Direito começa a punir crimes
de colarinho branco e alimenta guerra midiática de juristas e advogados
RODOLFO BORGES São Paulo
El País – O Jornal Global
Deltan
Dallagnol, procurador da força-tarefa da Lava Jato. / VLADIMIR PLATONOW (AGÊNCIA BRASIL)
A evidente mudança na forma da condução das investigações e do
julgamento de crimes de colarinho branco no Brasil causa incômodo no mundo
jurídico. Os maiores advogados criminalistas do país, praticamente todos eles
envolvidos de alguma forma na defesa de políticos, empreiteiros e empresas
investigadas pela Operação Lava Jato, se revezam diariamente na crítica, via notas à
imprensa, artigos e entrevistas, aos procedimentos da operação comandada pelo juiz Sergio Moro, em Curitiba.
Ex-presidente
da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e defensor do ex-ministro Antonio
Palocci no caso, José Roberto Batochio criticou recentemente em artigo
"certos magistrados justiceiros" e disse que "assistimos
atônitos a um festival de prisões arbitrárias". Defensor de um empreiteiro
na Lava Jato e advogado do ex-ministro José Dirceu no mensalão, José Luiz de Oliveira Lima escreveu para lamentar
violações ao direito de defesa e dizer que advogados e clientes têm sido
"criminalizados" por "apontar falhas e incoerências dos
investigadores". Já Antônio Carlos de Almeida Castro, conhecido como Kakay
e advogado de três senadores no caso, chegou a promover um seminário para
apontar os riscos da delação premiada, base das investigações da Lava Jato.
diz o procurador de Justiça do Rio Grande do
Sul aposentado Lenio Streck
As
reclamações fazem parte da estratégia de defesa e alimentam a batalha midiática entre
criminalistas e procuradores do Ministério Público Federal, mas não lhes faltam fundamento:
os procedimentos mudaram, e isso não ocorre de forma harmoniosa. Os polos do
julgamento de crimes de colarinho branco realmente parecem ter se invertido no
Brasil. "Antigamente, o advogado ganhava a partida no apito.
Agora, o juiz já não aceita mais a pressão", resume no jargão
futebolístico o procurador de Justiça do Rio Grande do Sul aposentado Lenio
Streck. Professor e advogado, Streck também tem escrito para criticar a forma
de condução da Lava Jato, mas admite que o direito brasileiro não se preparou
para as mudanças dos últimos anos, sendo surpreendido e atropelado pelas
novidades.
O professor
destaca que o Código de Processo Penal brasileiro data da década de 1940, e
desde então é "inquisitivo, dando todos os poderes ao juiz". De lá
para cá, mudanças como o aumento da autonomia da Polícia Federal, a
regulamentação da delação premiada e o aprendizado adquirido pelos
investigadores em operações que acabaram anuladas pela Justiça, como Satiagraha
e Castelo de Areia, permitiram estender a ação desse juiz magnânimo para além
do ladrão de galinha.
Essas
mudanças ainda vieram acompanhadas pelo surgimento, destaca Streck —
ressaltando que isso não é uma apreciação depreciativa — de uma nova geração de
investigadores oriundos "da pequena-burguesia que chega ao poder, com
forte sentimento moralizante e conservador". São o que o professor da FGV
Direito Rio Joaquim Falcão classifica como juízes, procuradores e delegados que
"não têm passado a proteger ou a temer". Em artigo publicado na Folha
de S.Paulo, Falcão destaca que esses homens da lei são mais jovens, fizeram
concurso mais cedo, "vivem na liberdade de imprensa, na decadência dos
partidos e na indignante apropriação privada dos bens públicos". Eles
"dão mais prioridade aos fatos que às doutrinas", são mais
pragmáticos e menos bacharelistas, diz o professor.
A combinação entre esses agentes
da lei voluntariosos e uma doutrina jurídica defasada levaram a uma situação de
imprevisibilidade, alerta Lenio Steck. "O excesso de ativismo judicial
prejudica a segurança jurídica. Tudo acaba indo parar no Judiciário. Desde a
demarcação de terras indígenas até a regulamentação de uniões homo afetivas,
passando, agora, pela descriminalização da
maconha. Ora, essas
tarefas são do Legislativo. Com isso, o judiciário fica forte demais. E pratica
decisionismos", avalia o procurador aposentado, que acrescenta:
"o mensalão foi um embrião. A Lava Jato escancara esse
novo imaginário. Para o bem e para o mal".

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