O anjo
criativo da pintura brasileira.
Por Luiz
Carlos Facó
Texto de
2003, reeditado em 14 de março,
em
homenagem aos 10 anos da morte do “Príncipe dos Poetas” da Bahia.
Nenhum
pintor baiano galgou tantos degraus de excelência quanto o nosso Carlos Bastos.
Considero-o o anjo criativo da pintura brasileira. Porque suas obras têm o
toque celestial. A grandeza santificada da criação, prêmio concedido pelos
deuses a muito poucos. Somente àqueles que nasceram abençoados.
Vejo em Carlos
Bastos um pintor no sentido mais amplo da palavra. Seu coração, enternecido, vê
e transpões para suas telas, com força, forte emoção e raro rigor estético, a
figura serena de uma freira, a elegância e a sensualidade de uma baiana, o folguedo de crianças brincando descalças,
empinando arraias, pisando o pavimento irregular que revestia nossas ruas e
vielas, belos casarios, utilizando traços precisos e cores que só ele soube
encontrar.
Numa
definição simplista este é Carlos Bastos. Um “destino acima do seu Ser”. Um
incurável e talentoso criador do belo, um anjo barroco que se fez pintor.
Não é
reparos em sua grandiosa obra. Nela só cabem admiração e aplausos.
Carlos retratando o
colega Jenner Augusto e Nair
Filho de pai
abastado, comerciante respeitado em Salvador poderia ter seguido a atividade
paterna, assegurando, assim, uma vida próspera, quiçá bonançosa. Entretanto,
preferiu atirar-se nos caminhos incertos e pedregosos da criação artística. O
coração lhe ditava, o seu talento exigia.
Pintor
sensível e compulsivo desde os dezesseis anos de idade, Carlos fez-se aluno da
Sociedade Brasileira de Belas-Artes e da Fundação Getúlio Vargas no Rio de
Janeiro, visando aprimorar-se nas técnicas do desenho, da composição, do
claro-escuro, sob a orientação de renomados professores. Em 1946, deu por
concluso aquele aprendizado acadêmico. No ano subsequente, já em Salvador,
realiza sua primeira mostra individual na antiga Biblioteca Pública da Praça
Municipal, sedo ela considerada um marco divisor na seara da arte pictórica do
Estado. Com audácia, ousou sacudir o academicismo da pintura daquela época com
seus temas, traços e cores revolucionárias. Provocou um escândalo entre os que
se arraigavam ao antigo e não se seduziam aos encantos do novo. Entrave superado
pela força do seu gênio e pela elegância de suas atitudes. Uma marca
característica da sua personalidade.
Em seguida
viaja para os Estados Unidos, onde frequenta o curso de Art Student’s League,
sob a orientação do mestre Harry Stemberg e apresenta, em 1948, uma exposição
individual em New York, recebida com louvores pelos críticos locais.
De volta a
Salvador, pinta os murais do famoso Bar Anjo Azul, na Rua do Cabeça. Eu e os
antigos frequentadores do legendário local que aquela obra se constituiu na
sublimação da sua arte.
Nômade,
Carlos patê para Paris. Especializa-se em murais e afrescos na Escola Francesa
de Belas-Artes, e, em desenho, em La Grand Chaumière.
Mulher Gato
Hoje, Carlos
Bastos, instigado pelos deuses do bom gosto, continua imbatível no seu ofício.
Tornou-se uma das maiores referências da pintura nacional. Aclamado pela crítica que, nos idos da década
de quarenta, recebeu-o com reservas. Coisa da ciumenta ou invejosa gente baiana!
Adorado pelo público, que sente na sua pintura o fulgor do sol, e vê, nas suas
cores, a luminosidade plácida da lua.
Nos dia que
correm, quando suas obras são expostas nos mais respeitáveis museus do mundo,
em importantes pinacotecas particulares, tornou-se um ícone da pintura
brasileira, sem esquecer, sequer por instantes, ter sido forjado sob os céus da
vetusta e incomparável terra de Todos os Santos e dos Orixás.








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