Brasil: política
Colaboração
de Fernando Alcoforado*
O PT
divulgou no dia 17/5/2016, após reunião de seu Diretório Nacional, resolução
através da qual critica a postura do PMDB e do vice-presidente da República
Michel Temer, a quem acusam de dar um “golpe” político em Dilma para assumir o
poder. Além disso, o PT afirma que cometeu falhas durante os 13 anos de
governos petistas. Um desses erros, segundo o partido, foi se deixar
“contaminar” pelo financiamento empresarial de campanha e o que chamam de
“prática dos partidos tradicionais”, sem citar diretamente o envolvimento de
petistas em esquemas de corrupção.
A resolução
afirma textualmente que “fomos contaminados pelo financiamento empresarial de
campanhas, estrutura celular de como as classes dominantes se articulam com o
Estado, formando suas próprias bancadas corporativas e controlando governos.
Preservada essa condição, mesmo após nossa vitória eleitoral de 2002,
terminamos envolvidos em práticas dos partidos políticos tradicionais, o que
claramente afetou negativamente nossa imagem e abriu flancos para ataques de
aparatos judiciais controlados pela direita”.
A resolução
do PT informa também ter se tornado “refém de acordos táticos” para conseguir
administrar o país, fato este que ampliou o poder de fogo de setores mais à
direita. A resolução diz, também, que “tampouco nos dedicamos, com a devida
atenção e perseverança, a costurar uma aliança estratégica entre os partidos
populares e os movimentos sociais, que pudesse ampliar o peso institucional da
esquerda. Acabamos reféns de acordos táticos, imperiosos para o manejo do
Estado, mas que resultaram num baixo e pouco enraizamento das forças
progressistas”.
Outra
autocrítica feita pelo PT foi a da demora em perceber o “esgotamento” do modelo
econômico que vigorou no Brasil de 2003 a 2010. A resolução informa que “o
desequilíbrio fiscal recolocou o país em uma encruzilhada: acelerar o programa
distributivista, como havia sido defendido na campanha da reeleição
presidencial, ou aceitar parcialmente a agenda do grande capital”, pondera o
PT, ressaltando que o governo acabou optando pelo segundo caminho.
Em outro
trecho, o documento diz que o PT incorreu “em um equívoco político” ao não
tomar a frente de “tarefas fundamentais como a reforma política, a reforma
tributária progressiva e a democratização dos meios de comunicação". Para
os dirigentes petistas, “apesar dos esforços constantes” para corrigir os
desvios acima apontados, ficou claro que “suas sequelas debilitaram o PT e
fragilizaram o conjunto da esquerda frente à escalada golpista”.
O texto da
resolução afirma que o processo de impeachment é um "golpe sem base
legal". Além disso, O PT propõe que Dilma, caso reassuma a presidência,
apresente um compromisso público para uma ampla reforma política e medidas que
retomem o desenvolvimento do País. A resolução também afirma que a Operação
Lava Jato desempenhou "papel crucial na escalada golpista". A
Operação Lava Jato configurou-se paulatinamente em instrumento político para a
guerra de desgaste contra dirigentes e governantes petistas, atuando de forma
cada vez mais seletiva quanto a seus alvos, diz o texto.
O PT defende
que, diante do afastamento de Dilma, a sigla articule uma combinação “de todos
os tipos de ação massiva e combate parlamentar para inviabilizar” as medidas
“impopulares” do governo do presidente em exercício, Michel Temer, de modo a
“denunciar seu caráter ilegal e impedir sua consolidação no comando”. O PT vai
priorizar alianças com partidos de esquerda como o PCdoB e PDT, justamente os
que se opuseram ao impeachment de Dilma. Alianças com outros partidos, como
setores do próprio PMDB que se opuseram ao impeachment, no entanto, não estão
descartadas.
A análise da
autocrítica do PT permite constatar que sua resolução, ao acusar as forças de
oposição ao governo de dar um “golpe” político em Dilma Rousseff para assumir o
poder, não reconheceu que ele próprio criou as condições para o afastamento de
Dilma Rousseff do poder graças à incompetência do governo federal que foi
responsável pela bancarrota da economia brasileira, além de não apresentar
solução para a crise econômica do País da qual resultaram a insolvência da
União, dos Estados e Municípios, a falência de cerca de 40% das empresas
nacionais, 11 milhões de desempregados, a inflação superior a 10% ao ano e a
rejeição por parte de 80% da população brasileira.
A resolução
do PT que afirma ter havido um “golpe” político em Dilma Rousseff representa um
mero pretexto para encobrir os crimes de responsabilidade que ela praticou no
exercício da presidência da República que deram margem ao processo de
impeachment. O impeachment de Dilma Rousseff não pode ser tachado de “golpe
parlamentar” porque seu processo obedeceu a Constituição e todo o processo
legal foi estabelecido pelo STF. Apesar de o impeachment de Dilma Rousseff ter
tomado como base apenas os crimes de responsabilidade por ela praticados
deveria ter levado em conta os crimes econômicos contra o País ao levá-lo à
bancarrota, os crimes de corrupção que se tornou sistêmica nos governos do PT e
os crimes contra a sociedade brasileira que passou a enfrentar um nível sem
precedentes de desemprego em massa. A rejeição que o governo Dilma Rousseff
passou a enfrentar de cerca de 80% da população resulta desses três crimes.
Em sua
autocrítica o PT reconheceu o erro ao se deixar “contaminar” pelo financiamento
empresarial de campanha ao adotar a mesma “prática dos partidos tradicionais”,
sem fazer referência ao fato de ter realizado um verdadeiro assalto aos cofres
públicos institucionalizando a corrupção em todas as instâncias do governo e
sem citar diretamente o envolvimento de petistas, como Lula, Dirceu, entre
outros, em esquemas de corrupção. O PT reconheceu que ao aderir a práticas de
corrupção, própria dos partidos políticos tradicionais, afetou negativamente a
imagem do partido e abriu flancos para ataques de aparatos judiciais
controlados pela direita. O incrível é o PT atribuir à Operação Lava Jato como
uma iniciativa da direita para comprometer os interesses do partido quando se
sabe que esta Operação incluiu não apenas o PT em crimes de corrupção. O fato
concreto é que o PT institucionalizou a corrupção nas estruturas do governo
imaginando que, graças a seu poder, poderia passar incólume perante a polícia e
a justiça. Trata-se de um absurdo a afirmativa do PT de que a Operação Lava
Jato é uma iniciativa da direita para comprometer os interesses do partido.
O incrível é
o PT acusar a direita de comprometer seus interesses quando governou de 2002 a
2016 com a direita. A própria resolução do PT demonstra que governou com a 3 direita
ao afirmar que o partido ficou “refém de acordos táticos” para conseguir
administrar o país que ampliou o poder de fogo de setores mais à direita. A
resolução do PT afirma, em síntese, que “acabamos reféns de acordos táticos,
imperiosos para o manejo do Estado, mas que resultaram num baixo e pouco
enraizamento das forças progressistas”. O PT faz, portanto o “mea culpa” ao
afirmar que comprometeu o avanço das forças progressistas do País confirmando o
que afirmamos em nosso artigo Rumo ao lixo da história que publicamos em
12/05/2016.
O PT faz,
também, a autocrítica de que demorou a perceber o “esgotamento” d
o modelo
econômico que vigorou no Brasil de 2003 a 2010. Esta afirmativa demonstra sua
flagrante incompetência ao não identificar que a crise mundial de 2008 traria
graves consequências para o Brasil com a instabilidade que evoluiu até atingir
o nível catastrófico atual. O mais grave foi o PT não ter feito autocrítica ao
ter dado continuidade a partir de 2002 ao modelo econômico neoliberal posto em prática
pelos governos que antecederam os de Lula e Dilma Rousseff que é o principal
responsável pela colapso em que se encontra a economia brasileira.
Finalmente,
o PT propõe algo praticamente impossível de acontecer que é a de Dilma
Rousseff, ao reassumir a presidência da República, apresentar um compromisso
público para realizar uma ampla reforma política e adotar medidas que retomem o
desenvolvimento do País. A impossibilidade de Dilma Rousseff reassumir a
presidência da República reside no fato de ela ser rejeitada por 80% da
população e de não ter base política de sustentação no Congresso Nacional.
Dilma Rousseff não reuniria condições de governabilidade. O PT demonstra, sem
sombra de dúvidas, não ser detentor de conhecimento em ciência política ao defender
a possibilidade de volta de Dilma Rousseff ao poder.
*Fernando Alcoforado, 76, membro da
Academia Baiana de Educação, engenheiro e doutor em Planejamento Territorial e
Desenvolvimento Regional pela Universidade de Barcelona, professor universitário
e consultor nas áreas de planejamento estratégico, planejamento empresarial,
planejamento regional e planejamento de sistemas energéticos, é autor dos
livros Globalização (Editora Nobel, São Paulo, 1997), De Collor a FHC- O Brasil
e a Nova (Des)ordem Mundial (Editora Nobel, São Paulo, 1998), Um Projeto para o
Brasil (Editora Nobel, São Paulo, 2000), Os condicionantes do desenvolvimento
do Estado da Bahia (Tese de doutorado. Universidade de
Barcelona,http://www.tesisenred.net/handle/10803/1944, 2003), Globalização e
Desenvolvimento (Editora Nobel, São Paulo, 2006), Bahia- Desenvolvimento do
Século XVI ao Século XX e Objetivos Estratégicos na Era Contemporânea (EGBA,
Salvador, 2008), The Necessary Conditions of the Economic and Social
Development- The Case of the State of Bahia (VDM Verlag Dr. Müller
Aktiengesellschaft & Co. KG, Saarbrücken, Germany, 2010), Aquecimento
Global e Catástrofe Planetária (P&A Gráfica e Editora, Salvador, 2010),
Amazônia Sustentável- Para o progresso do Brasil e combate ao aquecimento
global (Viena- Editora e Gráfica, Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, 2011), Os
Fatores Condicionantes do Desenvolvimento Econômico e Social (Editora CRV,
Curitiba, 2012) e Energia no Mundo e no BrasilEnergia e Mudança Climática
Catastrófica no Século XXI (Editora CRV, Curitiba, 2015). Possui blog na
Internet (http://fernando.alcoforado.zip.net). E-mail: falcoforado@uol.com.br.

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