Literatura
Publicado por Paulo Cichelero
é eterno estudante de tudo. Paulo é ilustrador, inventor-ensaísta e
leitor incorrigível. É também especialista em coisas que não lhe dizem
respeito. Foragido da faculdade de História, atualmente encontra-se refugiado
em um instituto de Letras, onde lê Kafka e toma muito café.
Em um caldeirão, as irmãs
bruxas preparavam uma poção com curiosos ingredientes: olhos de lagartixa, pelo
de morcego, asa de coruja, escama de dragão. Não, não em Harry Potter - em
Shakespeare!
É curioso como Shakespeare, um
autor tão dado a gracinhas e a temas pitorescos, tenha adquirido uma reputação
tão austera. Sem dúvida, seu domínio da língua inglesa assombra a muitos
leitores, devido à dificuldade oferecida pelo seu vocabulário de época. Isso,
somado à riqueza de seus diálogos e de suas caracterizações humanas,
conferiu-lhe um ar de sabedoria e severidade que, apesar de respeitável, acaba
afastando muita gente. As suas peças, entretanto, são cheias de humor e
fantasia: mesmo em tragédias como Macbeth e Hamlet,
percebemos não apenas o bom-humor do dramaturgo, em piadas e
ironias, mas também o seu fascínio pelo sobrenatural, como, por
exemplo, em cenas de feitiçaria e aparição de fantasmas.
O poder mágico das três irmãs
bruxas, em Macbeth, é determinante para o andamento desta que é uma de suas
melhores peças. Macbeth, o protagonista, sobe ao trono da Escócia graças a uma
série de crimes e intrigas, mas a todo momento guiado pelas forças
sobrenaturais. São as feiticeiras que, à semelhança das três irmãs
moiras da mitologia grega, decidem o futuro das personagens.
Em um caldeirão, as irmãs
preparam uma poção com curiosos ingredientes: olhos de
lagartixa, dedos de rã, língua de cão, perna de lagarto, ferrão de escorpião,
asa de coruja, escama de dragão, dedo de nenê estrangulado no parto, raiz de
cicuta, nariz de turco, fígado de judeu blasfemo, vísceras de um tigre, múmia
de bruxa, pelo de morcego, dente de lobo, e muitos outros. Juntas, as
três bruxas cantam a receita em andamento; o seguinte trecho de sua
canção chegou a ser trilha em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban:
"Double, double, toil and trouble / Fire
burn and cauldron bubble / Double, double, toil and trouble / Something wicked
this way comes!"
* Dúvida,
dúvida, trabalho e inquietação / O fogo queima e borbulha o caldeirão / Dúvida,
dúvida, trabalho e inquietação / Algo maligno vem por aí!
Se esses elementos fantásticos
fossem tomados, à época, como nós o encaramos hoje, é bem provável que
Shakespeare fosse tachado de um autor de "contos de fadas".
Para Samuel Johnson,
um especialista em Shakespeare, isso teria desqualificado as suas peças; mas
tal não ocorreu porque, em inícios do século XVII, quando Macbeth é encenado
pela primeira vez, as forças sobrenaturais eram vistas como algo
plenamente real pelo senso comum. O próprio Rei Jaime testemunhava
ter presenciado casos de bruxaria e, tomado como sábio, escreveu um manual
sobre o assunto intitulado Demonologia, muito difundido em seu
tempo.
"Então
[à época] a doutrina da bruxaria foi poderosamente inculcada; e como a
maior parte da humanidade não tem outra razão para suas opiniões senão a de que
elas estão em moda, não há dúvida de que essa persuasão fez rápido
progresso, uma vez que a presunção e a credulidade cooperaram em seu favor.
[...] Como os prodígios sempre são vistos na proporção em que são
esperados, bruxas eram descobertas todos os dias e se multiplicavam tão
rapidamente em alguns lugares que Bishop Hall menciona um vilarejo em
Lancashire onde o número de bruxas era maior do que o de casas."
O trecho acima, escrito por Samuel
Johnson, constitui uma clara crítica histórica, mas é também um lembrete.
Devemos nos perguntar, sobre nossa própria época: quais são as grandes
ficções tomadas pelo senso comum, atualmente, como verdades universais, e que
nos fará parecer ridículos no futuro próximo? Temos alguma razão para
pensar que, em nosso próprio século, todas as alucinações coletivas foram
extintas? Shakespeare pode ter sido um gênio da literatura, mas ele próprio não
estava imune à credulidade de sua cultura. E quanto a nós, que não somos nenhum
Shakespeare?





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