quarta-feira, 18 de setembro de 2013

DEMOCRACIA E PERMISSIVIDADE

Texto de JOACI GÓES





     A reiterada confusão prática que se verifica no Brasil entre democracia e licenciosidade é o preço que temos a pagar pela experiência do nosso ainda tenro processo democrático. De qualquer modo, com a exceção do período imperial de Pedro II, o atual constitui o mais longo hiato democrático de nossa história, a contar de 1985, com a eleição de Tancredo Neves.

    Aos trancos e barrancos, a sociedade avança num clima de liberdade dissoluta amplificado por uma impunidade que estimula os tipos de conduta mais torpe, em todas as gradações e níveis, tanto na esfera pública quanto privada, cabendo a liderança dos malfeitos a figuras de proa do tripé republicano: Executivo, Legislativo e Judiciário.
    Uma das consequências mais lamentáveis desse festival de besteiras que assola o País reside na crise de autoridade que vivenciamos, de intensidade e amplitude sem precedentes, resultando numa grotesca confusão entre liberdade e baderna, não raro operando em conúbio, como tem acontecido nos recentes movimentos populares em que defensores de causas legítimas se mesclam com delinquentes travestidos de vândalos, sem que haja registro de qualquer punição desestimuladora de sua repetição.
    A recente tentativa de invasão da sede da Secretaria de Segurança Pública do Estado da Bahia, por integrantes do MST, é o desfecho mais do que previsível dessa generalizada crise de autoridade, em que indivíduos despreparados e irresponsáveis  tomam em suas mãos decidir, à força e segundo seus próprios critérios, questões de alta delicadeza, como é a relativa à onda de crimes que o próprio MST colabora para ampliar, consoante suas práticas violentas. Se em plena luz do dia, essa horda que obedece ao comando de um parlamentar que pertence à base do governo Wagner, dirige-se ao órgão máximo de nossa segurança pública com foice, facão e porrete para impor sua vontade, imagine-se o que não são capazes de fazer os seus integrantes na solidão dos ermos, em que aos proprietários resta escolher entre reagir ou renunciar à sua fonte de sustento, já que a ação do Judiciário, como tem ocorrido nesses casos, oscila entre a injustiça e a lentidão extrema.
    De positivo e merecedora de todos os aplausos, na audaciosa tentativa de invasão da sede da SSP, foi a lúcida e corajosa atitude do subsecretário Ary Pereira, dispersando os baderneiros com um ou mais tiros de advertência. Não fosse por ele, e é possível que agora estivéssemos a prantear o massacre de servidores inocentes, hipótese em que, segundo nossa canhestra legislação penal, os assassinos poderiam se defender no gozo da mais plena liberdade, enquanto aos familiares nada mais restaria que carpir a morte inglória de seus entes queridos.
    É do mesmo naipe o quadro que se instala em Porto Seguro, onde falsos índios invadem propriedades particulares e escarnecem dos mandados judiciais e das tentativas do aparelho policial de desalojá-los.
    Do resultado, Bertolt Brecht nos deixou memorável advertência: Primeiro eles sujaram nosso jardim, e não fizemos nada. Depois, quebraram nossa vidraça e não reagimos; depois invadiram nossa casa e ainda não fizemos nada... Por último o holocausto. 


Nenhum comentário:

Postar um comentário