Conto por Thiago de Mello
Ilustrado
por Ciça Fitipaldi
Passamos o dia em Ponta Alegre, aldeia dos índios Maués, banhada pelo
rio Andirá. Muito
aprendi com o jovem tuchaua, conhecedor de ervas mágicas e amigo das estrelas. Ao entardecer, saímos de canoa com motor de popa, ao rumo da Freguesia, pequenina comunidade no coração da floresta. Era tempo de cheia. Soprava de leve o vento geral. Éramos quatro a bordo. Viajávamos rente à margem abarrancada, já na metade do percurso, quando, de repente, o temporal desabou.
aprendi com o jovem tuchaua, conhecedor de ervas mágicas e amigo das estrelas. Ao entardecer, saímos de canoa com motor de popa, ao rumo da Freguesia, pequenina comunidade no coração da floresta. Era tempo de cheia. Soprava de leve o vento geral. Éramos quatro a bordo. Viajávamos rente à margem abarrancada, já na metade do percurso, quando, de repente, o temporal desabou.
"Este vai ser dos medonhos", disse sereno, lá na popa, onde
manejava o motor, Morón, um índio meu amigo. Junto a ele, no chão da canoa, o
seu filho menino, todo encolhido de frio. Lembro-me de que, antes de escurecer
totalmente, do banco da frente onde eu viajava, virei-me e vi o brilho intenso
dos seus olhos enormes. Era o pavor. Na proa, sem camisa, o
cabloco Jari, morador da Freguesia.
cabloco Jari, morador da Freguesia.
Enfrentamos o temporal em silêncio, solidários. A correnteza crescia, a
canoa se balançava na alta crista das ondas, depois se despencava com fragor. A
chuva nos vergastava por todos os lados. Houve um momento em que não vimos mais
nada. Repetidas vezes a proa tocava num tronco. O baque surdo, a canoa parecia
que ia virar. Morón inclinava o motor para a frente, de jeito que a hélice
ficasse fora da água.
Só os relâmpagos nos ajudavam, cortando o céu de um lado a outro: a luz
fugaz nos mostrava um tronco enorme, um pedaço de árvore ainda com ramos
frescos, já quase em cima de nós. O índio, ágil e calado, desviava a canoa num
golpe de leme. A escuridão era tanta que eu sequer enxergava a minha mão aberta
a centímetros do meu rosto. Mesmo assim, em alguns instantes, tive a certeza de
que o piloto conseguia distinguir, dentro da treva espessa, alguma coisa das
águas e das margens. Um filho da floresta.
A tempestade cessou pouco antes de chegarmos à Freguesia. E duas coisas
aconteceram que eu preciso contar. A primeira é que, de repente, demos com
várias canoas vindo em nossa direção. Eram homens e mulheres daquele pedaço
verde do mundo, certos de que deveríamos chegar no começo da noite e nossa
tardança já era tanta, nos sabiam surpreendidos pelo temporal e decidiram ir ao
nosso encontro, para nos salvar. Quando nos viram, foi um imenso e prolongado
grito de alegria, saído de todas as bocas.
Do coração solidário. A segunda coisa é que depois do temporal o céu
acendeu as suas estrelas, perdão, todas as suas estrelas, que brilhavam
enormes, pairando soltas no campo da noite.
FONTE: SITE Nova Escola

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