por
Kelly Cerqueira
Publicada em 19/07/2013 00:16:36
Existem vários motivos para
considerar a pequena Bianca, nascida no Instituto de Perinatalogia da Bahia
(Iperba), no dia 2 de abril, com 22 semanas de gestação (cinco meses e meio) e
apenas 622 gramas, uma criança de muita sorte. Isso porque bebês
que nascem muitas semanas antes do previsto, sem a devida formação, geralmente
não sobrevivem. Bianca desafiou a medicina, reage firme e forte as complicações
do nascimento prematuro, completando três meses no último dia 2, quando ainda
nem deveria ter nascido.
Os resultados dos exames e os avanços diários da criança surpreendem até
a própria mãe de Bianca, a desempregada Rosélia Anunciação Macena, 25 anos. A
princípio os testes não apontam nenhum problema grave de saúde. Pesando 2 kg,
ela aguarda doação de sangue do tipo O-, para a conquista da alta médica.
Sem apresentar qualquer causa específica aparente para o nascimento
prematuro Rosélia, que já é mãe de um garoto de cinco anos, começou a sentir
dores quando estava com cinco meses e meio de gestação. “Foi na Sexta-feira
Santa, passei mal o dia todo e acabei vindo para a maternidade, mas nunca
imaginava que fosse ter o bebê tão cedo”, lembra. Ela conta que, após várias
tentativas de manter o feto na barriga, a bolsa estourou sendo obrigada a
realização do parto, no dia 2 de abril. “A equipe médica já havia me alertado
sobre a possibilidade de o bebê estar morto, porque as dores haviam parado e eu
não sentia mais ela se mexer dentro de mim”, recorda.
Emocionada, ela conta com detalhes os momentos que se seguiram após a
vinda de Bianca ao mundo. “Eu me lembro de tudo, ela era muito pequenininha e
saiu de mim envolvida em uma bolha seca, mas a médica que fez o parto viu que
ela se mexia. Quando rasgaram a bolha ela deu um suspiro bem forte e
começou a bater a mãozinha no rosto”, continuou, lembrando que, mesmo após a
constatação de vida da filha, a probabilidade de sobrevivência do bebê era
muito pequena. “Eu que vi tudo sei que foi uma negócio de Deus”, disse.
Após o nascimento da filha, Rosélia ainda enfrentou problemas com a
amamentação. Enquanto a mãe fazia o tratamento no banco de leite da maternidade
para a recuperação do fluxo, Bianca, aos três dias de vida, já se alimentava
com leite materno de uma doadora.
Estudos
Integrante da equipe que acompanha a evolução de Bianca, a médica
neonatologista do banco de leite do Iperba Ana Paz informou que pesquisas
realizadas em alguns países da Europa apontam o índice de mortalidade em
crianças nas mesmas condições de Bianca são de 95% a 100%.
“Embora ela ainda necessite de alguns cuidados especiais, confortos
necessários e acompanhamento médico, os exames de Bianca apontam que ela está
bem”, afirmou. Formada há 30 anos e há 10 atuando no Iperba, a médica diz nunca
ter visto um caso como o de Bianca. Ainda segundo ela, existem riscos de
sequelas neurológicas, mas por enquanto não há como prever como será o
desenvolvimento do bebê.
Embora a gravidez de Rosélia não tenha apresentado um motivo explícito
para o nascimento prematuro de Bianca, alguns fatores podem contribuir para o
parto adiantado, segundo informou a médica. O uso de álcool, cigarro e
outras drogas durante a gravidez, traumatismos na barriga, doenças maternas,
fatores psicossociais, como o estress também podem interferir na gestação.
“Pacientes muito abaixo ou acima do período de fertilidade (adolescentes e
idosos) também têm maior probabilidade de sofrer com o parto prematuro”,
informou a especialista. Ainda segundo ela, a única maneira de prevenir este
tipo de problema é fazendo o acompanhamento prenatal.
Solidariedade muda a vida da família
Com três meses de vida, a maré de sorte de Bianca continua jogando a
favor dela. Fruto de uma gravidez não planejada e nascida antes do tempo, a
criança pegou os pais de surpresa, nascendo antes mesmo da compra do enxoval.
Com o pai e a mãe desempregados, sua inusitada chegada ao mundo chamou a
atenção de toda a Bahia para as necessidades da família que mora em Castelo
Branco. “O pai dela já está desempregado há mais de sete meses, e eu pedi
demissão quando estava com 2 meses de gravidez”, conta Rosélia.
Algumas propostas de emprego já estão chegando para Daltro Silva
Conceição Filho, que costuma trabalhar como auxiliar de cozinha. Já a mãe, que
trabalha desde os 13 anos, diz que sonha com a primeira assinatura da carteira
de trabalho, mas que por enquanto vai se dedicar integralmente a menina.
Generosidade
O caso da criança que nasceu com apenas 622 gramas também despertou a
generosidade em muitos soteropolitanos. Doações de fraldas, itens de conforto
para o bebê, peças de enxoval e até de um berço, já chegam à maternidade.
A mobilização teve início na própria maternidade, através de funcionários que
presentearam mãe e filha com alguns itens necessários para o bebê.
Ao lado da mãe, a gerente de RH Joana Dias Coelho, a administradora
Juliana Oliveira foi uma das doadoras que aproveitaram para visitar a criança
vitoriosa. “Eu estava em casa passando as roupinhas do meu bebê de oito meses
quando vi a reportagem sobre o caso de Bianca. Na mesma hora eu parei o que estava
fazendo e reuni tudo o eu tinha sobrado do meu filho para trazer pra ela”,
conta emocionada.
Quem assim como Juliana quiser fazer alguma doação, basta entrar em
contato com o Iperba, através dos números 3116-5188. Feliz e gratificada com a
generosidade do povo soteropolitano, a mãe de Bianca também se emocionou,
quando começou a receber a ajuda dos soteropolitanos. “Não esperava tanta
generosidade das pessoas”, concluiu.

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