quinta-feira, 17 de abril de 2014

HISTÓRIAS DE SEBASTIÃO NERY


O DICO QUE ERA PILÉ E VIROU PELÉ

Miguel Archanjo Gorgulho, com esse nome de anjo de briga, é o pacífico patriarca de São Lourenço, nas cristalinas águas de Minas, e um magnífico contador de histórias. Pai do jornalista ecológico Silvestre
Gorgulho, os 87 anos de Seu Miguel nem lhe arranharam a memória.
Em 1944, 45, ele e outros comerciantes de São Lourenço fundaram um time de futebol, o Vasco da Gama, o Vasquinho. O mais famoso era o goleiro Bilé, cuja história o Globo Esporte contou a pouco, dizendo ter nascido em São Lourenço. Não foi. Jogava lá, mas nasceu em Dom Viçoso, ali perto, a vinte quilômetros de São Lourenço. Tem um irmão Basílio, que vive em Pintos Negreiros, distrito de Maria da Fé, sul de Minas.
Como a cidade não tinha jogadores em número suficiente, o Vasquinho ia buscá-los nas cidades vizinhas como Três Corações, a 100 quilômetros de trem: Zé Bola, Gradim e sobretudo e excelente artilheiro Dondinho, ferroviário e soldado do batalhão da Polícia Militar.

DONDINHO

Dondinho sempre levava o filho pequeno, de 4, 5 anos, o Dico, que não conseguia pronunciar o B e trocava pelo P. Dico encantou-se com o sucesso do goleiro Bilé e, como todo mundo gostava do pai e dele, antes e depois dos jogos, o Dico ficava na trave pedindo para chutarem a bola para ele:
- Chuta para o Pilé!
O apelido foi pegando, todo mundo chamando, e o Dico chorava de ódio. Não adiantou. Quando o apelido chegou a casa dele e à escola onde estudava, em Três Corações, ninguém segurou mais: Dico virou Pilé.
Um dia, a Rede Ferroviária transferiu o craque ferroviário Dondinho para Bauru e com ele sumiu o menino Dico, que já tinha virado Pilé. Na década de cinquenta os dois reapareceram em Santos, nos Santos. Pilé já era Pelé.


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