Literatura/Arte
cinematográfica
Por Roberto
A arte tem
que ser livre, mesmo que o artista não seja.
O texto evidencia um grande
diagnóstico observado nos países em desenvolvimento. Esses, por serem
caracterizados pelas grandes desigualdades socioeconômicas, acabam repassando
tal cenário também para às Artes. Nesse caso, através do elitismo. A
"desigualdade artística" se mostra viva através do engajamento na
criação, discussão e desenvolvimento do Cinema somente a partir daqueles que
tiveram condições sociais avantajadas. Algo que precisa mudar o quanto antes (e
que irá mudar).
A censura elitista do
Cinema nos países em desenvolvimento.
As grandes redes de salas de Cinema e as
redes televisivas se comportam, devidamente, como empresas, almejando, assim,
sempre agradar o seu consumidor para garantir o lucro. De modo que, quando
essas vão escolher as suas grades de exibição e programação, respectivamente,
acabam selecionando as que trarão mais lucro (agrado ao consumidor) a partir do
“pequeno investimento” que eles estão fazendo ao adquirir os direitos de
exibição do determinado filme. Portanto, elas selecionam aquelas películas
denominadas como Cinema de produção, cujo interesse de realização,
primordialmente, das grandes produtoras, provém diretamente de análises de
mercado, a fim de garantir o interesse do público/consumidor, planejamentos de
marketing, escalação de grandes estrelas (da Globo) nos papéis principais, com
o intuito de criar, devidamente, grandes bilheterias (em casos raros de sucesso
de marketing e bilheteria, certos filmes de Cinema de autor são selecionados
também). E, assim, tem-se um ciclo completo, gerido através de uma lei de
mercado da “demanda e oferta” extremamente deturpada.
Deturpada, pois ela envolve a Arte.
Deturbada, pois a grande massa populacional
unicamente tem acesso ao Cinema via essas redes de televisão, via essas redes
cinematográficas.
Até esse momento, o texto tem sido igual ao
início de “A censura liberal do Cinema”, de forma intencional, para que se
possa, dessa maneira, ambientar o leitor ao panorama contextual. Entretanto,
agora, desejo mostrar um outro lado da moeda dessa questão.
Foi descrito nesse mesmo texto, qual é o
perfil do grande público que forma o mercado consumidor dessas redes de Cinema,
da exibição dos filmes nas redes de televisão, do Cinema de produção. E foi
constatado que esses são, em sua maioria, pobres, da classe média, com formação
escolar longe da acadêmica, como grande parte da população dos países em
desenvolvimento.
Entretanto, a questão agora é: qual é o
perfil do público do Cinema de autor?
Por constatações empíricas, o público do
cineasta de autor são os denominados “intelectuais”. Pré-universitários,
universitários, formados da academia, progressistas, e pela concepção cultural
de nossa década, e de outras, também há os alternativos, os “hipsters”, os
“blasés”: a comunidade cinéfila. Todos aqueles que dizem que a vida seria
impossível sem a arte. Que declaram amor ao Cinema, como ela sendo a mais bela
de todas as sete.
A verificação que se passa é simples. Esse
público tem conhecimento acadêmico, ele tem apreço pelo que é artístico e pela
qualidade desse aspecto, uma vez que seu trabalho exige o intelecto. Ele busca
por isso, uma vez que, sua experiência intelectualizada o fez pensar sobre
Arte. Algo que a classe pobre e média pouco se dá ao luxo, tendo em vista que,
como já foi posto naquele mesmo texto da censura liberal, ela precisa se
exaurir no trabalho (normalmente, não intelectual) e descansar no tempo livre
para sobreviver. Não se pensa sobre a possibilidade de haver outros filmes,
outras possibilidades, além daqueles que passam no Cinema mais próximo de sua
casa e no canal de televisão que ela assiste todo dia. No seu tempo livre, a
classe pobre e média deseja um mínimo de comodidade e instantaneidade, assim
como o personagem de Edward Norton em Fight Club (David Fincher, 1999).
Ou seja, o público do cineasta de autor é,
devidamente, a elite, tanto econômica – burguesa - como a intelectual – que
também é detentora de modo de produção. Um público restrito e pequeno, como
dito no texto anterior. Isso, por sua vez, exibe uma contradição entre o meio
artístico e situações análogas econômicas. Por que, então, um produto
“consumido” por tão poucos, que possui um certo valor agregado refinado,
próximo das classes mais altas, tem um valor quantitativo tão baixo quando
comparado a uma peça de roupa de uma grife? Afinal, as salas de Cinema
continuam presas aos centros das capitais, o conhecimento e o debate sobre a
Sétima Arte ainda são restritos a poucos e a áurea intelectualizante ao redor
de especialistas cinematográficos ainda existem – aqueles que aparecem em programas
de televisão e rádio. Creio que a pergunta inicial não tenha sido a mais
furtiva, uma vez que, o certo “valor agregado refinado” não deve, de maneira
alguma, existir na Arte. Mas mesmo assim ele permanece. Permanece quando tanto
o seu público, como o cineasta – em maioria, estudioso, que veio de uma família
rica, que pudesse lhe dar seguridade financeira se possível, caso seus projetos
não dessem certo – estão acostumados a fazer parte de uma elite e que, assim,
tampouco possuem vontade de mudar os seus padrões de comportamento, como pouco
se tem feito atualmente, pois são eles que gerem a “ordem cinematográfica
nacional”.
O Cinema não deve ser uma Arte elitizada e a
maré a ser nadada é contrária à sua tendência. Ela precisa ser uma Arte
difundida, com salas de exibição populares espalhadas pelo país, nas
periferias, no interior. Preços de ingressos baixos, para ser acessível a todos
os bolsos. Debates de Cinema sendo democratizados. Sem a “áurea intelectual”,
sem cinefilia.
Quem chegou próximo disso foi Glauber Rocha
com seus companheiros do Cinema Novo e como ele dizia tem que ser “uma câmera
na mão e uma ideia na cabeça”, e isso não deve se restringir apenas aos dias
dele e à sua técnica de filmagem, mas sim ao todo do projeto. Como foi dito
para mim a algum tempo atrás, a câmera na mão não tem que ser a especificamente
a melhor do ramo, mas sim a que tem disponível. E a ideia na cabeça, é aquela,
qualquer, liberta, livre como deve ser. Portanto, faz-se o tempo da classe
pobre, média, dos países em desenvolvimento, que estiver disposta para isso, se
levantar de mais uma (entre as muitas que existem) censura, que a monetização
da vida impõe em nossos desejos e realizações, de fazer Arte e ser cineasta,
discutir sobre, difundi-las. Pois, caso contrário, o censor da elite continuará
agindo, silenciosamente, estagnando e reprimindo os desejos, assim, desejados.
De viver para o Cinema.
Outro fenômeno dos países em desenvolvimento.


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