Mundo: cidades
Espaços que resumem
uma capital. Jornalistas contam quais são as suas ruas favoritas
Uma loja na rua Flassaders, em
Barcelona. Consuelo Bautista
Ruas nas quais se respira liberdade e boa vida; para se percorrer,
principalmente, a pé ou pedalando; que evidenciam a marca dos empreendedores
locais e que resumem, de diferentes maneiras, o espírito das cidades nas quais
estão. Ruas com paisagens, como a Dom Pedro V em Lisboa, que dá acesso ao
melhor mirante da cidade. Ou uma rua marcada por um pórtico barroco e na qual o
pavimento é feito apenas de pedras, como a Conde Duque em Madri. Ou, em
Barcelona, a pequena e estreita rua Flassaders, que introduz o visitante à
atmosfera de lojinhas do bairro do Born. Em Viena, a rua Spittelberg, que é o
eixo da colina onde se monta o mercado de natal mais famoso da capital
austríaca. Também em Londres, a rua Chiltern, onde os comerciantes conseguiram
vetar a presença das grandes redes em favor dos pequenos negócios originais e
artesanais. No total, são 10 passeios para fazer compras, ver exposições em
galerias ou se sentar em um restaurante e ler um livro ou conversar. A
realização de um relaxado modo de vida genuinamente europeu.
O Café Monocle na rua Chiltern, em Londres. Lionel
Derimais
A rua chique do bairro
Por Pablo Guimón
São poucas as joias que ainda restam por descobrir no centro de Londres,
os caçadores de tendências já dirigem seus passos, há muito tempo, a bairros
cada vez mais periféricos. Mas há exceções. E a Chiltern Street é uma delas.
Esta rua de impressionantes edifícios neogóticos vitorianos de tijolos
vermelhos é um remanso de paz no meio do bairro de Marylebone e abriga alguns
dos comércios mais exclusivos da cidade. Uma rua elegante, sem ostentação, com
uma seleção cuidadosa e cosmopolita, à qual as grandes redes de lojas
internacionais não podem pertencer.
Situada entre Baker Street e Marylebone High, a
transformação dessa rua teve muito a ver com o guru do bom gosto global Tyler
Brûlé. Na esquina, em Dorset Street, se
encontram os escritórios londrinos da revista Monocle, criada por ele. E esse foi um dos motivos que o levaram a abrir, há
dois anos, o Monocle Cafe. Um pequeno estabelecimento que parece uma caricatura do estilo de vida
que reflete a revista. "Marylebone High estava se transformando em uma rua
muito cara e movimentada", explicou Brûlé. "Chiltern te permite estar
um pouco fora de tudo isso, é mais tranquila. Há um ambiente especial como o de
comunidade, todos nos conhecemos e nos damos bem".
Já antes, orbitava em Chiltern Street outro planeta da excelente galáxia
Monocle Trunk: um estabelecimento de culto ao mundo da moda masculina, com peças que
seu diretor, Mats Klingberg, parceiro de Brûlé, obtém por todo o mundo.
"Oferecemos um armário de clássicos modernos, evitando as modas
passageiras", explicou Klingberg. Devido ao sucesso da loja, outra foi
aberta em 2013 na mesma rua dedicada a acessórios. Essas, junto com outras como
John Simmons, Sunspel e GreyFlannel, transformam a Chiltern em um destino
fetiche da moda masculina de qualidade em Londres.
Mas há outro fator que contribuiu para incluir esta rua no mapa da
Londres descolada: a abertura do hotel boutique Chiltern Firehouse, do
americano André Balazs, famoso pela restauração de edifícios emblemáticos. O
novo estabelecimento ocupa uma antiga estação de bombeiros, um dos exemplos
mais importantes do estilo neogótico do final do século XIX que sobrevivem até
hoje. Seu restaurante, a cargo do agraciado chef Nuno Mendes, é um dos
preferidos das celebridades.
Cada estabelecimento de Chiltern merece
uma parada. Os amantes da música encontrarão em Howarth (fabricantes e
vendedores de oboés desde 1948) uma alucinante quantidade de instrumentos de
sopro, acessórios e partituras. Caso a preferência seja por algo mais exótico,
há instrumentos indianos na JAS Musicals.
Cadenhead's, a histórica engarrafadora de uísques escoceses, tem aqui
sua loja londrina. E em Cire Trudon é possível comprar velas feitas por
artesãos. Estabelecimentos de beleza e de vestidos para noivas e o estúdio de
arte floral de Javier Salvador, remetem a um passado no qual Chiltern era uma
rua especializada em moda nupcial. E a galeria Atlas, que também está aí, é uma
das mais importantes de Londres dedicadas à fotografia.
O Le Marais e seus jardins secretos
Por Gabriela Cañas
No coração de Le Marais, o bairro da moda de Paris, há uma humilde
rua na qual os edifícios de estilo haussmanniano não se alinham de maneira
majestosa. Francs-Bourgeois é uma rua
onde se pode fazer compras sem se arruinar financeiramente, contemplar os
imponentes edifícios de pedra, parar para almoçar a qualquer hora do dia e,
sobretudo, ter a impressão de descobrir, por si próprio, esses cantinhos
secretos tão queridos pelos parisienses.
A rua só tem 60 números, e por isso o
visitante não poderá se cansar ao percorrê-la, mas não convém se deixar enganar
pelas vitrines simples e pelas fachadas de pedra do Museu dos Arquivos e do palacete Albret.
Uniqlo, a Zara japonesa de estilo informal que ainda não chegou à Espanha, é
um dos comércios recomendáveis, e não só por seus preços. O local dá a
oportunidade de descobrir parte das entranhas de Paris. Desça à planta do
subsolo. O edifício pertencia à Sociedade de Cinzas, uma cooperativa de
joalheiros e relojoeiros para trabalhar com as sobras de seus trabalhos em ouro
e prata, e aí estão expostas as velhas máquinas de fundição. É uma relíquia que
remonta à história da região marcada pelo judaísmo.
A fachada do restaurante Le Dôme du
Marais, no número 53 da Francs-Bourgeois, não anuncia nada de especial, mas no
interior, um recinto circular de cúpula transparente minuciosamente decorado, é
surpreendente. Não passe sem dar a devida importância também ao número 8 da
rua. Dentro, há um pátio tipicamente parisiense, uma galeria de arte dedicada à
fotografia, YellowKorner, e um armarinho enorme e bem cuidado, herdado sem
querer do passado, quando os fiandeiros do século XIV deram vida a essa área. E
estão também os jardins: pequenos, quase secretos, nos cantos mais inesperados.
Passear por Francs-Bourgeois, que conduz à Praça dos Vosgos, é muito aprazível, sobretudo nos
domingos, quando a rua está fechada para veículos e uma banda compõe a trilha
sonora da multidão que caminha por aí.
É um bom programa, mas essa idosa que
dança ao compasso dos acordes atribui a eles o sabor do extraordinário. O
senhor Pierre, dono do bistrô Camille, no
número 24, aconselha: "É preciso vir também de noite. Tem um encantamento
particular".
O mercado de domingo na rua Swinemünder, em Berlim. Julia Soler
Música de Kraftwerk no mercadinho
Por Luis Doncel
Berlim não encanta por suas ruas. Não
é Paris nem Roma, cidades que parecem pensadas para deixar os pedestres
boquiabertos. Aqui, interessam mais os locais que aparecem em cada esquina, os
cafés onde passar a tarde e edifícios de extraordinária ligeireza como a Neue
Nationalgalerie. Por isso, é muito difícil escolher apenas uma rua. Mas, se for
preciso fazê-lo, provavelmente ficaria com a Swinemünder Straße.
À primeira vista, ela não tem nada de excepcional. Gosto porque, apesar de
estar no gentrificado bairro de Mitte, ainda conserva casas sem restaurar, o
que permite ter uma — distante — ideia de como era esta área do Leste há 25 anos,
quando era uma das mais pobres da capital.
Os que estão aqui há mais tempo contam que agora veem essa época
"em preto e branco". O passeio começaria na igreja de Sion, templo
evangélico dos tempos do kaiser Guilherme I que se tornou famoso nos anos oitenta,
quando seu porão acolhia uma sede de imprensa clandestina de onde se
distribuíam folhetos e revistas que criticavam o regime comunista.
Ao deixar para trás a igreja, a fachada dos edifícios da esquerda vai
mudando de cor — grená, azul, verde...— sob a sombra dos gigantescos bordos (um
tipo de árvore) que, como é habitual em Berlim, são mais altos do que os
edifícios. A alguns metros de distância, no número 120, vive Ilona Fichtner. Em
sua sala, o líder da República Democrática Alemã (RDA) Erich Honecker tomou um
café no dia 9 de fevereiro de 1984, para comemorar os dois milhões de imóveis
restaurados pelo Estado.
Imediatamente depois, aparece a Arkonaplatz, praça onde, aos domingos, se organiza um
dos mercados mais encantadores da cidade. Ao som do Fahr'n fahr'n fahr'n auf
der Autobahn de Kraftwerk, que sai de um toca-discos à venda, se pode
bisbilhotar histórias em quadrinhos antigos e edições do jornal Der Spiegel da
semana dos atentados de 11 de Setembro. "O ataque do terror. Guerra no
século XXI", anuncia a manchete.
Como tantas ruas nessa cidade
composta por larguíssimas avenidas, percorrer a Swinemünder serve
para conhecer as várias facetas de Berlim. Depois de passar pelos apartamentos
de luxo recém-construídos na altura da Bernauer Straße, a
rua se transforma em uma zona cheia de jardins e que termina em Wedding, que dizem há anos que vai a ser o próximo
bairro da moda de Berlim, mas que nunca consegue se popularizar.
A entrada do centro cultural de Conde Duque, em Madri. Alfredo Arias
Modernos e barrocos
Por Mercedes Cebrián
Se somente tivéssemos a oportunidade
de conhecer uma rua em Madri, por que escolher a rua do Conde Duque? Porque
está ao lado da praça de Cristino Martos, essa
atalaia que nos comunica, por sua vez, após descer umas escadas de pedra, com a
rua Princesa, perto da Praça de Espanha, e
que, ao mesmo tempo, nos isola desse xarope de franquias que reinam por aí
abaixo.
E também porque no outro extremo, se a percorremos pela noite, se pode
ver, iluminado, o posto de gasolina racionalista Gesa, projetado em 1927 por
Fernández-Shaw (Alberto Aguilera, 18), e, felizmente, reconstruído nos anos 90.
E aí se pode encontrar tudo o que caracteriza Madri; ou seja, não
somente edifícios galdosianos com sacadas, mas também o bloco feito de tijolos
com terraços cobertos por vidro, árvores que prometem crescer mais e seus
correspondentes bares galego e asturiano, este último com queijos tetilla,
expostos por exigência.
E estão aí O Jardim Secreto, um café-restaurante muito adequado para primeiros encontros de casais
que esperam trocar seus primeiros beijos nesse ambiente de país dos gnomos; e
também o Sportivo, uma das lojas pioneiras em oferecer aos meninos madrilenhos roupa e
acessórios importados, à qual se somou a sapataria Duke.
Além disso, a rua do Conde Duque
conta com sua própria praça — a dos Guardias de Corps —,
com solo de areia seca (poucas coisas são tão madrilenhas), ideal para tomar um
vermute contemplando o busto de Clara Campoamor antes de ir a um espetáculo na
imensidade militar que se transformou no emblema do bairro: o Centro Conde Duque. Ele foi construído a princípios do século XVIII por Pedro de Ribera, e
seu portão churrigueresco (estilo de ornamentação exagerada empregado por
Churriguera, um arquiteto e escultor barroco do final do século XVII), chama a
atenção imediatamente, por contrariar o sóbrio padrão estético propagado pelo
resto do edifício.
O centro está composto por três
amplos pátios com terraço e cinemas de verão, por bibliotecas municipais e por
sua estupenda sala de concertos. A poucos metros, está também o Museu ABC de Desenho e Ilustração. E ao redor de tudo isso, surgiram
estabelecimentos como Panic, uma padaria com fogaças e mesa comunitária que
causa furor entre os vizinhos; Cultivo, uma loja de laticínios cuja preciosa e
tosca vitrine convida, mais do que a vender, a "despachar" os queijos
artesanais, elaborados aí mesmo por mestres queijeiros da região que utilizam
leite cru; e Tiradito, um restaurante peruano com seu próprio pisco-bar.
E nessa rua estão todos junto, com vontade de receber qualquer um que
passe por aí.






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