Brasil/como empregam nosso dinheiro
Gerardo Lissardy Enviado especial da BBC Mundo a Oiapoque
(Brasil)
e St. Georges (Guiana Francesa)
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| Ponte sobre rio Oiapoque foi terminada há quatro anos, mas ainda está fechada |
Mais uma obra fantasma
"Pare. Identifique-se", diz uma placa amarela e
preta no extremo brasileiro da ponte entre a América Latina e a União Europeia
- e, se alguém ultrapassa os limites demarcados pelo arame, um guarda aparece
ao longe e grita: "Volte!".
O grito rompe o silêncio reinante na imponente obra cinza e
vazia sobre o rio Oiapoque, cujas águas marcam a fronteira entre o Brasil e a
Guiana Francesa, na selva amazônica.
Ainda que a ponte estaiada de pilares de concreto de 378
metros de comprimento tenha sido terminada há quatro anos, nunca foi
inaugurada, e seu uso está proibido.
Essa demora é um enigma para os moradores dos dois povoados
remotos em ambos os lados do rio: Oiapoque na margem brasileira e St. Georges
na francesa.
"Para qualquer brasileiro e francês é o maior mistério:
por quê? Faz anos que está pronta", diz Alexandra Costa, dona de casa de
34 anos, enquanto tem as unhas dos pés feitas em um salão de beleza em
Oiapoque.
Monumento à ineficiência
"Ouvi falar da ponte pela primeira vez em 1973",
conta Auxilio Cardoso, um aposentado brasileiro de 71 anos, sobre uma das
lanchas que transportam as pessoas de um lado ao outro do rio.
Ele está indo a St. Georges "comprar um perfume francês
para o Natal" e passa sob a ponte. Questionado sobre quanto falta para
inaugurá-la, dá de ombros, leva as mãos ao céu e responde sorrindo: "Não
sei".
De fato, ninguém na região parece saber essa resposta. Com
um custo para ambos os governos de US$ 30 milhões (R$ 118,5 milhões), a ponte
foi construída com base na premissa de que impulsionaria o intercâmbio e o
desenvolvimento destes rincões perdidos do Brasil e da França.
A Guiana Francesa é a última área continental sul-americana
que ainda pertence a uma ex-potência colonial. É um território ultramarino da
França e, como tal, faz parte da União Europeia e tem o euro como moeda
oficial. E a ponte prometia reduzir o isolamento que marca sua história.
Mas, agora, muitos veem a moderna estrutura como um monumento
à ineficiência governamental, à burocracia e às diferenças entre os dois
países.
"É bonita, mas está parada", reflete Deus Bahia da
Silva, um comerciante de 40 anos, ao observar a ponte a partir da margem
brasileira, ao lado de barcos de pescadores.
"Nosso Brasil está complicado, os governantes não
querem olhar pelo povo, só por eles mesmos", ele acrescenta.
"Oiapoque não tem nada. Nós cassamos um prefeito, agora temos outro e
nada. Nem praça tem aqui: faz anos que as obras dela estão paradas
também."
Vantagens e desvantagens
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| Oiapoque fica na margem brasileira do rio do qual leva o nome |
"Oiapoque vai ficar cheia de gente", diz Roberto
Carlos, de 42 anos, enquanto joga em uma tenda de tiro ao alvo com pistolas de
ar comprimido, como as de parques de diversão, mas que, na cidade, fica em uma
das ruas principais.
"Vai ser melhor para fiscalizar, porque agora tem muita
mercadoria de contrabando", afirma Jessica Santos, uma jovem de 23 anos
que está desempregada, em frente à praça de St. Georges.
De um lado, está a prefeitura do povoado, ao fim de uma
esplanada cheia de besouros mortos. As bandeiras da França e da União Europeia
tremulam no ar quente e úmido. No corredor da entrada, envelhecem fotos de
Chirac e Cardoso do dia em que visitaram St. Georges e anunciaram a obra.
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| Motorista de lancha não sabe com o que trabalhará após a ponte abrir |
Outros acreditam que a ponte afastará os turistas, que
seguirão em frente rumo às cidades mais próximas de Caiena, em solo francês, e
Macapá, no brasileiro, sem precisar parar por algumas horas nos povoados, como
fazem agora.
"Não vai ser bom, porque vai precisar de um carro para
cruzar o rio e vai sair mais caro", diz Marlady da Silva, uma brasileira
de 30 anos que vive em Oiapoque e vai todos os dias para St. Georges de lancha
para trabalhar em uma lanchonete onde se cobra em euros.
Seus filhos perguntam o que ela irá fazer quando a ponte
abrir. A passagem para atravessar a fronteira em 10 minutos custa R$ 16, e há
umas 200 lanchas que fazem este serviço dia e noite, diz Reginaldo Pena de
Moraes, que, com 57 anos, ganha a vida sobre uma delas.
Ele conta que seus três filhos o questionam sobre qual será
seu trabalho após a abertura da ponte. "Só vamos descobrir depois que
inaugurarem", ele responde. "Não sabemos quando, mas isso vai
acontecer."
Pendências
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| Obra foi anunciada em 1997 pelos então presidentes Jacques Chirac e Fernando Henrique Cardoso |
As autoridades também não têm certeza sobre os prazos. De
seu escritório em Macapá, Waldez Góes (PDT), governador do Amapá, destaca que a
nova meta para a inauguração é "o final do primeiro semestre de
2016".
Esse objetivo foi estabelecido durante reunião entre os
representantes dos dois lados em outubro e permitiria abrir a passagem antes
dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, que serão realizados em agosto.
Mas, além do vento contrário gerado pela dura crise
econômica do Brasil, que tem feito com que grandes projetos de infraestrutura
sejam esquecidos, há vários requisitos para conseguir cumprir a data marcada.
Um é que o Brasil envie antes do fim do ano os documentos
que permitam à França liquidar o último pagamento correspondente à construção
da ponte, que ainda está pendente, explica Góes.
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| Placas e arames indicam os limites até onde é possível ir |
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| Cabines do lado da Guiana estão instaladas, mas não há funcionários. |
Ele acrescenta que esse atraso, por sua vez, impede até
agora que a empresa que fez a obra entregue oficialmente a ponte ao Brasil e à
França. Também falta instalar na cabeceira brasileira da ponte os equipamentos
para fazer o controle da fronteira, principalmente aduaneiro, além de
funcionários.
Isso já foi feito do lado francês, mas as cabines de
controle neste momento só são habitadas por lagartixas e insetos.
"Depois que inaugurarem a ponte, será a
modernidade", diz com certa ironia um policial francês de fronteira que
evita revelar seu nome, porque não tem autorização para falar com jornalistas,
em um escritório com ar condicionado.
O Brasil também prometeu pavimentar a BR-156 entre Oiapoque
e Macapá, que tem um longo trecho de terra, barro e buracos em seus 595 km. Mas
Góes nega que a obra permita condição para a abertura da ponte.
O governador diz que a estrada é de responsabilidade do
governo federal e, diante da suspeita de muitos vizinhos de que a obra atrasou
por causa de corrupção, responde: "Não posso assegurar se houve ou não
desvio de dinheiro."
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| Estrada do lado brasileiro ainda precisa ter um longo trecho pavimentado |
Visto
Outro obstáculo pendente é a falta de acordo sobre os
seguros para os veículos que cruzarem a ponte, já que, do lado francês, as
exigências e os custos são bem maiores, porque seguem o padrão europeu.
O Brasil ainda quer que a França dê fim à exigência de visto
para os brasileiros que entram na Guiana Francesa, onde a polícia controla
rigorosamente a estrada para Caiena, melhor pavimentada do que a brasileira.
A França quer evitar a entrada em seu território de
imigrantes sem documentos e garimpeiros de ouro ilegais, mas muitos brasileiros
dizem que o tratamento é desigual, pois os franceses não precisam de visto para
entrar no Brasil.
"Os gringos vêm, fazem o que querem aqui no Brasil e lá
não se pode fazer nada", protesta Ednaldo Ribeiro, taxista de 47 anos em
Oiapoque. "Você chega a St. Georges e logo a polícia já está atrás de
você."
Enquanto isso, a pintura da ponte descasca, a iluminação
está deteriorada pela umidade, e alguns perguntam se a obra estará em condição
de ser usada caso algum dia venha a ser inaugurada.
"Até os romanos, quando faziam uma ponte, sabiam a
razão da construção", diz Rona Lima, empresário brasileiro de 57 anos,
dono de pousada em Oiapoque. "Mas essa ponte ainda não tem uma finalidade.
Não existe nenhuma economia visível que a justifique."
Para ele, a obra só serviu para fazer aflorar as diferenças
entre os dois lados do rio. "A ponte veio só para quebrar o charme da
região amazônica."
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| Os moradores perguntam: se um dia a ponte abrir, ainda estará em bom estado para ser usada? |










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