Mundo: curiosidade
David
Robson
Da BBC Future
Soberana tem acento mais próximo do
"povão"
Se a governanta da rainha Elizabeth 2ª estivesse
viva hoje, ela teria percebido alguns tons diferentes na dicção de sua
ex-pupila. Não, a soberana não chega a "engolir" os Ts e Gs como
fazem os londrinos de classe trabalhadora, com seu sotaque cockney, mas sua enunciação nos dias de hoje poderia
ser considerada plebeia em décadas passadas.
Elizabeth 2ª não está sozinha nisso. O sotaque
refinado da classe alta - que apreciadores da cultura britânica vão reconhecer
de dramas televisivos como Downton Abbey -
perdeu um pouco do que se pode chamar de pureza nas últimas décadas, já que
mais pessoas falam um misto de inglês "operário" e "das
elites".
Pode parecer algo relacionado à velha obsessão
britânica com classes sociais, mas o fato de a rainha não falar mais o que
ficou conhecido como o Queen's English (o
inglês da rainha) oferece uma oportunidade de analisar as forças que moldam
como falamos.
Proliferação de escolas particulares
"elitizou" sotaques no século 19
A
ideia de um sotaque "apropriado" surgiu apenas recentemente na
história da língua inglesa. Jonnie Robinson, linguista da British Library,
conta, por exemplo, que o famoso dicionário de Samuel Johnson, publicado em
1755, não trazia a pronúncia das palavras porque havia a percepção de falta de
consenso sobre a forma mais correta de articular palavras. "Se você
analisa o século 18, verá que trabalhadores e ricos todos falavam com uma
espécie de voz local". O próprio Johnson tinha um sotaque da região de Lichfield.
Foi
a crescente popularidade de escolas em regime de internato que começou a mudar
maneira como as elites falavam. Robinson conta que estes estabelecimentos
promoviam um sotaque que lembrava mais os sons do sudeste da Inglaterra, em que
muitas escolas e universidades se baseavam.
Autoridade
Rapidamente, o sotaque se transformou em sinal de
classe e poder, uma associação que ficou ainda exacerbada quando a BBC adotou
um padrão oficial de pronúncia - a Received Pronunciation - para
as suas transmissões, já em 1936. "Era a voz que todos no Reino Unido e no
resto do país associou com autoridade", explica o linguista.
Kate Middleton deu entrevistas com sotaque
mais refinado que o do marido príncipe
Em
meados do século 20, o sistema de classes já era mais fluido: o sotaque agora
era uma das poucas maneiras de ressaltar que alguém tinha herdado sua fortuna
em vez de construí-la. A escritora Nancy Mitford expressou isso ironicamente ao
dizer que "apenas a linguagem distingue as classes mais altas, já que eles
já não são mais limpos, ricos ou mais educados que o resto".
Talvez fosse apenas uma questão de tempo para que a
desigualdade linguística também diminuísse. Mais e mais pessoas de classe trabalhadora
começaram a ocupar posições de poder, e isso fez com que características de
sotaques mais regionais começassem a aparecer na Received Pronunciation. "Há mais gente agora que
fala um inglês em que a pronúncia da BBC se mistura ao cockney", conta Jonathan Harrington, da
Universidade Ludwig Maximilian, em Munique.
E
um sinal disso é o fato de que os príncipes William e Harry falam justamente
desse jeito.
Já
na época do Casamento Real de 2011, Kate Middleton, então noiva de William,
falava com um sotaque mais polido e aristocrático que o segundo na fila do
trono britânico. Algo que pode ter sido causado pela pressão psicológica de ser
a primeira pessoa sem "sangue azul" em mais de 300 anos a se casar
com um membro da família real.
Pesquisador analisou ano a ano mensagens televisivas de Boas
Festas da soberana
Não é muita surpresa que pessoas mais
jovens adotem alguns tons que escutam nas ruas como forma de reação contra sua
criação. "Seria trejeitos que nos fariam parecem mais moderninhos e
antenados, mas que abandonamos quando crescemos", explica o linguista.
A surpresa aqui é que uma monarca de
89 anos seja influenciada. Os estudos de Harrington mostram que mesmo o sotaque
da rainha ganhou tons mais "classe média" nas últimas décadas.
Algumas palavras pronunciadas por Elizabeth 2ª têm o mesmo som saído dos lábios
da cantora Adele.
Harrington não acredita que a rainha
tenha passado por algum tipo de lição para "soar menos
aristocrática". Suas análises dos discursos de Natal feitos pela soberana
sugerem mudanças graduais na pronúncia, de forma quase imperceptível, ao passo
que se ela estivesse deliberadamente tentando "imitar" os súditos, as
alterações seriam mais abruptas.
Para o acadêmico, a mudança pode ser
explicada por alguns estudos de psicologia sobre a arte da conversação. Vários
experimentos mostram que nossos sotaques "gravitam" levemente em
direção ao de interlocutores, como forma de estabelecer uma conexão. Há até
evidências de que isso nos ajuda a entender melhor o que os outros estão
dizendo. E o mais importante: os efeitos permanecem mesmo depois das despedidas.
Rainha foi exposta a sotaques
diferenciados ao longo das décadas
Harrington explica que, no começo de
seu reinado, em 1952, Elizabeth não tinha muito contato com muitos súditos das
ruas de forma frequente. Mas a mobilidade social que marcou os anos 60 e 70 fez
com que pessoas de sotaques mais "plebeus" começassem a ocupar
posições de poder.
"Pense, por exemplo, no caso dos
primeiros-ministros. Nos anos 50, eles vinham da aristocracia, mas nas décadas
seguintes o país teve líderes de outras origens - Harold Wilson, Edward Heath e
Margareth Thatcher".
Isso sem falar em empregados e
funcionários reais. E mesmo os netos da soberana. Todos trouxeram vozes
diferentes.
Harrington acredita que
apresentadores de TV como David Attenborough também foram influenciados por
essas mesmas forças - basta assistir aos seus primeiros documentários.
"Essa sutil imitação espontânea é um dos principais motores da mudança do
som (da pronúncia)", diz ele.
O mais fascinante é que essa sutil
imitação tinha sido observada, durante estudos, em pessoas comuns. Não em uma
rainha. Apesar de todo seu poder e fortuna, Elizabeth 2ª ainda está fazendo os
mesmos pequenos e inconscientes gestos de solidariedade que todos nós fazemos
em conversas.
E isso significa que cada papo deixou
uma marca em seu discurso. Em uma simples vogal, podemos encontrar traços de
todas as pessoas que ela encontrou, em um sinal da mudanças sociais no Reino
Unido.
Leia a versão
original dessa
reportagem (em inglês) no site BBC Future.





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