Texto de JOACI GÓES
A reiterada confusão prática que se verifica no Brasil entre democracia
e licenciosidade é o preço que temos a pagar pela experiência do nosso ainda
tenro processo democrático. De qualquer modo, com a exceção do período imperial
de Pedro II, o atual constitui o mais longo hiato democrático de nossa
história, a contar de 1985, com a eleição de Tancredo Neves.
Aos trancos e barrancos, a sociedade avança num clima
de liberdade dissoluta amplificado por uma impunidade que estimula os tipos de
conduta mais torpe, em todas as gradações e níveis, tanto na esfera pública
quanto privada, cabendo a liderança dos malfeitos a figuras de proa do tripé
republicano: Executivo, Legislativo e Judiciário.
Uma das consequências mais lamentáveis desse festival
de besteiras que assola o País reside na crise de autoridade que vivenciamos,
de intensidade e amplitude sem precedentes, resultando numa grotesca confusão
entre liberdade e baderna, não raro operando em conúbio, como tem acontecido
nos recentes movimentos populares em que defensores de causas legítimas se
mesclam com delinquentes travestidos de vândalos, sem que haja registro de
qualquer punição desestimuladora de sua repetição.
A recente tentativa de invasão da sede da Secretaria
de Segurança Pública do Estado da Bahia, por integrantes do MST, é o desfecho
mais do que previsível dessa generalizada crise de autoridade, em que
indivíduos despreparados e irresponsáveis tomam em suas mãos decidir, à
força e segundo seus próprios critérios, questões de alta delicadeza, como é a
relativa à onda de crimes que o próprio MST colabora para ampliar, consoante
suas práticas violentas. Se em plena luz do dia, essa horda que obedece ao
comando de um parlamentar que pertence à base do governo Wagner, dirige-se ao
órgão máximo de nossa segurança pública com foice, facão e porrete para impor
sua vontade, imagine-se o que não são capazes de fazer os seus integrantes na
solidão dos ermos, em que aos proprietários resta escolher entre reagir ou
renunciar à sua fonte de sustento, já que a ação do Judiciário, como tem
ocorrido nesses casos, oscila entre a injustiça e a lentidão extrema.
De positivo e merecedora de todos os aplausos, na
audaciosa tentativa de invasão da sede da SSP, foi a lúcida e corajosa atitude
do subsecretário Ary Pereira, dispersando os baderneiros com um ou mais tiros
de advertência. Não fosse por ele, e é possível que agora estivéssemos a
prantear o massacre de servidores inocentes, hipótese em que, segundo nossa canhestra
legislação penal, os assassinos poderiam se defender no gozo da mais plena
liberdade, enquanto aos familiares nada mais restaria que carpir a morte
inglória de seus entes queridos.
É do mesmo naipe o quadro que se instala em Porto
Seguro, onde falsos índios invadem propriedades particulares e escarnecem dos
mandados judiciais e das tentativas do aparelho policial de desalojá-los.
Do resultado, Bertolt Brecht nos deixou memorável
advertência: Primeiro eles sujaram nosso jardim, e não fizemos nada. Depois,
quebraram nossa vidraça e não reagimos; depois invadiram nossa casa e ainda não
fizemos nada... Por último o holocausto.

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