Opinião
Dilma tem uma dívida com a sociedade, e enquanto não saldá-la e pedir
perdão por ela não poderá se permitir pedir paciência às pessoas
Na TV, Dilma pede paciência com a
crise e ouve panelaços pelo país
JUAN ARIAS 28 ABR 2015
El País – O JORNAL GLOBAL
Equivoca-se
quem aconselhou a presidenta Dilma a não falar em rede nacional no 1º de Maio,
Dia do Trabalhador, a exemplo do que ela vinha fazendo todos os anos.
Trata-se de uma decisão que não combina com sua biografia de lutadora contra a
ditadura e que, além disso, humilha os trabalhadores num momento que, mais do
que em outras vezes, eles precisam, sim, ser protegidos contra o medo de
perder suas conquistas.
Se há uma
coisa da qual não necessita o Brasil de hoje, desencantado e preocupado com seu
presente e seu futuro, é de ver seus governantes fugirem das vaias.
Precisa vê-los firmes, seguros, capazes de enfrentar o protesto e de dar a cara
a tapa.
Como mulher
e como alguém que não recuou nas suas convicções juvenis na época em que
militava nos grupos da guerrilha armada e enfrentou a prisão e a tortura,
Dilma não deveria temer o ruído das vaias.
Se poucos
meses depois de iniciado seu primeiro mandato, como primeira mulher à frente do
país, ela teve a coragem de colocar oito ministros na rua, inclusive alguns
herdados de seu tutor, o ex-presidente Lula, e foi aplaudida e elogiada como a
uma presidenta com mais coragem que os homens na luta contra a corrupção, hoje
não pode nem deve aparecer por medo de ser contestada.
No último Dia da Mulher, quando seu discurso
ao país foi recebido com panelaços, aquela resposta foi mais a suas palavras do
que à sua pessoa, que continua sendo tratada com respeito. Equivocou-se quem a
aconselhou na ocasião a “pedir paciência” para uma sociedade irritada com o Governo
por causa sua política econômica, considerada errada, e pela elevação do nível
de corrupção política, da mesma forma como se equivocam agora aqueles que
tentam escondê-la.
Dilma tem
uma dívida com a sociedade, e enquanto não saldá-la e pedir perdão por ela não
poderá se permitir pedir paciência às pessoas. Essa dívida é com os 54 milhões
que lhe deram seu voto e sua confiança nas urnas depois de ela lhes pintar um
país cor de rosa, sem crise econômica, e seus opositores como os verdugos que
se propunham entregar a o país e suas conquistas sociais nas mãos dos ricos e
dos banqueiros.
Enquanto a
presidenta não reconhecer não que mentiu aos eleitores, como muitos pensam, mas
que simplesmente errou e que hoje está se esforçando para reparar seus
equívocos passados, esse medo de ser vaiada continuará sendo real.
No Brasil,
governantes e políticos podem se atemorizar com a hipótese de reconhecer seus
possíveis erros e tranquilizar os cidadãos de que estão dispostos a repará-los
e a melhorar as coisas.
Não é assim,
por exemplo, nos Estados Unidos, o país mais rico e poderoso do mundo, onde
parece natural que o presidente Obama vá à televisão pedir desculpas por algum
de seus erros táticos, seja na economia, no aspecto social ou até na política
externa. Essa admissão de culpa não só não o diminui como também o fortalece.
O que o
Brasil menos necessita hoje é ver seus governantes fugindo amedrontados de
serem contestados por uma sociedade cada vez mais exigente, que aceita menos do
que antes ser enganada.
Não é só Dilma,
aliás, que hoje é vaiada em público. Seu vice, Michel Temer, acaba de ser
vaiado em São Paulo, e o presidente do Congresso, Eduardo Cunha, é
vaiado aonde quer que vá. E vaiado foi, dias atrás, Geraldo Alckmin, governador
do mais populoso e mais rico Estado do país.

Nenhum comentário:
Postar um comentário