Por isso inimigos fez, aos magotes. Também
era um reformador de costumes. Nada complacente com a falta de ética e a moral.
Seu empregador, Dr. Ernesto Simões Filho, certa feita, pediu moderação e
alívio, ao jornalista para seus criticados na coluna sob a sua
responsabilidade: Tabuleiro da Baiana. Não atendido, censurou-o. Irreverente,
insubmisso, incapaz de ver-se nesse estado de subjugação Sílvio deu-lhe às
costas. Abandonou o amigo e o jornal.
Seus outros irmãos eram: Margarida, Marçal Afonso, Luiz José, aqui
presente, Maria das Graças, Arnoldo José, Maria José (Zelita), José e Antônio
José.
Gênio, Sílvio aprendeu a ler precocemente. Praticamente sozinho.
Manuseando jornais e o livro Teatro da Oposição, de Timon (Manços Chastinet).
Seu curso primário foi concluído em etapas. Primeiro, no Colégio São
Bento, depois, em casa, sob a mestria de professores particulares.
Em 1930 ingressou no Ginásio Nossa Senhora da Vitória, colégio dos
Irmãos Maristas, onde concluiu o curso ginasial com notas altíssimas, para
pasmo, estupefação dos seus mestres. Foi nesse estabelecimento que começou a
sua saga literária. Na revista “Farol”, patrocinada pelo colégio, deu lume aos
seus primeiros trabalhos literários.
Por vocação à causa da Justiça, prestou vestibular para ingressar na
Faculdade de Direito. Essa tendência está expressa neste famoso soneto de sua
autoria:
JUSTIÇA
Justiça,
Deusa a quem rendi meu culto
a vida
inteira e hei de render ainda,
consola a
minha dor, deidade linda,
afoga na
garganta este singulto!...
Quando a
primeira vez teu claro vulto
encheu-me
os olhos - claridade infinda -
eu fiquei
cego de paixão. O insulto
sofri por
ti e hei de sofrer ainda.
Minha
terra, porém já não te quer.
Ó Bahia
infeliz que assim desprezas
os
carinhos da Deusa tão mulher!...
Ó justiça!
Afinal porque, Rainha.
O teu
favor com desfavor revezas?...
Amo-te
tanto e nunca foste minha!
Desde o ano, 1935, quando entrou na
faculdade, até a sua diplomação em 11 de dezembro de 1939, sua passagem pela
vetusta escola se constituiu em controvérsia e polêmica. Seu caráter
independente, sua inteligência palpitante e petulante, acima das dos seus
contemporâneos, mestres e colegas, não o deixavam sossegar, aquietar-se. Era
uma chama acesa o tempo todo. Por isso mesmo, por estar sobre a mediocridade e
a medianidade, quase terminou expulso da escola, no limiar da formatura.
Deu origem a esse incidente um seu
trabalho em que traçava o perfil dos colegas, em quadras, e dos professores, em
sonetos. Tais versos, acres e satíricos, próprios a vestir cada um dos
perfilados com andrajos tecidos com os fios da crueldade, deu azo para que a
vaidade deles se desmoronasse, desabasse como construção malfeita, sem
alicerces sólidos e exigisse da congregação o desligamento do tempestuoso
aluno. Felizmente o bom senso venceu. Ele se formou.
Nas quadras, aqui, parcimoniosamente apresentadas, assim ele retratou
alguns colegas:
Celina copia tudo
quanto na aula se diz
até essa frase de Orlando: (Gomes)
- Emigdio, traga o giz.
***
Ó’Dwyer ama o esporte (Newton)
é mesmo craque na bola.
Por não precisar (ele é forte)
jamais usou a cachola.
***
Foi ao cinema o Coqueijo (Carlos
Coqueijo Costa)
e deu-se um fato esquisito:
Poppeye lhe enviou um beijo
julgando-o Olívia Palito.
***
Sólon Nelson Guimarães
- Oh! minha pena, não
é o engenheiro das leis
e o bacharel dos teoremas.
***
Quando me chamam de feio (Ruy Facó)
Blatero, escabujo, grito:
- Sou Ruy Facó, pelo menos
Maria me acha bonito.
Em sonetos, com rima rica e métricas
exemplares escarneceu os seus mestres. Eis alguns deles:
Ó! Velha Faculdade, os teus umbrais (Augusto Alexandre
Machado)
penetrei, faz um lustro, temeroso.
Vinha plantar meus nobres ideais
à sombra do teu nome glorioso.
Calouro, ainda, estremeci de gozo
prelibando os arroubos magistrais
da eloquência dos mestres...Ansioso,
ouvi Machado falar... Era demais!
“No que tange ao salário, Marx quer...
E, “mutatis mutandis”, Beaulieu...
bimetelismo “sui-generis”... Chômeur...
Ó! Grande professor perfunctório!
Eu sou grato, gratíssimo a você,
Imortal inventor do ‘bolodório’!...
***
Vulto saído de um
afresco (Albérico
Fraga)
papudo anjinho, ‘baby rosicler’,
como te invejo, meu risonho amigo
a vida para ti é de colher...
Partidário feliz do “laisser faire”,
não te esforças jamais. Estou contigo.
Tudo vai bem se eu não correr perigo,
como dizia o cínico Voltaire.
Com esse sistema (o mais inteligente)
tu passas bem sobre a terráquea bola.
Estudar?... Para quê?... Estraga a gente.
Pensar é coisa que te dá vertigens;
nunca tiraste nada da cachola,
ó! sultão de onze mil ideias virgens!
***
No meio desse grupo tenebroso (Rogério de Farias)
que a gente chama de Congregação
existe um jovial Mané-Gostoso,
inofensivo, tolo e bonachão.
Vive a cantar chalaças de balcão;
se alguém sorri, fica a babar de gozo...
Talvez se julgue emérito campeão
da ironia sutil, do tom gracioso...
Mas, na verdade, que sujeito insosso!
Às suas piadas duras de roer,
São como frutas que só tem caroço.
Outro dia sonhei que ele morreu;
entrou no céu, e ouvi Jesus dizer:
Pobre de espírito, este Reino é teu.
***
Deixei para o fim este mimoso intruso. (Orlando
Gomes)
É uma das cousas que mais me atormentam:
acho um tremendo e vergonhoso abuso
vê-lo sentar onde só mestres sentam.
Ele é dos tais que todo dia enfrentam
mais de uma hora o espelho. Assim deduzo
dos trajes brancos que tão bem lhe assentam
como o perfume bom de que faz uso...
Mas tudo isso eu lhe perdoo sem dor;
não me incomoda nada o seu trajar,
o que me irrita é vê-lo professor.
Eu penso que o Orlandinho-caradura
errou de porta: ele deveria estar
numa Escola de Corte e Alta Costura.
EM TEMPO
Não se zangue comigo isso é pilhéria...
Se andar dizendo desaforo a rodo,
É p’ra esconder esta verdade séria:
Por vós,
Orlando, “yo me rompo todo”.
Tais
irreverencias e cruezas se estenderam até aos irmãos. Para cada um deles Silvio fez
um soneto. Reporto o dedicado a Magno:
Não come
carne: é bicho vegetante.
(eu acho
que capim é vegetal…)
Parece um
verdureiro militante
bronco
filho do espesso Portugal.
Ruduzido ao
sistema decimal
é
quantidade quase inoperante…
Infalível,
metódico pontual
recorda um
logaritimo ambulante.
Sistema
Müller, Gandhi, naturismo,
O cálculo
integral e o integralismo
Einstein, e
a quadradura humana:
Método
“iogui”, Celina tereré,
Larousse,
Abbé Moreux, “quanta” banana…
E o
Souvenir Drdla é ópera ou não é?
Não menos
azedo e impróprio é o dedicado a Luiz:
Arcabouço
possante de esqueleto,
carão
avermelhado, andar mecânico;
tem o
formato essencialmente orgánico
de um
churrasco espetado num graveto.
Cabeça
colosal (é hiper crânio),
Vasto solar
abandonado e quieto
Onde reside
apenas um quarteto:
Marinha,
crawl, xadrez e humor británico.
Tem biblioteca
mas é pouco vasta,
“Nadando o
crawl” e Acerca da Batalha
Naval da
Jutlândia: eis quanto basta.
Faz graças:
ninguém ri… não se atrapalha:
No silêncio
impiedoso outra desfecha
E,
descaradamente, apanha a flecha…
Concluída sua fase de formação acadêmica,
Sílvio Valente, ingressa na Magistratura. Vale registrar, por concurso. Tendo
sido Pretor de Camamu entre 09.12.1941 a 31.03.1943. Quando exonerado, a seu
pedido, passa a exercer o magistério, lecionando Português e Francês no Colégio
Central (Colégio Estadual da Bahia), em Salvador. Oportunidade em que, “rompe
com a tradição milenária do método peripatético-bolonhês da aula discursiva.
Desde Aristóteles, até a criação da Universidade de Bolonha, em 1088, o ensino
era ambulante. A partir de Bolonha, os alunos passaram a ouvir sentados, com
pouca ou nenhuma participação, método ainda vigorante, com a exceção dos
inconformistas redentores”. Sílvio tira os seus alunos da condição de meros
ouvintes, daquela passividade que o incomodava, e os torna partícipes de suas
aulas. Induzindo-os a questioná-lo. A discutir com ele sobre os temas
abordados. Leva-os à leitura extraclasse. Obrigando-os a interpretar o texto
lido. A conceituar o autor, a traçar o perfil psicológico das suas personagens.
Tudo isso, feito com muito humor, irreverência, competência, o que o fez cair
nas graças do alunado e elevar o seu conceito entre os seus pares.
A par das suas atividades didáticas
Sílvio começou a colaborar em jornais e revistas, produzindo para esses órgãos
artigos de crítica literária, sátiras em verso, prosas políticas, sempre
rezingando com figuras conhecidas da sociedade baiana e brasileira. Em
1947, já considerado como um dos nomes mais altos do nosso jornalismo, ganha do
Dr. Ernesto Simões Filho uma coluna diária no jornal A Tarde, à qual dá o
sugestivo nome de “Tabuleiro da ‘Bahiana’”, onde vê seu prestígio crescer e
aumentar o número de seus leitores, admiradores e inimigos. Escreveu-a,
inicialmente adotando o pseudônimo de Bernardo Só, inspirado em Bernard Shaw,
autor de Pigmalion. Posteriormente o de Pepino Longo, em contraposição a Pepino
Breve, na verdade Pepino moço, que virou breve por erro de tradução. Primeiro
rei carolíngio. Quando matou Bernardo, deu a seguinte explicação: “Temos uma
triste notícia para os nossos leitores: Bernardo Só morreu. Era um amigo, um
irmão quase, e as palavras não poderiam dizer o que sentimos. Continuando, por
um compromisso de honra, assumido em seu leito de morte, a secção que ele criou
e honrou neste jornal, queremos oferecer, a quantos o liam a última centelha
daquele espírito sempre moço: o epitáfio que compôs nos últimos instantes e
desejou gravado no túmulo modesto. E durma em paz o lidador sereno!
Aqui jaz esperando ser pó,
o cadáver de alguém que fui eu.
Foi feliz; foi Bernardo; foi Só;
mas foi ler Isaias: morreu. (Isaias Alves)
A fixação por fazer epitáfio, em
vida, irreverentes, chistosos, de pessoas influentes na nossa vida pública,
era-lhe irreversível. São deles:
Reitor austero e imponente, (Edgard Santos)
teve um prestígio mirífico.
Desce o caixão, lentamente,
E um verme diz: Magnífico!
Aqui jaz sob a lousa fria, (Otávio Mangabeira)
porque tudo no mundo se acaba.
Vai fazer muita falta à Bahia,
Mas os vermes dirão: - Que mangaba! -
De uma caixa de charuto (Anísio Teixeira)
Fizeram-lhe um bom caixão,
e ao vê-lo tão diminuto,
gritou um verme: - Osso não! -
Não houve nesta terra quem escapasse
das suas chacotas. Na sua coluna de 10 de maio de 1947, contou o seguinte fato:
“Era um caso desesperado. O examinador, que tanta ignorância irritara,
pediu: - Diga-me quatro asneiras e estará passado. E o aluno, com admirável
precisão, respondeu - Isaias (Alves), (Pinto) Aleixo, Demétrio (Tourinho),
Moacir.
Este era o seu nome: e passou.
Por conta dessas diatribes, contadas,
medidas e pesadas, os inimigos vieram-lhe à socapa. Outros atingidos, que
diziam não se importar com aquelas farpas, no íntimo, guardaram dele
ressentimentos e mágoas. Enquanto isso, o povo o aplaudia, o reverenciava.
Para efetivar-se como professor de
Português no colégio estadual, onde ensinava, submeteu-se a concurso público,
em 1949. E, perante a banca examinadora, que o avaliava, além de demonstrar seu
profundo conhecimento acerca da matéria que o arguiam, foi além. Mostrou
incomum domínio das línguas Grega, Latina, Francesa, Espanhola, Italiana,
Alemã. Resultado, foi aprovado em primeiro lugar, com louvor.
Desse interesse desmedido de Sílvio
pelos idiomas neolatinos, dele recebemos, como herança, preciosidades. Suas
traduções para a nossa língua, de um grande número de versos dos maiores
autores espanhóis, franceses e italianos. Da sua pena, também, saiu a versão,
para o idioma de Rousseau, do poema de Castro Alves, Navio Negreiro. Além dos
seus magníficos versos compostos em francês: Chanson Folle, L’Impossible, Choix, Méditation,
Noël, dentre muitos.
Sei que me alongo, tornando-me até
cansativo. Porém, pergunto: não faria o mesmo um francês se falasse de Racine,
Molière, La Fontaine, Chateaubriand, Vitor Hugo, Honoré de Balzac? Um inglês,
se se dispusesse a discorrer sobre Shakespeare, Milton? Um espanhol, sobre
Cervantes? Um português sobre Camões?
Para que não façam pouco caso de mim,
para que não deixem escapar dos seus lábios risotas escarninhas por ombrear Sílvio
Valente a Castro Alves e a esses gênios da humanidade que citei, para confirmar
o que tudo dele penso, e que por certo assombra a quantos não o conheceram,
escolhi, para pôr termo a este texto, duas das suas produções, entre
incontáveis, que dizem da sua grandeza, do seu talento, da sua genialidade, as
quais corroboram a minha assertiva. Na primeira, Balada das Horas Mortas, ele
mostra todo o seu lirismo. Despetala rosas, querendo impregnar o seu canto com
o perfume doce da flor. Na Balada de D. Quixote, desnuda-se. Diz de si. Fala
dos seus sonhos, das suas ambições, do seu inquebrantável amor à justiça.
Não foi à toa que Machado de Assis,
nosso grande mestre, disse: “Não é raro andarem separadas estas duas qualidades
da poesia: a forma e o estro. Os verdadeiros poetas são as que têm ambas”. E
Silvio Valente as tinha de sobra.
Sem mais delongas, eis os cantos:
BALADA DAS HORAS MORTAS
Oh! doce amada, vai bem alta a noite,
Já todos dormem, mas eu velo ainda,
Fugiu-me o sono e embora o vento açoite
cortante e frio, espero a tua vinda.
Louca esperança - muito louca e linda
de alguém que sonha e que a sonhar se finda.
Julgando ouvir a melodia infinda
- tão bela e pura - dessa voz que é tua!
Julgando ver a tua imagem linda
nas horas mortas, contemplando a lua.
Vibro o meu canto sem que a dor esconda,
pedindo à noite uma consolação.
E, lentamente, vai passando a ronda
num martelar de cascos pelo chão...
A noite é indiferente e fria, não
pode a dor de um coração.
E desfeita em soluços e canção,
há uma mágoa sutil que em mim flutua.
E eu fico imerso na desilusão
nas horas mortas, contemplando a lua.
Dentro da Noite ladra um cão vadio...
Eu fito o céu: um constelado encanto,
Olho as estrelas: lacrimário frio,
gotas de luz de milenário pranto,
zombam de mim, ironizam meu canto...
Somente o luar que é piedoso e santo
tem para mim, doçuras de acalanto.
E, ante a dor que no meu peito estua,
são soluços os versos que eu descanto
nas horas mortas, contemplando a lua.
OBLATA
Princesa esquiva de olhar tão brando
Aceita os versos que a balada é tua:
tu a inspiraste e eu a fiz chorando
nas horas mortas, contemplando a lua!
***
BALADA DE D. QUIXOTE
Em minhas veias corre o sangue quente
da nobre raça que despreza a morte.
Eu dou combate sem cessar ardente
dos homens maus a infernal coorte.
É meu destino, com a lança em riste
fazer justiça onde só mal existe.
Tenho um amigo, apenas Sancho Pança;
e um cavalo fiel, o Rocinante.
eu sou Quixote, o Cavaleiro Errante.
Eu sou aquele que jamais descansa
Percorro o mundo minorando as dores
dos oprimidos que suplicam em vão.
Defendo os servos contra os maus senhores
salvo donzelas da profanação.
Tudo que é nobre, generoso e puro
encontra em mim um defensor seguro.
Entro na luta de viseira erguida.
Pelo meu rei, por minha dama, avante!
Hei de vencer e de perder a vida
eu sou Quixote, o Cavaleiro Errante.
Dizem de mim: - É um louco, tem mania
de converter e reformar o mundo.
Será possível transformar um dia
o lago azul, num lamaçal imundo?...
Sonhador, o teu sonho é milenário
foi ele que levou Cristo ao Calvário.
Mas, cego e surdo, eu continuo na liça
não me detenho nunca um só instante.
Eu não pertenço à raça submissa
eu sou Quixote, o Cavaleiro Errante.
E a minha fé, a minha força, a ideia
que enfuna as velas ao meu sonho avante
é o claro olhar da loura Dulcinéia
que ama Quixote o Cavaleiro Errante.

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