Artigo de Luiz Holanda
O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal
Federal (STF), utilizou um termo bem regional para dizer que o recebimento dos
embargos infringentes, propostos pelos mensaleiros, seria uma forma de se prolongar,
indefinidamente, o já demorado julgamento do processo do mensalão.
Para expressar o seu pensamento, o ministro
utilizou o nome de uma fruta que costuma ser apontada como tipicamente nacional: a
jabuticaba. Essa fruta nasce da jabuticabeira, árvore nativa que demora vinte
anos para frutificar. A expressão deve significar que se os embargos forem
recebidos, o mensalão irá para as calendas.
É bem
possível que Gilmar Mendes tenha percebido que tudo caminha para esse fim. A
tática é negar, primeiramente, os embargos declaratórios, reconhecidos por um
dos advogados dos réus como simplesmente protelatórios. Isso está sendo feito
quase à unanimidade pelo colegiado. Em seguida, com o apoio dos novos ministros
Teori Zavascki e Luiz Roberto Barroso, os ministros petistas - Dias Toffoli e
Ricardo Lewandowski à frente-, formarão maioria para julgar, novamente, o
mensalão.
Esses
ministros são a favor do recebimento dos embargos infringentes. Ao ser
sabatinado no Senado, Zavascki declarou que todos os juízes “devem ser
garantistas”, o que, no conceito popular, significa impunidade.
Já seu
colega Luiz Barroso, amigo de José Dirceu, disse que é no mínimo questionável a
afirmação de que o processo do mensalão tenha sido o maior escândalo político
de nossa história. Para ele, os costumes vigentes no Brasil não se resolvem com
a lei penal, mas sim com uma reforma política nos moldes propostos pela
presidente Dilma. Em outras palavras, a reforma política, segundo o ministro,
seria uma forma de regenerar corrupto no Brasil.
Nunca é
demais lembrar que, pelo sistema adotado no país, Barroso, Zavascki e os demais
ministros, querendo ou não, assinaram as
promissórias de suas nomeações, que em algum momento deverão ser resgatadas. E
mesmo que as escolhas sejam feitas pela capacidade ou pela cor, faz-se
necessário forte apoio político.
Esse sistema serve também para as nomeações de
seus filhos e
parentes. Agora mesmo a imprensa nos brinda com a afirmação de que os ministros
Marco Aurélio Mello e Luiz Fux pretendem nomear suas filhas para o cargo de
desembargadora dos tribunais regional e federal do Rio de Janeiro. No
julgamento do RE 603583, em 2011, o ministro Marco Aurélio teria dito que, ao
procurar o curso de direito, o bacharel procura o certificado de pedigree. Se
verdadeiro esse requisito, sua filha tem.
A outra candidata, filha do
ministro Fux, parece não ter muita experiência como advogada. Mesmo assim, deverá
ser nomeada, apesar de seu pai ter sido acusado pelo ex-ministro José Dirceu de
tê-lo assediado por quase seis meses para ser indicado para o STF. E mais: que
“Ele tomou a iniciativa de dizer que ia me absolver”. Isso foi dito numa
entrevista a Mônica Bergamo e Fernando Rodrigues.
O processo
do mensalão caminha para o desfecho previsto, ou seja, de que ninguém será
punido. O ministro Gilmar Mendes parece corroborar com essa certeza. Os
embargos infringentes serão recebidos como uma jabuticaba para os mensaleiros.
O processo vai durar mais vinte anos. Mesmo assim, a fruta nascerá podre.

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