Por Conrado Matos – Psicanalista e
Colunista do Jornal Tribuna da Bahia.
Artigo publicado no Jornal Tribuna da
Bahia, Sexta-Feira, 02.08.2013.
Numa cabana, nos arredores de uma
montanha, morava um Mago, um sábio chamado de Lulu. Era um sujeito de aspecto
físico com um tanto de corpulência robusta, de altura mediana, com um colar no
pescoço, portando uma estrela de cinco pontas, um pêndulo nas mãos e uma águia
tatuada no ombro esquerdo. Além de usar, um par de botas pretas de borracha nos
pés, vestindo uma bermuda até os joelhos e uma camiseta, parecendo com um
desses trabalhadores que trabalham no campo, ou com serviço de esgoto e
hidráulico,
de qualquer dessas companhias públicas. Sua barba crespa e rala
cobria pequenas partes do rosto. Sua cabeça raspada a zero, brilhava sob a luz
do sol, além de feição jovial e sorriso ingênuo, tinha Lulu, uma personalidade
introvertida, e pensava como um desses gurus que despertam por profundas
intuições. Mas não perdia de vista seu lado extrovertido, era muito risonho,
fazia discursos atraentes e abraçava as pessoas.
Quanto a sua vida natural, Lulu era
alimentado de raízes, frutos e mel. Meditava todos os dias, era um expressivo
admirador das plantas e das flores silvestres. A sua subjetividade despertava
para uma estreita relação para com a natureza e o homem. Lulu era, acima de
tudo, inspirado pelas coisas naturais e apaixonado pelo seu Ser íntimo. Lulu
amava os humildes, os trabalhadores rurais e os desassistidos, e sempre que
podia participava de movimentos sindicais.
A fama de Lulu, de um homem que lutava
pelas causas sociais, se espalhara, e foi crescendo por toda redondeza por onde
vivia. Era procurado por várias pessoas em seu Templo, na montanha, para
esclarecer dúvidas e mistérios. Sendo assim, Lulu dava respostas rápidas para o
alívio interior dos fracos. Todos que procuravam Lulu queriam se tranquilizar
com suas doces palavras e aconselhamento.
Diversas pessoas da região procuravam
por Lulu, curiosamente, para saberem em que dia da semana cairia o aniversário
e, matematicamente ou mentalmente, Lulu contava de 1 até 3, calculando com
muita precisão, de acordo com a data do nascimento do consultante. E, exato nas
respostas, Lulu fazia com que as pessoas acreditassem em suas previsões. Lulu
respondia com tanta segurança, que deixava as pessoas pasmadas com sua
capacidade de adivinhar o dia do mês que seria o aniversário de qualquer
pessoa, muito antes de chegar à data e, ainda, Lulu dizia para o consultante,
se o dia seria “bom”, tipo uma sexta-feira, um sábado ou um domingo. Ou se
seria um dia ruim, tipo uma segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, ou
quinta-feira. Para Lulu, os dias melhores seriam os de finais de semana. Era
incrível! Lulu não falhava. As pessoas gostavam de se consultar com o Mago
Lulu. Lulu dava para ser um consultor de eventos, ou talvez um astrólogo.
Certa feita, numa noite de uma
sexta-feira chuvosa, Lulu apareceu em um bar que costumava frequentar, usando
um par de alpercatas de couro nos pés, pois suas botas de borracha teriam sido
roubadas pelos vândalos e, entre os clientes sentados ao ar livre, fez como de
costume as suas pregações, recebendo imensos aplausos. Só que, nesse dia as
previsões de Lulu falharam. Não prevendo a chegada de policiais para uma dessas
blitz costumeira. Ainda bem que não se tratava de protestos de caras pintadas,
porque a coisa não seria boa. O bicho ia pegar. Além do mais, Lulu não é nenhum
Papa, para agregar tanta multidão. Sendo assim, não haveria lugar para
protestos.
Os policiais deram voz só para os
homens, e pediram para que todos ficassem em pé, com as mãos sobre a cabeça. Um
danado de um matuto, chamado de Vicente, metido a esperto e tirado a bonitão,
se achando incompreendido com o que via, se encolheu todo e, sentado
permaneceu. Torceu o pescoço para um lado como uma lagartixa, e com o braço por
traz da nuca leva a boca, o copo de cerveja que estava tomando, permanecendo
disfarçado, imóvel, feito uma estátua, no formato de um caracol, para não
chamar atenção dos policiais. No entanto, “Calado”, um sujeito tímido e
introvertido, mas com um olhar afiado de águia certeira, é o primeiro a ficar
de pé. Nisso, os policiais vão revistando Lulu e os demais clientes do bar.
Realmente, as pessoas ficam espantadas
com essas coisas. Mas é preciso para manter a segurança, que anda cada vez pior
em nosso país, além do sistema de saúde e educação que estão a ver navios. Com
essa, Lulu não esperava.
Depois de realizada a blitz, os
policiais agradeceram a colaboração de todos, deram boa noite, e foram embora.
Lulu continua com seu discurso profético.
O Mago Lulu, um desses raros
personagens que vivia na montanha, era exaltado por todos que se consultavam em
seu Templo mágico e, agradecidos e satisfeitos com as graças alcançadas,
anestesiados pelo ópio dos altares, saiam hipnotizados pelo poder da varinha
mágica de Lulu. Para os carentes, Lulu não deixava de ser um “deus” de todos os
tempos.
Um dia tomei conhecimento de que Lulu
teria se mudado da montanha para a cidade, onde logo funda um novo Templo, como
o nome, “A fé que edifica”. Nisso, Lulu foi aumentando o número de Templos,
além de muitos seguidores. Agora, pelo o que se sabe, Lulu já pensa em ser
político, e deve se candidatar nas próximas eleições. Dessa, Lulu não escapa!
Conrado Matos e Psicanalista. Diretor cultural da Associação
Lítero-Musical Amigos do Escritor Xavier Marques.
E-mail: psicanaliseconrado@hotmail.com – Tels: (071) 8717-3210/9910-6845.

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