sexta-feira, 16 de maio de 2014

INSEGURANÇA PATOLÓGICA

JOACI GÓES

A insegurança pública no Brasil, em geral, e na Bahia, em particular, atingiu níveis insuportáveis, caracterizando-se como a mais aguda de nossas patologias sociais.

O caso baiano avulta entre as vinte e sete unidades da Federação, tanto em termos relativos como em números absolutos, atingindo, nos últimos oito anos, a estrondosa cifra de 40 mil homicídios, correspondendo a uma média anual de 35 mortes por cada grupo de 100 mil habitantes, três vezes superior aos números registrados no estado de São Paulo.
O quadro baiano da insegurança revela de modo claro e contundente que o governo vem gerindo de modo ineficaz esta dimensão da vida social de tão grande significado para o bem estar das pessoas.
Para que se tenha uma ideia do que somos e do que podemos vir a ser, em matéria de segurança pública, se a Espanha, com seus 50 milhões de habitantes tivesse o mesmo nível de criminalidade registrado na Bahia, haveria ali 15 mil assassinatos, por ano, em lugar dos 302 registrados em 2013.  
Esses números indicam, de modo inquestionável, que o risco de um morador da Bahia ser assassinado é 50 vezes maior do que os que vivem na terra de Miguel de Cervantes.  
Conquanto seja quimérico alcançar, no curto prazo, o patamar espanhol, é fora de dúvida que está ao alcance de nossas possibilidades orçamentárias e gerenciais nos ombrearmos com os estados que conseguiram reduzir seus índices de homicídio, a exemplo de Rio de Janeiro, São Paulo e do vizinho Pernambuco.  
A própria Bahia, ainda que em pequenas proporções, vem diminuindo o número de mortes, nos últimos três anos, a partir da adoção de medidas de alguma consistência.
O que está em jogo é a qualidade da gestão, acima de outro fator qualquer, uma vez que as causas matrizes da violência são essencialmente as mesmas, em todo o território nacional, tais como impunidade, corrupção, péssimo sistema carcerário, legislação penal leniente, morosidade do judiciário, despreparo policial, tráfico de drogas, e, antes e acima de todos esses fatores, a educação ainda como privilégio dos que podem pagar ensino privado, em face da lamentável qualidade do ensino público brasileiro e, sobretudo, baiano.
Penso que a tarefa mais desafiadora do novo governo que se instalará a 1 de janeiro de 2015 será devolver aos baianos a tranquilidade perdida no cumprimento de suas mais rotineiras atividades de trabalho, lazer e estudo.  Para tanto, cabe pedir a colaboração de cada um dos homens e mulheres que fazem do território baiano o seu domicílio, bem como com patriótica e responsável humildade, buscar orientação dos estados que vêm avançando no particular, sem descartar a ajuda das Forças Armadas, enquanto perdurar o clima de pânico generalizado, diante do repetitivo e previsível holocausto anual que faz da Bahia o maior cemitério do continente.
Por último e não menos importante, o novo governo terá que restaurar, sem demora,  os laços de fraterna convivência com seu aparelho policial, mediante a realização de uma parceria operacional em que todos saiamos vencedores.
Afinal de contas é de todo oportuno não perder de vista as ricas tradições de nossa Polícia, a quem devemos o ato final que culminou com a definitiva independência do Brasil, a 2 de julho de 1823.  
Definitivamente, não se pode ficar inerte quando tantas vidas se perdem inutilmente.


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