Por Paulo Nogueira*
Ri sozinho.
Acabei de ler uma biografia de
Lucrécia Bórgia, a bela filha do Papa Alexandre VI que o tempo transformaria
numa das mulheres mais malfaladas da história.
O autor da biografia é um historiador
alemão do século 19, Ferdinand Gregorovius. Achei-no no iBooks. Pude lê-la
graças ao admirável trabalho de digitalização de livros do Projeto Gutemberg.
Meu interesse pelos Bórgias – li também uma obra de Dumas sobre os crimes da
família – veio da série de uma série de tevê claramente inspirada nos Tudors.
O que me fez rir foi a descrição dos
últimos anos de Lucrécia. Ela estava pia, absolutamente entretida com a Igreja
e Deus. Já não tinha nada a ver com a libertina deslumbrante que, numa célebre
festa descrita pelo responsável pelo cerimonial dos Bórgia, o “Baile das
Castanhas”, viu com o pai papa e os irmãos 50 cortesãs dançarem para um grupo
de convidados. Primeiro vestidas, depois nuas, e enfim entregues a uma sessão
de sexo grupal na qual os homens com melhor desempenho foram financeiramente
recompensados.
Bem.
Lucrécia, depois de farrear a vida
toda, virou uma carola. O autor da biografia observa o seguinte. “É comum que
mulheres que tenham amado em excesso se transformem depois em fanáticas
religiosas”.
Perfeito.
Quantos casos vi no jornalismo de
mulheres que, depois de uma longa carreira de sexo frenético, se transformam na
meia idade em monjas, em geral budistas? Várias vezes comentei isso com amigas
e amigos meus. Algumas ficam com raiva das jovens repórteres em quem veem a si
próprias no apogeu perdido da carne e da luxúria.
Lucrécia – com “sua graça, com seu
busto de formas perfeitas, com seu andar de quem caminha sobre as nuvens”,
segundo relatos de seus contemporâneos” — é uma espécie de padroeira delas, das
mulheres que amaram demais e depois trocaram os excessos da carne pelos da
religião.
*Este
texto foi publicado no Diário do Centro do Mundo em 16 de novembro de 2011.
Sobre o Autor
O jornalista Paulo Nogueira, baseado em Londres, é
fundador e diretor editorial do site de notícias e análises Diário do Centro do
Mundo.
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