sexta-feira, 16 de maio de 2014

INTRIGA, O ENREDO OCULTO


CONSUELO PONDÉ


Trata-se de uma “maquinação secreta” para obter alguma vantagem ou para prejudicar alguém. 
Nunca é produzida às claras, porque sendo uma “cilada” navega sobre o mar da mentira, da má interpretação dos fatos, emaranhando o que está bem, que transcorre sem desconfiança. 

O intrigante fareja no ar, por detrás das portas e dos reposteiros, excitando a curiosidade de quem é alvo da aleivosia, escapando rapidamente depois de praticar o dolo, porque não quer ser identificado por aquele a quem traiu ou caluniou.
Geralmente, esse grave delito é praticado com demonstrações de amizade, de parceria e até contra pessoas que lhe prestaram favores.
Ao caluniar o intrigante pretende difamar, ofender a reputação e a honra de alguém, sendo o caluniado aquele que é objeto da falsa imputação de erro.
Quem cultiva esse torpe sentimento é adepto do cochicho, do murmúrio, da conversa vazia, que fala esquivamente, bem longe de quem pretende intrigar. É, frequentemente, um tímido, que age de modo pusilânime, sendo sempre desleal e traiçoeiro. 
Articula, nos mínimos detalhes, a ação deletéria que pretende praticar, prepara o bote e espera, às vezes, impacientemente aquele a quem deseja fazer a delação. 
Como lhe falta ânimo para enfrentar a poltronice, espera, com calma, o momento propício para dar o lance, escapulindo, rapidamente, após a realização da prática danosa. É sempre uma conduta adotada pelas almas pequenas. 
Quanto à covardia, que não significa apenas o não enfrentamento da verdade, mas tem outros significados, foi definida por Anatole France, no livro “Os Deuses Têm Sede”, nos seguintes termos: “Os homens confessam de bom grado a crueldade, a cólera, até a avareza, mas nunca a covardia, porque essa confissão os poria, entre os selvagens e mesmo numa sociedade civilizada, num perigo mortal”.
É de José de Alencar, nosso conhecido romancista, o conceito lapidar: “Os ingratos são como as varejas; pois assim como estas empeçonham o corpo que as sustenta, eles vendem os protetores que os agasalham”.
E onde fica a “moderação“ daquele que acolhe a injúria secreta? Que argumentos o induzem a acreditar no que escuta, sem procurar averiguar o que lhe foi “delatado” a troco de nada?  Disse Guerra Junqueiro que: “A verdade não conhece perífrases; a justiça não admite reticências“. A recusa à palavra, à explicação, ao confronto, é uma negação ao direito de defesa, constituindo-se em falta de respeito pela condição humana. 
Pessoa alguma está livre da calúnia. Por isso, Shakespeare, o maior dos dramaturgos de todos os tempos, que tão bem conhecia a natureza dos homens, afirmou: “Ainda que sejas casto como o gelo e puro como a neve, nunca escaparás da calúnia“.
Graças a Deus, como muitos outros mortais, tenho liberdade de administrar o meu próprio tempo. Não vou paralisar minha vida, não vou deixar de assumir responsabilidades, para agradar quem quer quem seja. Sabem por que? Porque viver é uma arte e até os justos sofrem por conta das falsas acusações. 
Tenho muitos exemplos em minha própria família, na vida impoluta de meu avô paterno que, por ser um juiz íntegro e incorruptível, sofreu muitas perseguições do seu antigo mestre, o Governador J.J. Seabra, por conta de acusações infundadas, partidas de alguns colegas magistrados, indignos de julgar. 
Pois bem, foi preciso que seu colega, Arlindo Leoni, fosse até ao governante para dizer-lhe, com a bravura dos bons, o quanto  Seabra estava prejudicando Pedro Faustino de Souza Pondé, “O Bom Juiz”, sempre sido protelado na sua ascensão para a capital, tendo o ilustre político reconsiderado as suas injustiças, a ponto de transferir meu avô para a Capital, onde atuou e viveu apenas seis meses dos seus 54 anos. 
Outros episódios de maldade contra aquele magistrado ilustre, tive oportunidade de escutar das palavras de seu filho Des. Francisco Pondé Sobrinho, mas essa é uma história que não tem fim. E, por motivos óbvios, devo finalizar minhas considerações, ciente de que os homens são maus até provarem que são bons.


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