quarta-feira, 30 de setembro de 2015

D. CARLOTA JOAQUINA

História da Espanha, Brasil, Portugal e Algarves




Ninfomaníaca, traidora e mulher emancipada.




Infanta de Espanha, princesa de Portugal, rainha de Portugal, Brasil e Algarves e imperatriz honorária do Brasil, D. Carlota Joaquina é uma das figuras mais enigmáticas e mal­-amadas da História de Portugal. Uma explicação para esse desamor: Carlota Joaquina quis ocupar um lugar decisivo, mas es­colheu sempre o "lado errado" da História – que é (sempre) contada pelos vencedores. Estes não lhe per­doaram e criaram à sua volta uma "lenda negra". Feia de meter medo, ninfomaníaca, adúltera, traidora, ignorante até ao fanatis­mo… a diabolização foi completa, mesmo se exagerada e injusta. 

Carlota Joaquina casou-se com o príncipe D. João (futuro D. João VI) a 9 de Junho de 1785. Se o noi­vo tinha 18 anos, a noiva era uma menina de 10 (parece que espera­ram até ela fazer 15 anos para consumar o casamento), que passou o resto da infância e a adolescência numa corte estranha, afastada do regaço da família. Apesar desse afasta­mento, a tendência para a promis­cuidade adúltera pode muito bem ter sido herdada da mãe, a rainha Maria Luísa, que passou a vida a enganar o marido, Carlos IV de Espanha, ao ponto de convencer este a nomear primeiro-ministro o amante dela, Manuel Godoy.

O primeiro “pecado" de Car­lota Joaquina foi ter ousado fazer política num mundo de homens, e ter perdido… Perdeu na tentativa de se tornar regente no lugar do marido, na chamada “Conspira­ção dos Fidalgos", em 1805-­1806; perdeu no projeto de se tomar rainha das colónias espa­nholas do Rio da Prata (atuais Argentina e Uruguai), a partir de 1808, alegando a incapacidade do pai, Carlos IV, e do irmão, Fer­nando VII, prisioneiros de Napo­leão; perdeu, por fim, a aposta no “Portugal Velho", absolutista e contrarrevolucionário, ao lado do filho D. Miguel na guerra civil. Mas a rainha ficou também na história como um exemplo de escandalosa devassidão sexual, uma mulher cujos insaciáveis ape­tites libidinosos se manifestavam num corpo que roçava a repug­nância. Oliveira Martins retratou-a como uma "megera horrenda e desdentada, criatura devassa e abominável em cujas veias corria toda a podridão do sangue Bourbon, viciado por três séculos de casamentos contra a nature­za". A própria filha, D. Maria Teresa, dizia, temerosa: "É nossa mãe, temos de respeitá-la, mas é pre­ferível sair do seu caminho." Laura Junot, mulher do embaixador francês que mais tarde seria inva­sor de Portugal, ridicularizou-a e sublinhou a sua falta de gosto.

Apesar de o casamento com D. João ter durado 36 anos, a vida em comum foi curta. A partir da conspiração de 1805-06, o prínci­pe perdeu a confiança nela e passaram a viver separados. O ódio entre o casal chegou ao ponto de, quando o seu coche se aproximava do de sua mulher nas estradas que levavam ao Palá­cio de Queluz, D. João gritava, indignado, ao cocheiro: "Volta para trás! Vem aí a puta!" Dos nove filhos do casal, a maior parte dos estudiosos considera provável que o futuro D. Pedro I do Brasil e IV de Portugal era mes­mo de D. João. Quanto aos outros, é quase certo que um deles devia a sua paternidade ao almoxarife do paço. Dos restantes, diz-se que apresentavam notórias parecenças com vários oficiais da guarda. Muitos foram apontados como amantes de D. Carlota, desde o próprio Junot, passando pelo 6°

marquês de Marialva, pelo almirante inglês Sidney Smith, por Manuel Francisco Rodrigo Sabatini, oficial da guarda de D. Maria I – indo até muito mais baixo na escala social: o cocheiro da Quinta do Ramalhão, em Sintra, João dos Santos.

D. João não tinha ilusões, mas, mesmo assim, insistia em manter­-se informado das aventuras amoro­sas da mulher. Um dia desabafou: "Na vida de Carlota, a moralidade morreu…"

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