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quinta-feira, 19 de maio de 2016

QUAIS SÃO AS DEZ MELHORES RUAS DA EUROPA? PARTE 1/2



Mundo: cidades



Espaços que resumem uma capital. Jornalistas contam quais são as suas ruas favoritas

Uma loja na rua Flassaders, em Barcelona. Consuelo Bautista


Ruas nas quais se respira liberdade e boa vida; para se percorrer, principalmente, a pé ou pedalando; que evidenciam a marca dos empreendedores locais e que resumem, de diferentes maneiras, o espírito das cidades nas quais estão. Ruas com paisagens, como a Dom Pedro V em Lisboa, que dá acesso ao melhor mirante da cidade. Ou uma rua marcada por um pórtico barroco e na qual o pavimento é feito apenas de pedras, como a Conde Duque em Madri. Ou, em Barcelona, a pequena e estreita rua Flassaders, que introduz o visitante à atmosfera de lojinhas do bairro do Born. Em Viena, a rua Spittelberg, que é o eixo da colina onde se monta o mercado de natal mais famoso da capital austríaca. Também em Londres, a rua Chiltern, onde os comerciantes conseguiram vetar a presença das grandes redes em favor dos pequenos negócios originais e artesanais. No total, são 10 passeios para fazer compras, ver exposições em galerias ou se sentar em um restaurante e ler um livro ou conversar. A realização de um relaxado modo de vida genuinamente europeu.
O Café Monocle na rua Chiltern, em Londres. Lionel Derimais

A rua chique do bairro
Por Pablo Guimón
São poucas as joias que ainda restam por descobrir no centro de Londres, os caçadores de tendências já dirigem seus passos, há muito tempo, a bairros cada vez mais periféricos. Mas há exceções. E a Chiltern Street é uma delas. Esta rua de impressionantes edifícios neogóticos vitorianos de tijolos vermelhos é um remanso de paz no meio do bairro de Marylebone e abriga alguns dos comércios mais exclusivos da cidade. Uma rua elegante, sem ostentação, com uma seleção cuidadosa e cosmopolita, à qual as grandes redes de lojas internacionais não podem pertencer.
Situada entre Baker Street e Marylebone High, a transformação dessa rua teve muito a ver com o guru do bom gosto global Tyler Brûlé. Na esquina, em Dorset Street, se encontram os escritórios londrinos da revista Monocle, criada por ele. E esse foi um dos motivos que o levaram a abrir, há dois anos, o Monocle Cafe. Um pequeno estabelecimento que parece uma caricatura do estilo de vida que reflete a revista. "Marylebone High estava se transformando em uma rua muito cara e movimentada", explicou Brûlé. "Chiltern te permite estar um pouco fora de tudo isso, é mais tranquila. Há um ambiente especial como o de comunidade, todos nos conhecemos e nos damos bem".

Já antes, orbitava em Chiltern Street outro planeta da excelente galáxia Monocle Trunk: um estabelecimento de culto ao mundo da moda masculina, com peças que seu diretor, Mats Klingberg, parceiro de Brûlé, obtém por todo o mundo. "Oferecemos um armário de clássicos modernos, evitando as modas passageiras", explicou Klingberg. Devido ao sucesso da loja, outra foi aberta em 2013 na mesma rua dedicada a acessórios. Essas, junto com outras como John Simmons, Sunspel e GreyFlannel, transformam a Chiltern em um destino fetiche da moda masculina de qualidade em Londres.

Mas há outro fator que contribuiu para incluir esta rua no mapa da Londres descolada: a abertura do hotel boutique Chiltern Firehouse, do americano André Balazs, famoso pela restauração de edifícios emblemáticos. O novo estabelecimento ocupa uma antiga estação de bombeiros, um dos exemplos mais importantes do estilo neogótico do final do século XIX que sobrevivem até hoje. Seu restaurante, a cargo do agraciado chef Nuno Mendes, é um dos preferidos das celebridades.
Cada estabelecimento de Chiltern merece uma parada. Os amantes da música encontrarão em Howarth (fabricantes e vendedores de oboés desde 1948) uma alucinante quantidade de instrumentos de sopro, acessórios e partituras. Caso a preferência seja por algo mais exótico, há instrumentos indianos na JAS Musicals.
Cadenhead's, a histórica engarrafadora de uísques escoceses, tem aqui sua loja londrina. E em Cire Trudon é possível comprar velas feitas por artesãos. Estabelecimentos de beleza e de vestidos para noivas e o estúdio de arte floral de Javier Salvador, remetem a um passado no qual Chiltern era uma rua especializada em moda nupcial. E a galeria Atlas, que também está aí, é uma das mais importantes de Londres dedicadas à fotografia.
Pessoas passeiam pela rua Francs-Bourgeois, em Paris.

O Le Marais e seus jardins secretos
Por Gabriela Cañas
No coração de Le Marais, o bairro da moda de Paris, há uma humilde rua na qual os edifícios de estilo haussmanniano não se alinham de maneira majestosa. Francs-Bourgeois é uma rua onde se pode fazer compras sem se arruinar financeiramente, contemplar os imponentes edifícios de pedra, parar para almoçar a qualquer hora do dia e, sobretudo, ter a impressão de descobrir, por si próprio, esses cantinhos secretos tão queridos pelos parisienses.
A rua só tem 60 números, e por isso o visitante não poderá se cansar ao percorrê-la, mas não convém se deixar enganar pelas vitrines simples e pelas fachadas de pedra do Museu dos Arquivos e do palacete Albret.
Uniqlo, a Zara japonesa de estilo informal que ainda não chegou à Espanha, é um dos comércios recomendáveis, e não só por seus preços. O local dá a oportunidade de descobrir parte das entranhas de Paris. Desça à planta do subsolo. O edifício pertencia à Sociedade de Cinzas, uma cooperativa de joalheiros e relojoeiros para trabalhar com as sobras de seus trabalhos em ouro e prata, e aí estão expostas as velhas máquinas de fundição. É uma relíquia que remonta à história da região marcada pelo judaísmo.
A fachada do restaurante Le Dôme du Marais, no número 53 da Francs-Bourgeois, não anuncia nada de especial, mas no interior, um recinto circular de cúpula transparente minuciosamente decorado, é surpreendente. Não passe sem dar a devida importância também ao número 8 da rua. Dentro, há um pátio tipicamente parisiense, uma galeria de arte dedicada à fotografia, YellowKorner, e um armarinho enorme e bem cuidado, herdado sem querer do passado, quando os fiandeiros do século XIV deram vida a essa área. E estão também os jardins: pequenos, quase secretos, nos cantos mais inesperados. Passear por Francs-Bourgeois, que conduz à Praça dos Vosgos, é muito aprazível, sobretudo nos domingos, quando a rua está fechada para veículos e uma banda compõe a trilha sonora da multidão que caminha por aí.
É um bom programa, mas essa idosa que dança ao compasso dos acordes atribui a eles o sabor do extraordinário. O senhor Pierre, dono do bistrô Camille, no número 24, aconselha: "É preciso vir também de noite. Tem um encantamento particular".


 O mercado de domingo na rua Swinemünder, em Berlim. Julia Soler

Música de Kraftwerk no mercadinho
Por Luis Doncel
Berlim não encanta por suas ruas. Não é Paris nem Roma, cidades que parecem pensadas para deixar os pedestres boquiabertos. Aqui, interessam mais os locais que aparecem em cada esquina, os cafés onde passar a tarde e edifícios de extraordinária ligeireza como a Neue Nationalgalerie. Por isso, é muito difícil escolher apenas uma rua. Mas, se for preciso fazê-lo, provavelmente ficaria com a Swinemünder Straße. À primeira vista, ela não tem nada de excepcional. Gosto porque, apesar de estar no gentrificado bairro de Mitte, ainda conserva casas sem restaurar, o que permite ter uma — distante — ideia de como era esta área do Leste há 25 anos, quando era uma das mais pobres da capital.
Os que estão aqui há mais tempo contam que agora veem essa época "em preto e branco". O passeio começaria na igreja de Sion, templo evangélico dos tempos do kaiser Guilherme I que se tornou famoso nos anos oitenta, quando seu porão acolhia uma sede de imprensa clandestina de onde se distribuíam folhetos e revistas que criticavam o regime comunista.
Ao deixar para trás a igreja, a fachada dos edifícios da esquerda vai mudando de cor — grená, azul, verde...— sob a sombra dos gigantescos bordos (um tipo de árvore) que, como é habitual em Berlim, são mais altos do que os edifícios. A alguns metros de distância, no número 120, vive Ilona Fichtner. Em sua sala, o líder da República Democrática Alemã (RDA) Erich Honecker tomou um café no dia 9 de fevereiro de 1984, para comemorar os dois milhões de imóveis restaurados pelo Estado.
Imediatamente depois, aparece a Arkonaplatz, praça onde, aos domingos, se organiza um dos mercados mais encantadores da cidade. Ao som do Fahr'n fahr'n fahr'n auf der Autobahn de Kraftwerk, que sai de um toca-discos à venda, se pode bisbilhotar histórias em quadrinhos antigos e edições do jornal Der Spiegel da semana dos atentados de 11 de Setembro. "O ataque do terror. Guerra no século XXI", anuncia a manchete.
Como tantas ruas nessa cidade composta por larguíssimas avenidas, percorrer a Swinemünder serve para conhecer as várias facetas de Berlim. Depois de passar pelos apartamentos de luxo recém-construídos na altura da Bernauer Straße, a rua se transforma em uma zona cheia de jardins e que termina em Wedding, que dizem há anos que vai a ser o próximo bairro da moda de Berlim, mas que nunca consegue se popularizar.

 A entrada do centro cultural de Conde Duque, em Madri. Alfredo Arias

Modernos e barrocos
Por Mercedes Cebrián
Se somente tivéssemos a oportunidade de conhecer uma rua em Madri, por que escolher a rua do Conde Duque? Porque está ao lado da praça de Cristino Martos, essa atalaia que nos comunica, por sua vez, após descer umas escadas de pedra, com a rua Princesa, perto da Praça de Espanha, e que, ao mesmo tempo, nos isola desse xarope de franquias que reinam por aí abaixo.

E também porque no outro extremo, se a percorremos pela noite, se pode ver, iluminado, o posto de gasolina racionalista Gesa, projetado em 1927 por Fernández-Shaw (Alberto Aguilera, 18), e, felizmente, reconstruído nos anos 90.
E aí se pode encontrar tudo o que caracteriza Madri; ou seja, não somente edifícios galdosianos com sacadas, mas também o bloco feito de tijolos com terraços cobertos por vidro, árvores que prometem crescer mais e seus correspondentes bares galego e asturiano, este último com queijos tetilla, expostos por exigência.
E estão aí O Jardim Secreto, um café-restaurante muito adequado para primeiros encontros de casais que esperam trocar seus primeiros beijos nesse ambiente de país dos gnomos; e também o Sportivo, uma das lojas pioneiras em oferecer aos meninos madrilenhos roupa e acessórios importados, à qual se somou a sapataria Duke.
Além disso, a rua do Conde Duque conta com sua própria praça — a dos Guardias de Corps —, com solo de areia seca (poucas coisas são tão madrilenhas), ideal para tomar um vermute contemplando o busto de Clara Campoamor antes de ir a um espetáculo na imensidade militar que se transformou no emblema do bairro: o Centro Conde Duque. Ele foi construído a princípios do século XVIII por Pedro de Ribera, e seu portão churrigueresco (estilo de ornamentação exagerada empregado por Churriguera, um arquiteto e escultor barroco do final do século XVII), chama a atenção imediatamente, por contrariar o sóbrio padrão estético propagado pelo resto do edifício.
O centro está composto por três amplos pátios com terraço e cinemas de verão, por bibliotecas municipais e por sua estupenda sala de concertos. A poucos metros, está também o Museu ABC de Desenho e Ilustração. E ao redor de tudo isso, surgiram estabelecimentos como Panic, uma padaria com fogaças e mesa comunitária que causa furor entre os vizinhos; Cultivo, uma loja de laticínios cuja preciosa e tosca vitrine convida, mais do que a vender, a "despachar" os queijos artesanais, elaborados aí mesmo por mestres queijeiros da região que utilizam leite cru; e Tiradito, um restaurante peruano com seu próprio pisco-bar.
E nessa rua estão todos junto, com vontade de receber qualquer um que passe por aí.

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