terça-feira, 6 de agosto de 2013

O MAGO LULU


Por Conrado Matos – Psicanalista e Colunista do Jornal Tribuna da Bahia.
Artigo publicado no Jornal Tribuna da Bahia, Sexta-Feira, 02.08.2013.

Numa cabana, nos arredores de uma montanha, morava um Mago, um sábio chamado de Lulu. Era um sujeito de aspecto físico com um tanto de corpulência robusta, de altura mediana, com um colar no pescoço, portando uma estrela de cinco pontas, um pêndulo nas mãos e uma águia tatuada no ombro esquerdo. Além de usar, um par de botas pretas de borracha nos pés, vestindo uma bermuda até os joelhos e uma camiseta, parecendo com um desses trabalhadores que trabalham no campo, ou com serviço de esgoto e hidráulico,
de qualquer dessas companhias públicas. Sua barba crespa e rala cobria pequenas partes do rosto. Sua cabeça raspada a zero, brilhava sob a luz do sol, além de feição jovial e sorriso ingênuo, tinha Lulu, uma personalidade introvertida, e pensava como um desses gurus que despertam por profundas intuições. Mas não perdia de vista seu lado extrovertido, era muito risonho, fazia discursos atraentes e abraçava as pessoas.
Quanto a sua vida natural, Lulu era alimentado de raízes, frutos e mel. Meditava todos os dias, era um expressivo admirador das plantas e das flores silvestres. A sua subjetividade despertava para uma estreita relação para com a natureza e o homem. Lulu era, acima de tudo, inspirado pelas coisas naturais e apaixonado pelo seu Ser íntimo. Lulu amava os humildes, os trabalhadores rurais e os desassistidos, e sempre que podia participava de movimentos sindicais.
A fama de Lulu, de um homem que lutava pelas causas sociais, se espalhara, e foi crescendo por toda redondeza por onde vivia. Era procurado por várias pessoas em seu Templo, na montanha, para esclarecer dúvidas e mistérios. Sendo assim, Lulu dava respostas rápidas para o alívio interior dos fracos. Todos que procuravam Lulu queriam se tranquilizar com suas doces palavras e aconselhamento.
Diversas pessoas da região procuravam por Lulu, curiosamente, para saberem em que dia da semana cairia o aniversário e, matematicamente ou mentalmente, Lulu contava de 1 até 3, calculando com muita precisão, de acordo com a data do nascimento do consultante. E, exato nas respostas, Lulu fazia com que as pessoas acreditassem em suas previsões. Lulu respondia com tanta segurança, que deixava as pessoas pasmadas com sua capacidade de adivinhar o dia do mês que seria o aniversário de qualquer pessoa, muito antes de chegar à data e, ainda, Lulu dizia para o consultante, se o dia seria “bom”, tipo uma sexta-feira, um sábado ou um domingo. Ou se seria um dia ruim, tipo uma segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, ou quinta-feira. Para Lulu, os dias melhores seriam os de finais de semana. Era incrível! Lulu não falhava. As pessoas gostavam de se consultar com o Mago Lulu. Lulu dava para ser um consultor de eventos, ou talvez um astrólogo.
Certa feita, numa noite de uma sexta-feira chuvosa, Lulu apareceu em um bar que costumava frequentar, usando um par de alpercatas de couro nos pés, pois suas botas de borracha teriam sido roubadas pelos vândalos e, entre os clientes sentados ao ar livre, fez como de costume as suas pregações, recebendo imensos aplausos. Só que, nesse dia as previsões de Lulu falharam. Não prevendo a chegada de policiais para uma dessas blitz costumeira. Ainda bem que não se tratava de protestos de caras pintadas, porque a coisa não seria boa. O bicho ia pegar. Além do mais, Lulu não é nenhum Papa, para agregar tanta multidão. Sendo assim, não haveria lugar para protestos.
Os policiais deram voz só para os homens, e pediram para que todos ficassem em pé, com as mãos sobre a cabeça. Um danado de um matuto, chamado de Vicente, metido a esperto e tirado a bonitão, se achando incompreendido com o que via, se encolheu todo e, sentado permaneceu. Torceu o pescoço para um lado como uma lagartixa, e com o braço por traz da nuca leva a boca, o copo de cerveja que estava tomando, permanecendo disfarçado, imóvel, feito uma estátua, no formato de um caracol, para não chamar atenção dos policiais. No entanto, “Calado”, um sujeito tímido e introvertido, mas com um olhar afiado de águia certeira, é o primeiro a ficar de pé. Nisso, os policiais vão revistando Lulu e os demais clientes do bar.
Realmente, as pessoas ficam espantadas com essas coisas. Mas é preciso para manter a segurança, que anda cada vez pior em nosso país, além do sistema de saúde e educação que estão a ver navios. Com essa, Lulu não esperava.
Depois de realizada a blitz, os policiais agradeceram a colaboração de todos, deram boa noite, e foram embora. Lulu continua com seu discurso profético.
O Mago Lulu, um desses raros personagens que vivia na montanha, era exaltado por todos que se consultavam em seu Templo mágico e, agradecidos e satisfeitos com as graças alcançadas, anestesiados pelo ópio dos altares, saiam hipnotizados pelo poder da varinha mágica de Lulu. Para os carentes, Lulu não deixava de ser um “deus” de todos os tempos.
Um dia tomei conhecimento de que Lulu teria se mudado da montanha para a cidade, onde logo funda um novo Templo, como o nome, “A fé que edifica”. Nisso, Lulu foi aumentando o número de Templos, além de muitos seguidores. Agora, pelo o que se sabe, Lulu já pensa em ser político, e deve se candidatar nas próximas eleições. Dessa, Lulu não escapa! 

Conrado Matos e Psicanalista. Diretor cultural da Associação Lítero-Musical Amigos do Escritor Xavier Marques.
E-mail: psicanaliseconrado@hotmail.com – Tels: (071) 8717-3210/9910-6845.




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