Folclore brasileiro
Publicado em literatura por Douglas B.C.*
A riqueza da literatura brasileira,
esquecida e substituída por superproduções hollywoodianas. A origem, a
vulgarização e a dissipação das lendas tradicionais. Traídas pela mídia e pela
geração atual.
Capa do livro "O mais assustador do
folclore"- Luciana Garcia
O Brasil é rico, e entre todas suas riquezas existe uma singular formada principalmente na era das explorações territoriais; do pau-brasil, do ouro, da cana de açúcar... Estas explorações trouxeram migrantes de muitas partes do mundo, afim de lucrar com que a terra brasileira era capaz de oferecer.
Estas migrações, trouxeram estórias e lendas
que difundiram entre os índios. Muitas delas já estavam enraizadas na cultura
indígena e foram ensinadas aos migrantes. Outras se misturaram, e
popularizaram-se rapidamente nas fazendas e na civilização da época.
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Reprodução
As lendas foram passadas por uma sequência de
sucessões, ganhando detalhes e formas entre diferentes regiões do país.
Contadas oralmente por pessoas mais velhas, que traziam uma grande bagagem de
experiência de vida. Os contos eram ditos aos mais jovens sempre com uma moral
exemplificada, desafiando-os a fazer as melhores escolhas que o destino poderia
lhes proporcionar. Formando seus heróis e vilões imagináveis, ditas numa
fantasiosa conversa em uma roda de família e amigos. Formando a literatura oral
brasileira, o Folclore.
Folclore é o conjunto de tradições e
manifestações populares constituído por lendas, mitos, provérbios, danças e
costumes que são passados de geração em geração. A palavra tem origem no
inglês, em que "folklore" significa sabedoria popular. A palavra é
formada pela junção de folk (povo) e lore (sabedoria ou conhecimento).
Esta literatura oral sobreviveu por gerações.
Entre os públicos ouvintes, surgiu o interesse profundo de um autor brasileiro
paulista chamado Monteiro Lobato. José Bento Renato Monteiro Lobato (1882-1948)
nasceu em Taubaté, São Paulo, no dia 18 de abril de 1882. Filho de José Bento
Marcondes Lobato e Olímpia Monteiro Lobato. Alfabetizado pela mãe, logo
despertou o gosto pela leitura, lendo todos os livros infantis da biblioteca de
seu avô o Visconde de Tremembé. Fez o curso secundário em Taubaté e com 13 anos
foi estudar em São Paulo, no Instituto de Ciências e Letras, se preparando para
a faculdade de Direito.
Monteiro
Lobato (1882-1948). Foto reprodução
Sua tentativa de apresentar um Brasil
desconhecido por muitos, não foi em vão. Monteiro Lobato valorizava muito a
cultura regional e era fascinado por histórias e costumes. Contava histórias
com muita destreza e não foi a toa que tornou-se o primeiro autor da literatura
infantil no Brasil. Foi também um extraordinário contador de histórias e de
casos interessantes. Criou personagens que ficaram marcados na infância de
muitos dos que são adultos hoje, como: a boneca Emília, Pedrinho, Narizinho,
Dona Benta, Tia Anastácia, o sabugo de milho Visconde de Sabugosa e o porco
Rabicó. Todos eles inseridos no contexto do Sítio do Pica-pau Amarelo, um lugar
simples em sua própria magia. Aos poucos neste Sítio Mágico, Monteiro Lobato
inseriu lendas folclóricas de muito valor como: O Saci Pererê, a Cuca, a Mula
Sem Cabeça, a sereia Yara entre muitos outros. Por meio das suas obras também
ajudou a propagar lendas e mitos do Brasil. Estória que virou seriado de muito
sucesso nos anos 70. Deixando muitas crianças, jovens e adolescentes informados
sobre um pouquinho mais de nossos heróis e vilões. Formando outros apaixonados
pelos personagens folclóricos.
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Ziraldo Alves Pinto nasceu no dia 24 de
outubro de 1932, em Caratinga, Minas Gerais. Começou sua carreira nos anos 50
em jornais e revistas de expressão, como Jornal do Brasil, O Cruzeiro, Folha de
Minas, etc. Além de pintor, é cartazista, jornalista, teatrólogo, chargista,
caricaturista, escritor e fã declarado de Monteiro Lobato. É o segundo escritor
a vulgarizar os personagens folclóricos, porém de um modo mais dinâmico e
atrativo aos olhos infantis.
A fama começou a vir nos anos 60, com o
lançamento da primeira revista em quadrinhos brasileira feita por um só autor:
A Turma do Pererê. Surgiu então outro autor preocupado em preservar e dar
continuidade aos fascinantes contos de nossa literatura popular brasileira
através dos quadrinhos. Atendendo a todos os públicos leitores. Trabalhando com
personagens bastante comuns e criando outros que foram muito bem aceitos pelo
público infantil como: O menino Maluquinho, Super Mãe e outros agregados a
Turma do Saci Pererê, Tuiuiú e Boneca de Piche, o índio Tininin, além de
conduzir animais típicos de nosso país ao enredo das estórias. Enriquecendo
ainda mais o conhecimento das crianças sobre nossa fauna, cultura, costume e
valores.
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É perceptível como o público brasileiro está
embevecido pelas superproduções hollywoodianas, tanto que esqueceram-se de
incentivar, o gosto e a espiritualidade de heróis e vilões brasileiros às
crianças. As lendas são muitas e a cada história contada ou lida, o ouvinte ou
leitor, pode ficar cada vez mais curioso para entender e redescobrir os mistérios
deixados por nossos antepassados. Estes esquecidos que valem uma atenção
especial para a dramaturgia.
Faz-se muito bem deixar claro, que Monteiro
Lobato e Ziraldo fizeram um belíssimo trabalho ao amenizar as lendas para
interagir com as crianças. Porém, as lendas não são tão bonitinhas assim.
Monteiro Lobato, mesmo com a suavização de alguns destes personagens no Sítio
do Pica Pau Amarelo, ainda escreveu alguns contos com uma dose moderada de
terror e suspense.
"XXV – O PINGO D'ÁGUA
A cólera da Cuca foi medonha. Deu um urro de
ouvir-se a dez léguas dali, tamanho e tão horrendo que por um triz Pedrinho não
disparou na corrida. E outro urro, e outro, e mais de cem.
— Berre, demônio! — gritou o saci. — Berre
até rebentar. Pingo d’água não tem ouvidos, nem tem pressa. Esse que botei
pingando nessa horrenda caraça vai divertir-se em pingar no mesmo lugarzinho
por cem anos, se for preciso. Sei que Cuca é bicho duro, mas quero ver se pode
com um pingo d’água que não tem pressa nenhuma, nem tem outra coisa a fazer na
vida senão pingar, pingar, pingar…
A dor que a queda de um pingo atrás do outro
já estava causando nos miolos da bruxa começava a crescer ponto por ponto. Cada
novo pingo era um ponto mais de dor. Naquele andar ela não suportaria o
suplício nem um mês, quanto mais os cem anos com que a ameaçara o saci.
— Parem com esse pingo d’água! — berrou a
bruxa.
O saci deu uma risada de escárnio.
— Parar? Tinha graça! Se estamos apenas
começando, como quer você que paremos? Já arrumei tudo, de modo que o pingo
pingue durante cem anos, e se não for suficiente, arranjarei as coisas de modo
que depois desses cem anos pingue outros cem. Duzentos anos de pingo na testa
parece-me uma boa conta, não acha?
A Cuca ainda urrou como cem mil onças
feridas, e espumou de cólera, e ameaçou céus e terras. Por fim viu que estava
fazendo papel de boba, pois havia encontrado afinal um adversário mais
inteligente do que ela; e disse:
— Parem com este pingo que já está me pondo
louca! Tenham dó duma pobre velha…
— Pobre velha! A coitadinha… Quem não a
conhece que a compre, bruxa duma figa! Só pararemos com a água se você nos
contar o que fez de Narizinho.
— Hum! — exclamou a bruxa, percebendo afinal
a causa de tudo aquilo. — Já sei…
— Pois se sabe, desembuche. Do contrário, a
sua sina está escrita; há de morrer no maior suplício que existe. E nada de
tentar enganar-nos. É ir dizendo onde está a menina, o mais depressa possível.
— Farei o que quiserem, mas primeiro hão de
desviar de minha testa este maldito pingo que me está deixando louca.
— Assim será feito — disse o saci trepando de
novo às estalactites e desviando o fiozinho d’água para um lado.
A Cuca deu um suspiro de alívio. Tomou
fôlego, descansou um bocado; depois disse:
— Encantei essa menina que vocês procuram,
mas só poderei romper o encanto se vocês me trouxerem um fio de cabelo da Iara.
Sem isso é impossível.
— Não seja essa a dúvida — respondeu o saci.
— Iremos buscar o fio de cabelo da Iara. Mas, se ao voltarmos, você não quebrar
o encanto, juro que deixarei o pingo a pingar nessa testa horrenda, não cem
anos, mas cem mil anos, está ouvindo?
E dizendo isto, tomou Pedrinho pela mão e
retirou-se com ele da caverna.
XXVI – A IARA
— Vamos à cachoeira onde mora a Iara — disse.
— Essa rainha das águas costuma aparecer sobre as pedras nas noites de lua. É
muito possível que possamos surpreendê-la a pentear os seus lindos cabelos
verdes com o pente de ouro que usa.
— Dizem que é criatura muito perigosa —
murmurou Pedrinho.
— Perigosíssima — declarou o saci. — Todo
cuidado é pouco. A beleza da Iara dói tanto na vista dos homens que os cega e
os puxa para o fundo d’água. A Iara tem a mesma beleza venenosa das sereias.
Você vai fazer tudo direitinho como eu mandar. Do contrário, era uma vez o neto
de Dona Benta!…
Pedrinho prometeu obedecer cegamente.
Andaram, andaram, andaram. Por fim chegaram a uma grande cachoeira cujo ruído
já vinham ouvindo de longe.
— É ali — disse o perneta, apontando. — É ali
que ela costuma vir pentear-se ao luar. Mas você não pode vê-la. Tem de ficar
bem quietinho, escondido aqui atrás desta pedra e sem licença de pôr os olhos
na Iara. Se não fizer assim, há de arrepender-se amargamente. O menos que
poderá acontecer é ficar cego.
Pedrinho prometeu, e de medo de não cumprir o
prometido foi logo tapando os olhos com as mãos.
O saci partiu, saltando de pedra em pedra,
para logo desaparecer por entre as moitas de samambaias e begônias silvestres.
Vendo-se só, Pedrinho arrependeu-se de haver
prometido conservar-se de olhos fechados. Já tinha visto o Lobisomem, o
Caipora, o Curupira, a Cuca. Por que não havia de ver a Iara também? O que
diziam do poder fatal dos seus encantos certamente que era exagero. Além disso,
poderia usar um recurso: espiar com um olho só. O gosto de contar a toda gente
que tinha visto a famosa Iara valia bem um olho.
Assim pensando, e não podendo por mais tempo
resistir à tentação, fez como o saci: foi pulando de pedra em pedra, seguindo o
mesmo caminho por ele seguido.
Súbito, estacou, como fulminado pelo raio. Ao
galgar uma pedra mais alta do que as outras, viu, a cinquenta metros de
distância, uma ninfa de deslumbrante beleza, em repouso numa pedra verde de
limo, a pentear com um pente de ouro os longos cabelos verdes cor do mar. Mirava-se
no espelho das águas, que naquele ponto formavam uma bacia de superfície
parada. Em torno dela centenas de vaga-lumes descreviam círculos no ar; eram a
coroa viva da rainha das águas. Joia bela assim, pensou Pedrinho, nenhuma
rainha da terra jamais possuiu. A tonteira que a vista da Iara causa nos
mortais tomou conta dele. Esqueceu até do seu plano de olhar com um olho só.
Olhava com os dois, arregaladíssimos, e cem olhos que tivesse, com todos os cem
olharia.
Enquanto isso, ia o saci se aproximando da Mãe-d’água,
cautelosamente, com infinitos de astúcia para que ela nada percebesse. Quando
chegou a poucos metros de distância, deu um pulo de gato e nhoque! Furtou-lhe
um fio de cabelo.
O susto da Iara foi grande. Desferiu um grito
e precipitou-se nas águas, desaparecendo.
O saci não esperou por mais. Com espantosa
agilidade de macaco, aos pinotes, saltando as pedras de duas em duas, de três
em três, num momento se achou no ponto onde Pedrinho, ainda no deslumbramento
da beleza, jazia de olhos arregalados, imóvel, feito uma estátua.
— Louco! — exclamou o saci, lançando-se a ele
e esfregando-lhe nos olhos um punhado de folhas colhidas no momento.
— Não fosse o acaso ter posto aqui ao meu
alcance esta planta maravilhosa e você estaria perdido para sempre. Louco, dez
vezes louco, louquíssimo que você é, Pedrinho! Por que me desobedeceu?
— Não pude resistir — respondeu o menino logo
que a fala lhe voltou. — Era tão linda, tão linda, tão linda, que me considerei
feliz de perder até os dois olhos em troca do encantamento de contemplá-la por
uns segundos.
— Pois saiba que cometeu uma grande falta.
Não devia pensar unicamente em si, mas também na pobre Dona Benta, que é tão
boa, e na sua mãe e em Narizinho. Eu, apesar de um simples saci, tenho melhor
cabeça do que você, pelo que estou vendo…
Aquelas palavras calaram no menino, que nada
teve a dizer, achando que realmente o saci tinha toda razão.
— Bem — continuou o duendezinho — agora que o
perigo já passou, tratemos de voltar à caverna da Cuca. E depressa, antes que
amanheça. Lembre-se que prometemos a Dona Benta estar no sítio com a menina
sumida logo ao romper da manhã." continua… XXVII – Na caverna da Cuca; XXV
– Desencantamento
Fonte: LOBATO, Monteiro. Viagem ao Céu &
O Saci. Col. O Sítio do Pica-Pau Amarelo vol. II. Digitalização e Revisão:
Arlindo_As
Algumas lendas se repetiram e resumiram-se
tanto que hoje não são conhecidas como suas origens, como é o caso da Mula Sem
Cabeça: descrevem-na hoje uma Mula alta, sem cabeça, que flameja fogo por seu
pescoço. Não especifica a origem, tampouco mostra-se uma estória interessante
contada assim. A verdadeira lenda diz que a Mula sem Cabeça foi uma maldição
lançada há uma garota que se envolveu com um padre. Um amor proibido que
aconteceu por alguns instantes, esta jovem foi amaldiçoada a galopar
incessantemente por sete cidades, comendo os olhos e unhas de homens bons e
maldosos, que não fizesse separação de raça ou cor e tuas narinas queimassem em
fogo ardente. A fumaça causada pelo fogo das narinas cobriam sua cabeça desde a
crina, mesmo quando estava a galope o que, com a ajuda do medo, entendessem que
ela não tivesse cabeça. A maldição só acabaria, quando um corajoso rapaz
tirasse seus freios.
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reprodução
Estas são informações mínimas, perto do
conhecimento que o Folclore tem a oferecer. É necessário que, tanto as escolas
quanto a mídia, ajudem a resgatar o que ainda temos de original. A literatura
do Folclore Brasileiro. Por Douglas BC (31/08/2015)
*Fontes:
http://redes.moderna.com.br/2012/08/22/o-folclore-na-obra-de-monteiro-lobato/
http://www.educacional.com.br/ziraldo/biografia/bio.asp LOBATO, Monteiro.
Viagem ao Céu & O Saci. Col. O Sítio do Pica-Pau Amarelo vol. II.







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