segunda-feira, 22 de julho de 2013

RACHEL DE QUEIROZ



Nascimento 17 de novembro de 1910 Fortaleza

Morte 4 de novembro de 2003 Rio de Janeiros

Nacionalidade

Ocupação












Rachel de Queiroz (Fortaleza17 de novembro de 1910 — Rio de Janeiro4 de novembro de 2003) foi uma tradutora, romancista, escritorajornalista, cronista prolífica e importante dramaturga brasileira.1
Autora de destaque na ficção social nordestina. Foi primeira mulher a ingressar na Academia Brasileira de Letras. Em 1993, foi a primeira mulher galardoada com o Prêmio Camões,2 equivalente ao Nobel, na língua portuguesa. Ingressou na Academia Cearense de Letras no dia 15 de agosto de 1994 na ocasião do centenário da instituição.
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Biografia

Rachel de Queiroz com os amigos Adonias Filho (esquerda), eGilberto Freyre (direita).
Rachel era filha de Daniel de Queiroz Lima e Clotilde Franklin de Queiroz, descendente pelo lado materno da família deJosé de Alencar.
Em 1917, após uma grande seca, muda-se com seus pais para o Rio de Janeiro e logo depois para Belém do Pará. Retornou para Fortaleza dois anos depois.
Em 1925 concluiu o curso normal no Colégio da Imaculada Conceição. Estreou na imprensa no jornal O Ceará, escrevendocrônicas e poemas de caráter modernista sob o pseudônimo de Rita de Queluz. No mesmo ano lançou em forma defolhetim o primeiro romance, História de um Nome.
Aos vinte anos, ficou nacionalmente conhecida ao publicar O Quinze (1930), romance que mostra a luta do povo nordestino contra a seca e a miséria. Demonstrando preocupação com questões sociais e hábil na análise psicológica de seus personagens, destaca‐se no desenvolvimento do romance nordestino.
Começa a se interessar em política social em 1928-1929 ao ingressar no que restava do Bloco Operário Camponês em Fortaleza, formando o primeiro núcleo do Partido Comunista Brasileiro. Em 1933, começa a dissentir da direção e se aproxima de Lívio Xavier e de seu grupo em São Paulo, lá indo morar até 1934. Milita então com Aristides Lobo,2 Plínio MelloMário Pedrosa, Lívio Xavier, se filiando ao sindicato dos professores de ensino livre, controlado naquele tempo pelos trotskistas.
Depois, viaja para o norte em 1934, lá permanecendo até 1939. Já escritora consagrada, muda-se para o Rio de Janeiro. No mesmo ano foi agraciada com o Prêmio Felipe d'Oliveira pelo livro As Três Marias. Escreveu ainda João Miguel (1932), Caminhos de Pedras (1937) e O Galo de Ouro (1950).
Foi presa em 1937, em Fortaleza, acusada de ser comunista. Exemplares de seus romances foram queimados. Em 1964, apoiou a ditadura militar que se instalou no Brasil. Integrou o Conselho Federal de Cultura e o diretório nacional da ARENA, partido político de sustentação do regime.
Lançou Dôra, Doralina em 1975, e depois Memorial de Maria Moura (1992), saga de uma cangaceira nordestina adaptada para a televisão em 1994 numa minissérie apresentada pela Rede Globo. Exibida entre maio e junho de 1994 no Brasil, foi apresentada em AngolaBolíviaCanadáGuatemalaIndonésiaNicaráguaPanamáPeruPorto RicoPortugalRepública DominicanaUruguai e Venezuela, sendo lançada em DVD em 2004.
Publicou um volume de memórias em 1998. Transforma a sua "Fazenda Não Me Deixes", propriedade localizada em Quixadá, estado do Ceará, em reserva particular do patrimônio natural. Morreu em 4 de novembro de 2003, vítima de problemas cardíacos, no seu apartamento no Rio de Janeiro, dias antes de completar 93 anos.
Durante trinta anos escreveu crônicas para a revista semanal O Cruzeiro e com o fim desta para o jornal O Estado de S.Paulo.
Academia Brasileira de Letras
Concorreu contra o jurista Pontes de Miranda para a vaga de Cândido Mota Filho da cadeira 5 da Academia Brasileira de Letras. Venceu o pleito ocorrido em 4 de agosto de 1977 por 23 votos, contra 15 dados ao opositor e um em branco. Foi empossada em 4 de novembro de 1977.6 Recebida por Adonias Filho, foi a quinta ocupante da cadeira 5, que tem como patrono Bernardo Guimarães.
FONTE: WIKIPÉDIA

Crônica de RACHEL DE QUEIROZ

Fonte: ACADÊMIA BRASILEIRA DE LETRAS

DIVERSIDADES EM TEMPO DE SECA


Quando Chico Bento, depois daquela noite passada ali, no abandono da estrada, chamou a mulher e, ajudando a levantar um dos meninos, foi andando em procura do povoado, em vão buscou, pelas voltas do caminho, sentando nalguma pedra, o vulto de Pedro.
Na estrada limpa e seca só se via um homem com uma trouxinha no cacete, e mais à frente, dentro de uma nuvem de poeira um cavaleiro galopando.
- Que besteira! Naturalmente ele já está no Acarape...
Mas chegaram ao Acarape, e debalde perguntaram pelo menino a todo o mundo. Não... Ninguém tinha visto... Sabia lá!... A toda hora estava passando retirante...
Numa bodega, onde o vaqueiro novamente fez indagações alguém lembrou:
- Homem, por que você não vai falar ao delegado? Ele é que pode dar jeito. Mora ali, naquela casa de alpendre.
No modo que agora era o seu, curvado, quase trôpego, Chico Bento endireitou para a casa apontada, que ficava meio apartada das outras, tendo de um lado um alpendre onde se viam algumas cangalhas de palha roída.
E bateu à porta, enquanto Cordulina se sentava no chão, na beirada do alpendre.
Lá de dentro, uma voz de mulher disse baixinho:
- Abre não, menina, é retirante... É melhor fingir que não ouve...
Chico Bento escutou; e sua voz lenta explicou, dolorida:
- Não vim pedir esmola, dona; eu careço é de ver o delegado daqui...
Um homem de cachimbo no queixo mostrou a cara na meia porta:
- Está falando com ele. O que é?
Chico Bento ficou um instante encarnando o homem, reconhecendo-o.
Mas o delegado, impaciente, repetiu a pergunta:
- O que é que você queria?
- Eu vim falar ao senhor mode um filho meu, que desde ontem tomou sumiço. Nós ficamos na estrada, eu assim, variando muito fraco... e ele veio vindo até aqui. Quando de manhã cacei o menino, não teve quem desse notícia.
É como é ele?
- Assim comprido, magrinho, a cara chupada... está dentro dos doze anos...
O delegado tirou o cachimbo da boca e, calcando com o dedo o tabaco, abanou a cabeça:
- Não tenho jeito que dar não, meu amigo... O menino, naturalmente, foi-se embora com alguém... Um rapazinho, assim sozinho, muita gente quer.
Cordulina ouvia confusamente o que diziam, e chorava, baixinho. Desanimado, Chico Bento sentou-se na mesma beirada de tijolo, junto à mulher.
Ainda na porta, o delegado entrou a fitar o caboclo com insistência, reconhecendo também aquela cara, o jeito de ombros, a fala.
E perguntou:
- Donde você é?
A voz cansada soou fracamente:
- Eu sou filho natural de Iguatu, mas faz muito tempo que morava pras bandas do Quixadá.
O homem procurou arejar a memória:
- Nas terras de Dona Maroca?
- Inhor sim, nas Aroeiras...
O delegado abriu a porta e saiu para o alpendre:
- Bem que eu estava conhecendo! É o meu compadre Chico Bento!
Chico Bento pôs-se em pé:
- Inhor sim... Eu também, assim que olhei pra vosmecê, disse logo comigo: este só pode ser o compadre Luís Bezerra... Mas pensei que não se lembrava mais de mim...
O delegado convidou:
- Entre, compadre! Essa é a comadre? Adeus, comadre, entre também! Cadê meu afilhado? Será esse que fugiu?
Cordulina entrava, puxando por um dos meninos, e respondeu:
- Inhor não... O seu afilhado era o Josias, morreu na viagem...
O homem chamou a mulher:
- Eh! Doninha! venha falar com uns conhecidos! Entre, compadre, ela está na cozinha. Vá entrando!
Depois, ficando só com Chico Bento, atentou na miséria esquelética e esfarrapada do retirante:
- Então, compadre, que foi isso? A velha largou você?
- Ela não quis tratar do gado mode a seca, e mandou abrir as porteiras... E eu fiquei sem ter o que fazer. A morrer de fome, antes andando...
O delegado quase deixou cair o cachimbo, num assombro:
- Não diga isso, compadre, não é possível! Deixar morrer aquele algodão todinho, sem mais pra quê!
- Pois mandou soltar no dia de São José! Eu ainda esperei obra duma semana...
O delegado se exaltou, gesticulando com o cachimbo:
- Aquela velha é uma desgraça! Tenho fé em Deus que o dinheiro que ela poupa ainda há de lhe servir pra comer em cima duma cama... Você não se lembra por que foi que eu saí das Aroeiras, compadre? Me convidou para abrir uma bodega, que me daria mundos e fundos, garantia de um tudo. Gastei o que tinha e o que não tinha em mercadoria, e o resultado foi aquele... Era obrigado a fornecer a ela pelo custo, tinha de fazer isso, fazer aquilo, e ela não me dava interesse de qualidade nenhuma. Um dia mandei tudo pro diabo, liquidei como pude o que possuía, e me larguei pra cá. Inda hoje não me arrependi... Mas você ficou, foi-se fiar nesse negócio de madrinha Maroca, teve o pago...
Chico Bento baixou a cabeça, concordando; olhou em redor, a casa caiada, a mesa envernizada, uma arca de couro, um relógio de parede:
- É, compadre, você está bem...
Lá de dentro a voz de Doninha chamou o marido:
- Luís, traz o compadre aqui, pra botar qualquer coisa no estômago!
Quando viu Chico Bento abancado, comendo, o delegado saiu da sala:
- Vou mandar dois cabras atrás de seu menino. Não mando praça, porque só tem lá na Redenção. Aqui no Acarape, só requisitando.
Do alpendre, mandou um moleque com um recado, e os dois cabras chegaram:
- Vocês vão ver se encontram um menino, filho de retirante, que atende por Pedro. Sumiu-se esta noite. Vejam lá se dão um jeito de achar. O pai anda em tempo de correr doido e é meu compadre!
Depois foi à cozinha, consolou Cordulina:
- Sossegue comadre, já mandei caçar seu filho. Se estiver por cima do chão, se acha...
Mas os cabras voltaram ao meio-dia sem o menino.
Um deles não conseguira apurar nada. O outro contou que o menino tinha sido visto na véspera de noite, num rancho de comboieiros de cachaça.
- Naturalmente tinha ido embora mais eles, de madrugada...
Cordulina já quase nem chorava.
Talvez fosse até para a felicidade do menino. Onde poderia estar em maior desgraça do que ficando com o pai?
Nesse mesmo dia, à tarde, tomaram o trem para a cidade.
Alma boa, o compadre Luís Bezerra! Tinha arranjado passagens, dera uma roupa sua ao Chico Bento, tinha feito a Doninha arranjar um vestido velho para Cordulina...
E agora, sentados, juntos, apertados, os três meninos que restavam muito agarrados a eles, abrindo os olhos de espanto à confusão de gente que se aglomerava no carro sujo, cuspido, fumacento - com as roupas brancas lavadas contrastando esquisitamente com a espessa sujeira dos corpos - Cordulina e o marido sentiram o trem apitar e sair correndo, e viram sumir a casa branca com o alpendre do lado, onde o compadre Luís Bezerra, em pé, de mãos nos bolsos, fumava o seu cachimbo.
No mesmo atordoamento chegaram à Estação do Matadouro.
E sem saber como, acharam-se empolgados pela onda que descia, e se viram levados através da praça de areia, e andaram por um calçamento pedregoso, e foram jogados a um curral de arame onde uma infinidade de gente se mexia, falando, gritando, acendendo fogo.
Só aos poucos se repuseram e se foram orientando.
Cordulina acomodou-se como pôde, ao lado do cajueiro onde tinham parado.
Da banda de lá, um velho deitado no chão roncava, e uma mulher de saia e camisa remexia as brasas debaixo de uma panela de barro.
Cordulina foi à sua trouxa, e tirou de dentro um resto de farinha e um quarto de rapadura, última lembrança da comadre Doninha.
Deitado na areia, calçado com um pano, já o Duquinha dormia. Os outros dois metiam a mão na farinha engolindo punhados.
Chico Bento olhava a multidão que formigava ao seu redor.
Na escuridão da noite que se fechava, só se viam vultos confusos ou alguma cara vermelha e reluzente, junto a um fogo.
Tudo aquilo palpitava de vida, e falava, e zunia em gritos agudos de menino, e estralejava em gargalhadas e em gemidos, e até em cantigas.
E estendendo a vista até muito longe, até aos limites do Campo de Concentração, onde os fogos luziam mais espalhados, o vaqueiro sacudiu na boca uma mancheia de farinha que lhe oferecia a mulher e, procurando quebrar entre os dedos um canto de rapadura, murmurou de certo modo consolado:
- Posso muito bem morrer aqui; mas pelo menos não morro sozinho...

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