VIGÊNCIA DA NOITE
A Guido Guerra, in memmoriam
Como um pássaro que passeia devagar na
estiva
de um porto qualquer, olhos baços,
mente esquiva,
divago na sala, mirando as estrelas da
noite que passa.
Para ser um filósofo, em grave
silêncio, me falta massa,
temas eternos, mente febril,
serenidade no olhar,
imunidade a relógios e o grave prazer
de pensar;
me exprimo com o nada, atento aos
estertores da vida,
neste espaço que me serve de
confortável guarida,
para pensar em mim mesmo, amealhar
meus ciclones,
ruídos da alma, como quem reaviva um
cemitério de clones.
Como quem mira estrelas cadentes, na
noite sossegada,
me estiro no sofá, respiro e realinho
as curvas da estrada,
mais próximo de mim, inumeral,
distante do mundo,
sem ser nenhum gênio, mago, de
pensamento profundo.
Com um livro na mão, revista ou
jornal, um copo de vinho,
converso comigo, meus dias e noites,
com saudades de mim.
Ou com o que me resta de sustos,
recompondo os cristais,
que a vida quebrou, o vento levou e,
no entanto, quer mais.
E com tantos sentimentos vivos que me
correm na veia,
na noite diversa, como um grão que se
desprende da areia,
medito estendido no sofá desta sala
como sempre agradável,
sempre calma, sem calor de emoções,
sem tempo instável.
Enquanto a amada que vigia meus sonos
dorme no quarto,
ouço na caixa de som alguém a dizer-se
de sonhos farto;
eu próprio, em meu canto, me alimento
de perdas também,
por minhas estivas mentais aguardo a
madrugada que vem.
O vento lá fora rebenta vidraças, em
plena alvorada;
cá dentro divago, espio a noite. Não
espero mais nada.
Salvador, junho de 2006
ESTAÇÃO DE CAÇA
(...) por exemplo: “A noite está estrelada,
e
tiritam, azuis, os astros ao longe”.
Pablo
Neruda
De longe brasa, mas de perto gelo;
Rumor de água ao passar, ouro o
cabelo.
De mármore, estatura de colosso,
A beleza do corpo; o rosto moço
Lima e esculpe espírito e inteligência.
No olhar esquivo, um vórtice, uma
ciência.
De alma em fuga, as duas pernas da
aurora
Rompem com passo rijo o afã do agora:
Cenário de ânsias e melancolias,
Ruído que é de augúrio, fatos e dias
- o seu instante, na caverna lúcida.
Sol de galáxia me transfere luz, se da
Esguia taça de âmbar salpicada
De ardências me confunde e impõe-se
fada
Arisca: rastro ágil de corça em relva,
Ou felino tropel rompendo selva.
Sobrevindo o fragor, estruge e planta
No imo do coração lodo de pântano.
Silencioso terror repele e ensombra
O que fora esperança, agora sombra,
Em rota de naufrágio. Apalpo o escuro
No mar de seus olhos, onde procuro,
Perscruto acenos, véspera do abismo.
Venço o risco, respiro atalhos, cismo.
Logo estancas, como água de remanso.
Longe dos cactos, eu também me canso.
Franqueada a noite para céu risonho,
Escancaro as janelas de meu sonho:
Qual colibri que sorve a flor num
beijo,
Desfolho-te, mulher, enquanto arquejo.
SSA, 13/01/2007
BANHADAS DE LÁGRIMA ESTÃO AS PEDRAS
Ver a força do dia romper, vibrando
Entre um crepúsculo e o outro
crepúsculo,
Ver surgir da terra um ranger de
músculo;
Nada tenho a dizer, estou chorando.
O dia amanhece, quando amanheço,
Estático, no espaço da varanda.
Preso a formas e cores, não esqueço
A mão universal que isso comanda.
Afasto da mente a mediocridade
Que navega de um polo a outro do dia.
Cá me defronto com outra realidade,
Não tenho hora para a melancolia.
Natureza é tudo, me diz Cézanne.
Cá estou para ver, o resto se dane!
SSA/BA, 03 de abril de 2007, 04:30 da
manhã.
NOTA
BIOGRÁFICA: Florisvaldo
Mattos - Nascido em Uruçuca, antiga Água
Preta do Mocambo, no sul do Estado da Bahia, diplomou-se em Direito (1958), mas
optou pelo exercício do jornalismo, integrando inicialmente a equipe fundadora
do “Jornal da Bahia”, como extensão da militância cultural de parcela do grupo
nuclear da Geração Mapa, que atuou na Bahia nos anos 60 sob a liderança do
cineasta Glauber Rocha. Ex-professor da Universidade Federal da Bahia, exerceu
entre 1987-89 a presidência da Fundação Cultural do Estado; escritor e poeta,
desde 1995 ocupa a Cadeira 31, da Academia de Letras da Bahia. Obras
publicadas: “Reverdor”, 1965, “Fábula Civil”, 1975, “A Caligrafia do Soluço
& Poesia Anterior”, 1996, "Mares Anoitecidos", 2000, e "Galope
Amarelo e Outros Poemas, (todos de poesia); “Estação de Prosa & Diversos”,
(coletânea de ensaios, ficção e teatro, 1997); e “A Comunicação Social na
Revolução dos Alfaiates”, 1998 (ensaio). "Travessia de oásis - A
sensualidade na poesia de Sosígenes Costa", ensaio, 2004. Jornalista, após
passar por vários órgãos de comunicação, inclusive na chefia da sucursal do
“Jornal do Brasil” na Bahia, desde 1990, integra a Redação do jornal “A Tarde”,
de Salvador, onde até outubro de 2003 dirigiu o seu caderno “Cultural”
(premiado em 1995 pela Associação Paulista de Críticos de Arte - APCA), sendo
hoje seu editor-chefe. Lançou em 2011,”Poesia Reunida e Inéditos”, pela
Escrituras Editora, de São Paulo, e este ano, em agosto, “Sonetos elementais –
Uma antologia”, pela Caramurê Publicações, de Salvador. Tem em preparo um livro
de ensaio memorialístico sobre boemia literária e mundanismo urbano nos anos 50
e 60. É membro da Academia de Letras da Bahia.
Nenhum comentário:
Postar um comentário