Mundo: espionagem
A Scotland Yard
indenizou mulheres com traumas decorrentes de relações com agentes infiltrados
A ativista Helen Steel e o policial
John Dines, fotografados quando eram namorados.
Helen
Steel/Facebook
El
PAÍS – BRASIL, O Jornal Global.
A polícia do Reino Unido pediu
desculpas e indenizou sete mulheres que mantiveram relações com agentes
infiltrados em grupos de ativismo político, nos quais elas militavam. Essas
mulheres, cujos protestos sempre
foram pacíficos, descobriram anos depois que seus namorados – que desapareciam
sem deixar rastro – eram, na verdade, espiões pagos pelo Estado.
Em 1985, Charlotte, uma ativista ambiental
britânica, teve seu primeiro filho depois de 14 horas de trabalho de parto. Seu
namorado, Bob Robinson, não se mexeu a seu lado. Dois anos depois, a relação
estava estremecida. Dois amigos haviam sido presos por ter incendiado uma loja
de departamentos em protesto à venda de casacos de pele. Robinson temia ser o
próximo a cair nas mãos da Justiça e desapareceu. A última vez que Charlotte
teve notícias de Robinson foi através de uma longa carta de despedida, com selo
de Valência. Charlotte nunca se recuperou daquele abandono; seu filho cresceu
sem pai, e assim se passaram 24 anos, até que, em junho de 2012, encontrou uma
foto de Bob, "seu" Bob, no jornal Daily Mail. O artigo
revelava que o terceiro envolvido no incêndio, ocorrido no final dos anos
oitenta em uma loja de departamentos, era um policial infiltrado. Hoje, Bob,
que usa o sobrenome Lambert, é professor universitário especializado em espionagem e
atividades antiterroristas. Charlotte sentiu que todas suas lembranças viraram
de cabeça para baixo. Bob nunca foi perseguido pela polícia. Ele era a polícia.
Descobriu-se que Bob já tinha dois filhos antes do
filho com Charlotte. Ao longo de toda sua relação com ela, continuou feliz,
casado com sua esposa, a quem visitava quando estava de folga. Trabalhava na
casa de Charlotte, espionando-a e a seus amigos, informando seus chefes
da Scotland Yard sobre
os planos dos ativistas ambientais em geral e da Frente de Libertação Animal,
em particular. Colaborando com eles no que fosse necessário para validar seu
álibi: participar em manifestações, organizar protestos, lançar material
inflamável ou ter filhos com colegas de militância.
Em
novembro passado, a Scotland Yard se desculpou publicamente e pagou quantias de
dinheiro não reveladas para sete mulheres que, movendo um processo conjunto,
denunciaram o trauma sofrido pelas relações enganosas e manipuladoras que
tiveram com agentes infiltrados nos movimentos de esquerda, desde os anos 80
até a primeira década de 2000. A polícia destacou que essas mulheres se
comportaram ao longo de todo o doloroso processo com coragem e dignidade.
Outra
ativista indenizada é Helen Steel. Não é a primeira vez que aparece na
imprensa. De 1994 a 1997, foi uma das duas pessoas julgadas por difamação, em
uma ação movida pela rede multinacional McDonald’s. Conhecido como McLibel, foi
o julgamento civil mais longo na história do Reino Unido: durou 313 dias. O Tribunal
de Direitos Humanos da Europa acabou dando razão aos réus, e as revelações dos
últimos meses indicaram que um dos autores daquele panfleto incendiário não era
outro senão Bob Lambert, aliás, Bob Robinson, o pai do filho de Charlotte. O
policial infiltrado, que tinha boa caligrafia.
Mas
Helen Steel também teve um namorado que desapareceu. Acreditava que seu nome
era John Barker. Viveram juntos de 1990 a 1992. Estavam muito apaixonados. Mas
ele dizia que havia sido vítima de abuso na infância e não sabia enfrentar seus
demônios. Fugiu para a África do Sul; por muitos anos, Helen pensou que ele
poderia ter cometido suicídio. O que aconteceu é que seus chefes o queriam de
volta, atrás de uma mesa na Scotland Yard, novamente com o nome de John Dines.
Hoje, Dines coordena um curso para a polícia em Sydney. Em 9 de março passado,
Helen viajou para a Austrália para encará-lo de frente, um quarto de século
após vê-lo pela última vez. Ele pediu perdão.
Mas,
as perguntas que Helen, Charlotte e as outras mulheres gostariam de fazer a
esses policiais e ao Estado, que pagou pelas atividades dos espiões durante
anos, não têm resposta. Que direito o
Estado tinha de violar minha privacidade dessa forma? Sou uma mulher ou um
álibi? Você me amava de verdade?

Nenhum comentário:
Postar um comentário