Literatura: crônica
Por Paula
Peregrina
“Se não me
mexo, se não viajo, tenho como todo mundo minhas viagens no mesmo lugar, que
não posso medir senão com minhas emoções, e exprimir da maneira a mais oblíqua
e indireta naquilo que escrevo.”
Por mais amor e menos pudor.
Uma vez um amigo me relatou que se sentiu
muito desconfortável e desiludido com uma namorada que teve há tempos atrás,
porque ela se tocava durante a relação sexual para chegar ao ápice. Sua fala
ecoava algo como: “Então eu não sou o suficiente para levá-la às alturas?”.
Desse gesto da namorada vieram as dúvidas sobre o que ela sentia por ele, sobre
a atração que ela sentia, e por aí vai. Veio a tensão, a relação acabou, ficou
a dúvida. – Nunca falaram sobre isso. Tampouco algum de seus amigos soube falar
algo claro sobre isso. A verdade é que são poucas as pessoas abertas a falar
sobre essas coisas, principalmente quando se trata da sexualidade e do prazer
feminino.
É assustador para alguns homens que as
mulheres não se satisfaçam apenas por estarem com eles como eles querem. Não
surpreende que a maioria pense que o simples fato de eles fazerem apenas aquilo
que consideram prazeroso seja o suficiente para que a parceira também sinta
prazer. Há inclusive os que nem se preocupam com isso. Essa postura é comum, é
rotineira e não faz parte de diálogos. Na verdade, é bastante assustador para
muitos homens que uma mulher fale de sexo abertamente, de um modo geral, e isso
muitas vezes logo é interpretado como uma pré-disposição da mesma para que ela
faça qualquer coisa, com qualquer pessoa porque “tem mente aberta”.
Acontece que ter mente aberta não significa
fazer qualquer coisa com qualquer pessoa, significa conhecer algo o suficiente
para não ter medo, e por não ter medo e buscar conhecer, falar disso. Porque
quando falamos sobre as coisas - principalmente coisas naturais, que fazem
parte da vida, sendo que a sexualidade é apenas uma delas – tudo fica muito
mais fácil. Perdem-se os medos bobos, os preconceitos, as vergonhas e tantas
outras fontes de frustração; aprende-se a fazer escolhas mais acertadas;
descobre-se mais sobre a vida, sobre o corpo, sobre si, sobre a diversidade que
pode existir no outro. Descobre-se, inclusive, que a sexualidade não se resume
ao ato sexual, mas é parte essencial na nossa existência e faz parte do
cotidiano. É surpreendente que em uma sociedade tão sexualizada, com tudo tão
explícito e até banalizado, falar desse assunto ainda seja um tabu.
Sexo é bom, mas não é bom de qualquer jeito e
com qualquer pessoa. Como tantas outras coisas, cada pessoa tem suas
particularidades, seus desejos, fantasias, preferências e limites. Em uma
relação que se pretenda duradoura, saudável e agradável para as duas pessoas, é
essencial falar sobre isso. Mesmo fora de uma relação, ter essa atenção consigo
e com o outro pode tornar o que é bom (ou deveria ser) ainda melhor. Transar
com uma pessoa é uma forma de conhecê-la muito intimamente. É um diálogo com o
corpo e com as emoções. Quanto mais se busca conhecer essa intimidade – a
própria e a alheia - melhor a troca, melhor o encontro, e isso reflete em
vários outros aspectos da vida.
Para além das relações, a sexualidade
feminina também assusta e é alvo de juris sociais onipresentes: assusta sair
dos padrões, assustam as fantasias das “garotas”, assustam os gostos e as
roupas, o batom vermelho e a iniciativa. Assusta o desejo de independência e
compromisso ao mesmo tempo. Assusta não querer ser mãe, nem esposa, nem
monogâmica. E não é só às mulheres que esse pavor da sexualidade feminina
prejudica: assusta aos homens que uma mulher não se importe que o seu pênis não
seja grande e o deseje assim mesmo, assusta que ela o considere atraente embora
esteja fora dos padrões estéticos, não tenha uma “barriga tanquinho” nem seja
forte ou rico. Assusta que ela queira realizar aquela fantasia dele porque
também é a dela. Assusta que ele tenha em si algo de uma sexualidade feminina.
A sexualidade assusta de muitas formas, pois não somos educados para ela e
somos intoxicados de romances idealistas por um lado e pornografia barata por
outro. Ainda vivemos em uma sociedade que insiste em separar sexo e amor como
se fossem duas coisas inconciliáveis.
Parece que andamos esquecidos de que há
muitos milhões de anos superamos a era das cavernas, e assim, o sexo, a
sexualidade, como tantas outras características humanas, também evoluíram. Não
transamos apenas para reproduzir, nem nos unimos para nos proteger contra
ataques animais ou para povoar uma comunidade com trabalhadores e guerreiros.
Os atributos que uma vez fizeram sentido e foram essenciais para a nossa
evolução já não importam mais, assim como os dentes do siso não tem mais uma
função. Seria legal que a nossa mentalidade evoluísse como (ou mais que) o
nosso corpo. Seria legal que usássemos isso em favor de uma convivência mais
harmoniosa. Seria muito bacana que nos importássemos menos em julgar a
sexualidade alheia e nos preocupássemos mais com a nossa. Afinal, em tempos que
ruminam a intolerância e a ignorância de épocas passadas, apesar da psicanálise
e de todo o conhecimento construído acerca da sexualidade humana, “todo mundo
tem problemas sexuais”. Cabe a cada um resolver o seu.


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