Mundo: música
Por Contreraman
“E as
coisas que continuam já se foram. E as que se foram continuam para nunca
terminarem. Até um fim que nunca vem...”
Nunca passei por essa
sensação ao vivo. Creio que muitos outros também não. Refiro-me não a grupos
nacionais, que já vi, mas a gente que realmente faz a diferença - e por gente
refiro-me a banda, ambiente e espectadores. Nessas ocasiões, até um cara
mal-educado no momento errado pode estragar a noite - uma vez, num show a que
fui convidado, um de nossos colegas fez esse triste papel e bom, a noite se foi
assim, capengando. Uma pena.
"Os anos de
jazz" é hoje uma expressão atemporal que remete a todos aqueles ambientes,
facilmente reconhecíveis, em que o foco está no swing e no compartilhar de
almas entre todos os presentes, embalados por algum grupo de jazz. Os filmes de
Robert Altman (embaixo, Kansas City) -
mostram isso quase palpavelmente; eu considero que uma das cenas em que isso fica mais claro está, por incrível que possa parecer, num filme de ação, "Bullitt", quando o detetive e a namorada jantam num restaurante com música ao vivo. Vejam:
Nunca passei por essa sensação ao vivo. Creio
que muitos outros também não. Refiro-me não a grupos nacionais, que já vi, mas
a gente que realmente faz a diferença - e por gente refiro-me a banda, ambiente
e espectadores. Nessas ocasiões, até um cara mal-educado no momento errado pode
estragar a noite - uma vez, num show a que fui convidado, um de nossos colegas
fez esse triste papel e bom, a noite se foi assim, capengando. Uma pena.
Quando abandonava minha fixação pelos
guitarristas virtuosos da década de 80, comecei aos poucos a me aproximar dos
grandes e intocáveis nomes do jazz norte-americano de todos os tempos. Isso por
intermédio de CDs, comprados baratinho numa lojinha que ficava no Conjunto
Nacional.
Lembro-me do êxtase experimentado ao
encontrar hoje faixas comuns de Sonny Rollins, John Coltrane e da estranheza ao
ouvir Cecil Taylor, no qual fiquei fã de carteirinha e cujo trabalho no piano
acompanhei a apenas 5 m de distancia, quando veio nos prestigiar com sua
loucura bendita.
Como morava com meus pais, eu não podia ouvir
música alto, e por isso usava fones de ouvido daqueles que hoje viraram moda
hipster, mas que eram os únicos que me serviam. E notava como, por meio
daquelas faixas enormes, algumas, exatas, outras, eu conseguia avançar numa
sensibilidade aguçada que me remetia a sentimentos que eu sinceramente não
conseguia desenvolver. Mas eu tinha medo disso. E por isso acabei recaindo numa
visão mais engenheira e menos lírica do que me aparecia. E fazia como que
cálculos com as notas que ouvia. Era uma higiene mental, em suma. Mas isso foi
depois.
Nos anos 90, eu engolia sem dó todos os hits
que iriam formar minha musicoteca de jazz nos anos seguintes. E ia percebendo
aos poucos a graça da coisas, assim como o significado vivencial desse tipo de
audição. Cito-lhes por exemplo, Time Will Tell, do Wynton Marsalis, com a banda do Art Blakey,
que eu assimilei (foi a primeira com a qual fiz isso) nota por nota, tal qual
um Steve Vai pegando, uma por uma, das mais complexas composições e
improvisações de um Frank Zappa, o primeiro virtuoso a criar estilo.
Foi ouvindo essa coisinha que parece não
parar nunca, e cujos solos, embora não perfeitos, criam um contraponto legal à
base rítimica, que eu fui me "sentindo" no local de jazz perfeito, e
idealizando o que teriam sido aqueles lugares, e com isso "admitindo"
(refiro-me a mim) a realidade suja de um lugar que parece não dar em nada mas
que tinha Miles Davis de prontidão para entoar sua parte (reparem que no filme
Colateral, do Michael Mann, há uma espécie de esforço de retomar a lenda que
eram aqueles tempos e lugares, por serem qualquer lugar, e também porque o cara
que anda pela noite sabe muito bem que muitas vezes achamos pérolas perdidas em
becos mal-afamados).
O Wynton veio um ano destes aí ministrar
cursos em escolas de música para gente que leva tudo isso como profissão, e não
para um reles mortal como eu, que me contento em ficar olhando de longe, ou
quanto muito só um pouco mais perto. E o Anthony Braxton, conhecido bastante
tempo depois, também veio uma noite, que eu perdi por descuido. Mas na verdade
eu bem me lembro: eu não queria ver mais aquilo lá, não - nem o Wynton dando
aula, nem o Braxton experimentando. Nessa época, eu já voltara a me
familiarizar com esse negócio de noite, e de bar noturno, e de vida enquanto a
música rola, os amigos chegam, e dançam, as garotas vêm e vão, ou vamos com
elas e tudo o mais. Eu conhecia então o que era o lugar daquelas noitadas de
jazz sem ter estado sequer um minuto em meio a elas.
Não que eu conheça muito, claro. Não conheço.
O Marião, que a todo esse universo foi apresentado por outras pessoas, sabe,
por exemplo, muito mais do que eu jamais poderia esperar, dado que ele também
realmente se dedicou a cultivar o gosto, e por isso também é tão bem cotado entre
os do teatro e seus amigos. Mas foi navegando naqueles cds matreiros, que ainda
possuo, e usando equipamentos pré-históricos é que eu consegui aos poucos me
aventurar no universo que hoje é falsamente rotulado como noir, mas que de
negro não tem apenas a cor da noite e da maioria dos músicos, mas a ênfase de
vida, algo soturna, mais para melancólica, que é mais coisa da Filosofia.
Capa do face do dramaturgo e diretor Mario
Bortolotto, que tem tudo a ver com seu bar e teatro, do qual sou avido frequentador
e aprendiz
https://www.facebook.com/mario.bortolotto?fref=ts
Outra ocasião comento.
© obvious: http://lounge.obviousmag.org/o_olhar_amor_na_arte_apos_o_fim_da_arte_e_da_filosofia/2016/05/jazz-blakey-marsalis-colateral-e-a-sensacao-de-que-a-noite-nunca-deve-acabar.html#ixzz48LxGbcSV
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