Brasil: política
Mamede
Filho
De Lisboa para a BBC Brasil
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| Roberto Requião: ' O PMDB não é o partido nazista, é um partido que vive da diversidade de opiniões' |
O senador Roberto Requião (PMDB-PR)
não acredita que a presidente afastada Dilma Rousseff será bem-sucedida na
tentativa de reverter o processo de impeachment.
Em entrevista à BBC Brasil, o
ex-governador do Paraná - que, mesmo sendo do partido do presidente interino
Michel Temer, vê o processo de impeachment como "golpe" - diz que
Dilma não seria capaz de costurar as alianças necessárias, propondo mudanças
radicais em suas políticas, "porque ela é muito teimosa".
Requião refuta ainda qualquer tipo de
pressão interna em seu partido por ser contrário ao impeachment e ao governo
interino de seu correligionário Michel Temer. "O PMDB não é o partido
nazista", afirma.
O senador está em Lisboa para
participar da cúpula da Assembleia Parlamentar Euro-Latino-América (EuroLat),
que reúne cerca de 120 parlamentares de países dos dois lados do Atlântico.
Ele faz parte de um grupo de
senadores brasileiros contrários ao impeachment que quer buscar apoio da
comunidade internacional.
Como co-presidente do componente
latino-americano do organismo, Requião também fez um discurso na sessão de
abertura da cúpula, no qual fez duras críticas ao governo interino.
Abaixo, os principais trechos da
entrevista:
BBC
Brasil: A participação em fóruns no exterior e o apoio da comunidade
internacional podem reverter o processo de impeachment?
Roberto
Requião: Acredito que o impeachment só seria
revertido pela própria Dilma, criando um a aliança para formar um governo de
coalizão nacional, uma mudança radical da política econômica, a busca pelo
apoio popular, mas isso dificilmente ela fará, porque é muito teimosa. A Dilma
vai seguir a mesma linha em que estava governando, que é uma linha inaceitável.
BBC
Brasil: Por que o senhor considera inaceitável?
Requião: Porque, na verdade, ela começou a fazer o que o Temer quer fazer agora.
Privatizações, a visão neoliberal da economia, a globalização e destruição de
empresas públicas, cortes na saúde e na educação, cortes na Previdência,
precarização das leis de trabalho… enfim, é a reação do capital vadio contra o
Estado social.
'A Dilma vai seguir a mesma linha em
que estava governando, que é uma linha inaceitável', disse Requião
BBC
Brasil: Uma incapacidade do governo Temer poderia salvar o mandato da
Dilma?
Requião: Dificilmente salvará o mandato dela, mas pode levar a uma mudança da
orientação da política econômica do Brasil, com Dilma ou sem Dilma.
BBC
Brasil: O senhor esperava, neste encontro em Lisboa, uma resposta dos países
latino-americanos ao impeachment?
Requião: O componente latino-americano do EuroLat mostrou uma coerência e uma
unidade impressionante em relação à democracia e rejeitou a interinidade deste
atual governo brasileiro. Isso é muito importante. (...)Envia uma mensagem para
a discussão da democracia no mundo, é um reflexo muito positivo na história
política recente, no período que estamos vivendo.
BBC
Brasil: O senhor defende uma nova eleição presidencial em outubro. É
possível realizar, sem muitos danos, um pleito tão importante em tão pouco
tempo?
Requião: A eleição elimina os danos dessa transição. A Dilma perdeu o seu próprio
apoio porque governou com a política econômica do adversário. Perdeu sua base e
não ganhou outra. E ainda por cima se relacionou mal com o Congresso nacional.
O Temer foi eleito na mesma chapa da Dilma, ou seja, com a mesma proposta
política desenvolvimentista, nacionalista.
Mas ele tenta agora uma virada
absurda para uma visão neoliberal, um programa muito parecido com o programa
que destruiu a Grécia e sem a homologação da opinião pública. O Temer fica em
uma dificuldade muito semelhante à da Dilma, que é a falta de apoio da
sociedade civil, da população brasileira. E ele busca esse apoio da forma
tradicional, dividindo cargos no Congresso nacional, que tem uma
representatividade altamente questionável hoje em função do sistema eleitoral.
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| 'A eleição elimina os danos dessa transição', opinou o senador |
BBC
Brasil: O senhor defende, então, eleições gerais e não apenas à Presidência?
Requião: O importante é começar pela eleição presidencial, mas depois temos de
focar em mudar o sistema eleitoral. Já começamos a mudar. O Brasil já aboliu o
financiamento de pessoas jurídicas de campanha eleitoral, esse é o primeiro
passo e é muito importante.
BBC
Brasil: Quais seriam os passos seguintes?
Requião: É preciso acabar com essa multiplicidade absurda de partidos, que na
verdade são legendas negociais, que entram no jogo político para negociar apoio
e posições no Parlamento e fora dele. A reforma política é essa, mas a reforma
fundamental é econômica.
BBC
Brasil: O posicionamento do senhor, contrário ao impeachment, tem causado
alguma forma de pressão dentro do PMDB?
Requião: O PMDB não é o partido nazista, é um partido que vive da diversidade de
opiniões. Na verdade, a minha opinião é a opinião histórica do partido, os
outros é que estão mudando.



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