Série:
Traições históricas
Texto
de Paulo da Silva Neto Sobrinho
“Afaste-se
da boca enganosa e fique longe dos lábios falsos” (Pv 4, 24)
Introdução
É interessante como alguns temas bíblicos não
resistem a uma análise mais profunda. Vários deles, que já
tratamos em outros
textos, nos levam a uma certeza que muitos trechos constantes da Bíblia
trata-se de uma deliberada, mas sutil, montagem para se chegar a um objetivo
previamente traçado. Daí, muitos textos foram amoldados a esse objetivo,
passando por cima da verdade histórica que deveria conter tais escritos.
Muitas pessoas se chocam com atitudes como essa, a
de uma análise crítica. Entretanto, não abrimos mão de fazer uso da
inteligência com a qual nos dotou o Criador. Nós seres humanos racionais, que
efetivamente somos, temos que usar esse dom, pois, não usá-la é abdicar da
única capacidade que nos difere dos animais, por isso, acreditamos que só ofendemos
a Deus, quando não utilizamos a nossa inteligência plenamente.
Reconhecemos, entretanto, ser muito difícil a
inúmeras pessoas, principalmente as que não pesquisam, abandonar conhecimentos
adquiridos, especialmente quando foram passados como verdades divinas sob
coação ideológica. Ou seja, o simples questionamento da veracidade das mesmas
já era, por si só, considerado como grave ofensa à divindade. Essa
possibilidade de heresia acaba gerando um bloqueio mental em função do medo do
conseqüente castigo por esse tipo de pecado. Assim, aceitamos sem o mínimo
questionamento o que nos foi imposto como verdade absoluta. Com o tempo,
passamos a defender ideias que nunca analisamos ou criticamos, como se nossas
fossem.
O assunto que iremos tratar, desta vez, está
relacionado a uma suposta traição a Jesus, que teria sido realizada por Judas
Iscariotes, um de seus discípulos. Inclusive, tudo que consta na Bíblia sobre
ele está somente nas passagens que iremos ver a seguir.
Análise
das narrativas
Em Lucas 22,3-6, está escrito que, após satanás ter
entrado em Judas, ele foi procurar os sacerdotes para ver de que maneira
entregaria Jesus. Os sacerdotes ficaram tão satisfeitos com isso que combinaram
em dar-lhe dinheiro, uma vez que eles desejavam, de há muito, eliminar esse
herético. Tal acontecimento se deu, na versão de Lucas, antes da festa dos
Ázimos, evidentemente, antes da ceia de páscoa, cujo prato principal eram os
cordeiros que matavam especificamente para essa finalidade, entretanto, segundo
João, esse fato se deu após a ceia (Jo 13, 26-29), apesar de que, um pouco
antes, ele ter dito: “Enquanto ceavam, tendo já o diabo posto no
coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, que o traísse” (Jo 13,2),
sendo, por conseguinte, omisso sobre qualquer combinação anterior entre Judas e
os sacerdotes. Portanto, podemos verificar que há conflito entre as narrativas.
Quanto à questão dessa combinação com os
sacerdotes, Mateus (26,15) diz que Judas pediu dinheiro para entregar-lhes
Jesus, enquanto que Marcos (14,11) e Lucas (22, 5) afirmam que foram os
sacerdotes é quem tomaram a iniciativa de retribuir ao discípulo, dando-lhe
dinheiro como recompensa pelo seu ato ignominioso. Um bom observador irá
perceber que, pelas suas narrativas, Mateus teve uma evidente preocupação, qual
seja a de relacionar Jesus com as profecias, inclusive, muito mais que os
outros Evangelistas. Daí ser ele o único que diz sobre o quanto Judas teria
recebido, dando como certa a importância de trinta moedas de prata (Mt 26,15;
27,3). Essas passagens que falam disso são relacionadas a Zc 11,12-13, no
pressuposto de que ela seja uma profecia, entretanto, os fatos ali narrados se
referem ao próprio profeta Zacarias, não é, por conseguinte, uma revelação
sobre algo que viesse a ocorrer no futuro.
Ao narrar os acontecimentos durante a ceia, Mateus
relata que Jesus, ao responder aos discípulos sobre quem o iria trair, teria
dito: “Quem vai me trair, é aquele que comigo põe a mão no prato. O
Filho do Homem vai morrer, conforme a Escritura fala a respeito dele..." (Mt
26,23-24). Passagem relacionada ao Sl 41,10, onde Davi reclama sobre um amigo
que o trai. O que nos leva a concluir que tal passagem não é uma profecia,
assim, não poderia estar relacionada a Jesus, como querem os que buscam, nas
Escrituras, apoio para seus dogmas. Davi foi traído por um amigo, seu próprio
conselheiro, de nome Aquitofel, conforme narrativa em 2Sm 15,12.31. O final
trágico da vida desse “amigo da onça” foi enforcar-se (2Sm17,23), por isso,
querem, igualmente, atribuir esse mesmo destino a Judas, como iremos ver mais à
frente.
Outra coisa que nos parece sem nenhum sentido,
principalmente por tudo que Ele fez, é que Jesus tenha realmente se preocupado
em delatar o seu traidor, conforme narra Jo 13,26, quando, para identificar
quem o trairia, diz aos que o acompanhava, naquela ceia, que seria a quem desse
um pão molhado, dito isso, imediatamente, entrega-o a Judas. Talvez a
preocupação aqui seja buscar mais uma forma de relacionar tal episódio a uma
suposta profecia sobre esse acontecimento.
Mateus (26,48) e Marcos (14,44) dizem que Judas
havia combinado com os sacerdotes um sinal – o beijo – para que pudessem
identificar quem era Jesus. Lucas, apesar de não relatar absolutamente nada
sobre esse sinal, diz que Judas aproximando-se de Jesus o saúda com um beijo
(Lc 22,47). Enquanto que João não fala de ter havido uma combinação de sinal,
nem que Jesus teria dito algo a respeito e nem mesmo coloca Judas beijando a
Jesus, já que, para ele, foi o Mestre que se adiantou aos guardas acompanhados de
Judas se identificando a eles como sendo Jesus, o Nazareno, a quem procuravam
(Jo 18,3-5). Fatos novamente conflitantes.
Nenhum outro evangelista, a não ser João, coloca
Judas como sendo aquele que, entre os discípulos, cuidava da “bolsa” (Jo
13,29). Vai mais longe ainda, o acusa de ladrão (12,6). Como uma acusação grave
dessa não foi feita por mais ninguém? Se Judas fosse realmente ladrão, por que
motivo o deixaram tomando conta do dinheiro? Alguém colocaria um ladrão como
seu administrador financeiro? Não seria, evidentemente, para colocar a honra
desse discípulo em jogo, fórmula encontrada para se justificar que, por ser
assim, ele não teria também nenhum escrúpulo em trair o seu próprio Mestre?
Não bastassem os que já encontramos, aparecem-nos
agora mais dois evidentes conflitos.
O primeiro está relacionado à forma pela qual Judas
deu cabo à sua vida, movido, segundo relata Mateus, por profundo remorso.
Estranhamente ele é o único evangelista que fala disso, nenhum outro apresenta
uma linha sequer sobre Judas ter se arrependido. Continuando seu relato Mateus
diz que Judas enforcou-se (27, 5), entretanto em Atos (1,18) está se afirmando
que ele “precipitando-se, caiu prostrado e arrebentou pelo meio, e todas as
suas entranhas se derramaram”, mudando-se, desta maneira, a versão
anterior a respeito de sua morte. Encontramos a seguinte explicação para esse
passo: “Possivelmente a narração da morte de Judas enforcando-se, está
inspirada na história da morte de Aquitofel (cf. 2Sm 17,23)” (Bíblia Sagrada
Santuário, p. 1463). Conforme citamos anteriormente Aquitofel enforcou-se, mas
querer daí, apenas por inspiração, atribuir a Judas uma morte semelhante é
lamentável, pois os fatos bíblicos deveriam relatar fielmente o ocorrido, não
como o autor quer que tenha acontecido, o que nos coloca diante de uma mera
suposição.
O segundo diz respeito ao destino dado às moedas.
Mateus menciona que Judas as teria devolvido, atirando-as dentro do santuário,
que recolhidas pelos sacerdotes foram, por deliberação, destinadas à compra do
campo do oleiro, para servir de cemitério aos estrangeiros (27,3-10). Citando
que isso aconteceu para se cumprir o que dissera o profeta Jeremias. Mas essa
história parece-nos mal contada, pois em Atos se diz que o próprio Judas teria
comprado um campo (At 1,18), que até poderia ser esse do oleiro, mas de
qualquer forma está em conflito com a versão anterior.
Na maioria das Bíblias em que consultamos, dizem
que as profecias relacionadas a Mt 27,9: “Cumpriu-se, então, o que foi
dito pelo profeta Jeremias: Tomaram as trinta moedas de prata,, preço do que
foi avaliado, a quem certos filhos de Israel avaliaram e deram-nas pelo campo
do oleiro, assim como me ordenou o Senhor”, seriam: Zc 11,12-13 e Jr
32,5-16, ou Jr 18,1-4 e 19,1-3, havendo, portanto, sérias dúvidas quanto à
identificação da profecia especifica relacionada ao episódio. Como já falamos
sobre a citação de Zacarias, fica-nos, por conseguinte, apenas as de Jeremias
para dizermos alguma coisa. Em notas explicativas sobre elas encontramos que:
“A citação é uma combinação artificial de Jr 32,6-9 e Zc 11,12-12” (Bíblia do
Peregrino, p. 2386), isso deixa-nos diante da realidade de que, por se admitir
que seja “uma combinação artificial”, estamos, sem dúvida, diante de mais uma
tentativa de se relacionar acontecimentos no Novo Testamento com ocorrências
registradas no Antigo Testamento tidas como se fossem verdadeiras profecias.
Quem tiver a curiosidade de consultar a passagem
citada de Zacarias não encontrará nela nenhum aspecto de profecia, são apenas
fatos relacionados àquele momento vivido por esse profeta. E quanto a Jeremias,
não se encontra absolutamente nada que ele tenha comprado alguma coisa por
trinta moedas. Sobre a compra de um terreno, sim, como podemos ver em 32,1-44,
mas uma situação circunstancial, explicada da seguinte forma:
“À primeira vista se trata de um incidente: a
compra e venda de um terreno segundo as normas e o procedimento da legislação
judaica. O narrador se compraz em registrar todos os detalhes, mostrando que a
lei foi estritamente cumprida e que o ato é juridicamente válido. O
surpreendente dessa compra-e-venda é que se realiza às vésperas da catástrofe
inevitável. Que sentido tem nesse momento comprar um terreno para que fique em
poder da família? Tudo já está perdido. Mas o absurdo do ato é a chave do seu
sentido. Para efeitos legais imediatos, a compra nada servirá; para efeitos
proféticos, é admirável ato de esperança no futuro. É um oráculo em ação,
Jeremias profetiza ao vivo: não só palavras, nem ação simbólica, mas ato real
jurídico. Esse ato significa o futuro que ele antecipa: a jarra de barro onde
se guarda o contrato é um penhor que Deus concede. Apesar do que está para
acontecer, a terra continua sendo propriedade dos judaístas: a terra prometida
aos patriarcas e possuída durante séculos...” (Bíblia do Peregrino, p. 1928).
Podemos ainda confirmar isso com a seguinte
explicação: “A citação [Mt 27,9] é tirada na realidade de Zacarias (11,12-13).
Mas, ele lembra também diversos versículos de Jeremias onde se faz menção do
campo e do oleiro (32,6-6; 18,2-12)”. (Bíblia Ave Maria, p. 1319). Ressaltamos
que a expressão “ela lembra”, é uma afirmativa que depõe contra o próprio texto
que, positivamente, diz ser de Jeremias essa profecia.
Conclusão
Percebemos que as narrativas possuem diversos fatos
conflitantes entre si, deixando-nos na convicção que tudo não passa de um
ajuste dos textos para se chegar a um objetivo pré-determinado, conforme já
falávamos, desde o início. Para se ter uma idéia mais exata sobre isso, colocaremos
a passagem Mateus 27,1-26, que, para tornar a explicação mais fácil de ser
entendida, iremos dividi-la em três partes:
I) 1-2: De manhã cedo, todos os chefes dos
sacerdotes e os anciãos do povo convocaram um conselho contra Jesus, para o
condenarem à morte. Eles o amarraram e o levaram, e o entregaram a Pilatos, o
governador.
II) 3-10: Então Judas, o traidor, ao ver que
Jesus fora condenado, sentiu remorso, e foi devolver as trinta moedas de prata
aos chefes dos sacerdotes e anciãos, dizendo: "Pequei, entregando à morte
sangue inocente". Eles responderam: "E o que temos nós com isso? O
problema é seu". Judas jogou as moedas no santuário, saiu, e foi
enforcar-se. Recolhendo as moedas, os chefes dos sacerdotes disseram: "É
contra a Lei colocá-las no tesouro do Templo, porque é preço de sangue".
Então discutiram em conselho, e as deram em troca pelo Campo do Oleiro, para aí
fazer o cemitério dos estrangeiros. É por isso que esse campo até hoje é
chamado de "Campo de Sangue". Assim se cumpriu o que tinha dito o
profeta Jeremias: "Eles pegaram as trinta moedas de prata - preço com que
os israelitas o avaliaram - e as deram em troca pelo Campo do Oleiro, conforme
o Senhor me ordenou".
III) 11-26: Jesus foi posto diante do
governador, e este o interrogou: "Tu és o rei dos judeus?" Jesus
declarou: "É você que está dizendo isso". E nada respondeu quando foi
acusado pelos chefes dos sacerdotes e anciãos. Então Pilatos perguntou:
"Não estás ouvindo de quanta coisa eles te acusam?" Mas Jesus não
respondeu uma só palavra, e o governador ficou vivamente impressionado. Na
festa da Páscoa, o governador costumava soltar o prisioneiro que a multidão
quisesse...”
Para o que queremos colocar não é necessário citar
toda a narrativa, assim omitimos o restante da sequência dessa última (vv.
16-26), pois até aqui, no versículo 15, já encontramos o suficiente para
entendermos e percebermos que os versículos de 3-10 nada têm a ver com o
contexto geral daquilo relatado na passagem. Inclusive, no versículo 3 está
dito que Judas viu que Jesus havia sido condenado, quando, no desenrolar do
texto, esse fato ainda não havia acontecido, que só veio acontecer mais à
frente. A quebra brusca na sequência dessa narrativa, não deixou de ser
percebida pelo tradutor da Bíblia do Peregrino, conforme nos explica:
“O episódio da morte de Judas interrompe
estranhamente o curso do relato, como se a entrega de Jesus ao governador
ultrapassasse suas previsões. Sabemos que a figura de Judas alimentou desde
cedo fantasias legendárias. Lucas dá versão diferente (At 1,18-20). A morte
violenta do perseguidor ou culpado é tema literário conhecido (p. ex. Absalão,
2Sm 18: Antíoco Epífanes, 2Mc9; em versão poética vários oráculos proféticos,
p.ex. Is 14; Ez 28). Antes de morrer, Judas acrescenta seu testemunho sobre a
inocência de Jesus. Confessa o pecado, mas desespera do perdão...” (pp.
2385-2386).
Isso vem confirmar todas as nossas suspeitas de que
tudo foi um calculado arranjo visando ajustar os textos às conveniências dos
interessados para que eles tivessem referências às suas idiossincrasias. E em
relação ao assunto tratado, temos fortes suspeitas que vários outros trechos
foram intercalados às narrativas bíblicas, para se amoldá-los ao propósito
determinado. Podemos citar, como exemplo, Mt 26,14-16, 21-25, Mc 10,10-11; 14,
18-21, Lc 22,3-6, 21-23, para que você, caro leitor, faça uma análise mais
aprofundada.
Ficamos a pensar como se sentiu e como ainda pode
estar se sentido Judas sobre tudo quanto lhe imputaram como procedimento. O
pobre coitado ainda é julgado e condenado, anos após anos, pelos ditos
“cristãos”, que, com certeza, não cumprem: “Não julgueis os outros para
não serdes julgados, porque com o julgamento com que julgardes, sereis julgados
e com a medida que medirdes sereis medidos” (Mt 7,1-2). Não bastasse
isso ainda é humilhado, malhado e, ao final, é espetacularmente “detonado”.
Infelizmente esse nos parece ser o seu destino cruel, que se perpetua
anualmente nas comemorações da Semana Santa realizadas por determinadas
religiões cristãs tradicionais.
Fonte: Portal do espírito

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