Colaboração de Luiz Fernando Costa.
É jornalista dos mais conceituados do Brasil.
Aracaju - Sergipe
Não são poucos os autores, clássicos até, que escreveram sobre os perigos representados por amantes circunstanciais, ou, pior ainda, as que por longo tempo frequentam as camas dos poderosos.
FHC, o nosso ex-presidente, refinado intelectual, ledor de uma enormidade de livros, talvez tenha cometido o equívoco de imaginar que o seu charme de sedutor, aliado aos efeitos afrodisíacos que emanam do poder, seriam suficientes para o contentamento, ao longo da vida, de uma amante a quem ele cumulou de presentes e favores que ainda mais poderiam perenizar o fascínio que sobre ela imaginou, equivocadamente, exercer.
Acontece que a sua amante era jornalista buliçosamente curiosa, e também uma mau caráter cerebralmente capaz de cometer abjetas sacanagens, fora da cama, naturalmente.
Se houvesse prestado mais atenção a alguns trechos, saborosos até, no volumoso e atraente cartapácio que é a Comédia Humana de Honoré de Balzac ( fascínio aqui do escrevinhador ) o ex-presidente estaria mais prevenido contra essas felonias de boquirrotas amantes que, repentinamente, se tornam inimigas e cospem na mesa onde fartamente comeram.
Não há como resistir, porém aos sutis encantos de quem é ótima na cama e sabe camuflar, sob os lençóis, a ruindade que a nudez não revela.
O ex-presidente agora é o alvo da gozação nacional. O mordaz e copiosamente criativo humorista Jose Simão já encontrou outro significado para a sigla FHC: Fui Homem Chifrudo.
A revelação de que o filho do ex-presidente com a jornalista na realidade não é dele, seria nada mais do que um simples acidente de percurso nessas relações descontraídas e sem exigências de exclusividade, onde a figura antiga do triangulo amoroso, por ter apenas três vértices, é insuficiente para caracterizá-las.
Homem de muitas mulheres, amadurecido e com ampla expertise no assunto, FHC, deve ter relevado e nem sequer dado importância ao fato. Para outros, que não ele, anacronicamente dominados pela ideia de que a honra pessoal transita entre falos e vaginas, o caso seria motivo suficiente para que a ¨honra ofendida¨ fosse lavada com sangue. FHC, civilizada e cavalheirescamente, continuou ajudando a ex-amante a criar o filho sobre o qual tivera, antes, uma putativa paternidade (sem direito a trocadilhos infames).
Mas nesse caso é que a porca torce o rabo.
As ajudas, aliás, substanciais, teriam , segundo a jornalista, sido feitas através de uma empresa de Free Shop. Para o humorista Jose Simão melhor seria se fosse por uma empresa de Sex Shop.
Haveria, ainda, a utilização de contas internacionais para abastecer a amante com o aporte mensal de três mil dólares. A Rede Globo tão bem relacionada com o ex-presidente, também presenteou a jornalista com o cargo de correspondente internacional, baseada na fascinante Barcelona. Talvez por isso, precavidamente protegendo-se de possíveis indiscrições, o apresentador William Bonner caprichou na empostação da voz para dizer que Mirian Dutra sempre foi uma funcionária competente e ética. Nenhuma suposição de que os poderosos bilionários irmãos Marinho, teriam sido assim, uma espécie de alcoviteiros.
De tudo o que aconteceu, embora a revelação dos episódios burlescos esteja marcada pela felonia de uma senhora sem nenhum caráter, fica a evidencia de que nessa nossa República nada republicana, até os seus mais sisudos condestáveis costumam mergulhar no mar das promiscuidades.
DE OLIVEIRA SALAZAR A FERNANDO HENRIQUE
O português Salazar foi um dos mais longevos ditadores. Passou 40 anos no poder (1928-1968). Dele, dizia-se que era casto, honesto e recatado. O homem que mandava pessoas apodrecerem nas prisões, que assinava sentenças de morte, que subjugou populações africanas, aparentava ter o comportamento de um asceta.
Assistia missa todos os dias, comungava com frequência e vivia isolado nos seus soturnos palácios. Sua vida era cercada de mistérios e pudores. Em 1951, recebeu uma jornalista francesa que pretendia escrever sua biografia. A moça, Cristine Garnier, não chegava a ser uma escritora de grande talento, mas era sedutora, casada pela terceira vez, tinha 30 anos, e Salazar já ultrapassara os 60. Por muitos meses viveram juntos percorrendo os mesmos palácios, mas, em quartos separados, por conveniência e para escaparem à vigilância de Dona Maria, a governanta e secretíssima amante do ditador. Depois de dois anos recebendo muitos presentes de Salazar, entre eles alguns brilhantes, com suas idas e vindas à França e estadias pagas pelo Tesouro português, escreveu, finalmente, a esperada biografia: Vacances avec Salazar ( Férias com Salazar ).
Nos presentes que recebeu, nos privilégios que desfrutou resultantes do poder, a jornalista francesa assemelha-se à jornalista brasileira amante de FHC. Mas, nas memórias que publicou, tempos depois da biografia, Cristine diferencia-se completamente de Mirian Dutra. Ela foi discreta, jamais fez revelações que comprometessem o ditador, e ele já estava morto. Fez apenas uma, de certa forma reveladora indiscrição, sobre um dia ensolarado na praia do Estoril: ¨Uma manhã Salazar chegou de repente. Com binóculos, observou as pessoas na praia e murmurou, chocado e desgostoso: - Ah, essas carnes, essas carnes pecaminosas !
Olhou depois para mim. Eu estava de biquíni. Não trocamos uma palavra, mas soube o que pensava. Nunca mais voltei a usar roupa de banho no terraço do Forte de Santo Antônio. ¨
Imaginem se a Mirian Dutra resolver escrever suas memórias...
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