Literatura/crônica
Por Pamela Camocardi
“É professora,
palestrante e teimosa. Criadora do site ¨Entrelinhas Literárias¨, acredita e
defende a leitura como essencial e como base formadora de opiniões.”
Nesse mês Freud faria 160 anos
e ainda deve à humanidade explicações que a própria ciência não consegue dar.
A psicanálise tem um
pai: Segmund Freud. Por motivos desconhecidos ele virou, também, o pai das
dúvidas sem resposta. Não é raro ouvir “Freud explica” nas rodas de conversas
informais.
A psicanálise e Freud se popularizaram de tal
forma que suas ideias, muitas vezes apresentadas de modo errôneas e distorcidas,
viraram explicação para todas as situações complexas da humanidade,
principalmente nessa sociedade modista em que vivemos. Tudo é motivo para
buscarmos respostas e esclarecimentos sobre algum comportamento visto como
"diferente", mesmo quando não há.
Há dias em que, simplesmente, queremos ficar
quietos, em estado de inércia e isso não exige um estudo minucioso sobre o
comportamento humano. Quando Freud escreveu “O mal da civilização” em 1930 e
defendeu a tese de que “o indivíduo é um ser infeliz, e que esse mesmo
indivíduo vive á mercê de uma infelicidade permanente”, o psicanalista não se
referia a todo comportamento humano, mas a determinados momentos de
infelicidade que todos enfrentam. O problema está na (errada) interpretação que
fizeram do tema.
Atualmente, é proibido estar triste. Fato!
Uma lágrima é motivo de remédios de tarja preta ou filas gigantescas na porta
dos consultórios. A supervalorização do estado de felicidade no ser humano é
demolidora, porque traz consigo a obrigação em ser feliz o tempo todo,
fazendo-nos esquecer que a felicidade não é rotineira e que, segundo o próprio
Freud, nunca chega a nos pertencer. Ser feliz é diferente de estar feliz e
entre essas definições existe uma ponte gigantesca. Mas o homem busca
incessantemente ser feliz como um objetivo de vida, esquecendo de viver as
outras emoções da vida. “A felicidade é efêmera por definição. Por isso, as
pessoas que só pensam nela sofrem muito mais e se distanciam das pequenas
alegrias da vida”, afirma o escritor francês Pascal Bruckner, autor do livro A
Euforia Perpétua (Bertrand Brasil, 2002).
Poucos percebem que a sensação de estar
triste é tão benéfica quanto à felicidade. Tristeza é um sentimento que
responde a estímulos internos, como memórias e vivências e isso permite que
haja amadurecimento emocional e busca de soluções para acabar com essa situação
emocional.
Em uma entrevista, Freud fez uma das mais
lindas definições de tristeza: “Setenta anos ensinaram-me a aceitar a vida com
serena humildade (...) Não, eu não sou pessimista, não enquanto tiver meus
filhos, minha mulher e minhas flores! Não sou infeliz – ao menos não mais
infeliz que os outros”.
A verdade é que a aprendizagem proporcionada
pela tristeza é algo enriquecedor e resta-nos viver (e amadurecer) enquanto ela
insiste em permanecer em nossos dias.


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