Mundo: literatura
O relato de um cubano sobre
Cuba. A discrição que o mundo quer calar para que uma caricatura se mantenha
viva.
Por Pedro Henrique Alves
"Um rapaz altamente promissor" Por:
Rodrigo Jungmann (Doutor pela University of California e docente na
Universidade Federal de Pernambuco).
Reinaldo Arenas, reprodução ||
Internet
Reinaldo Arenas foi um literato Cubano que
nasceu em 1943 e morreu em 7 de novembro de 1990. Este texto tem a missão de
relatar por suas vistas socialistas e cubanas aquilo que o próprio Reinaldo
viveu sob a ditadura comunista de Fidel Castro. A base para este texto-relato é
a própria autobiografia (Antes que anoiteça)[1] de Reinaldo. Vocês perceberão
que não usarei de nenhuma citação direta da obra, não porque não deva fazê-la,
mas por opção, tendo em vista que o intuito deste texto é instigar-vos a ler o
texto na íntegra sem que ocorra nenhum fichamento ou citações literais. É minha
intenção, também, fazer minha própria resenha com aquilo que me chamou mais
atenção no texto; todavia, isto não significa que inventarei ou exagerarei os
fatos por ele apresentado, algo que facilmente será visto por aqueles que
visitarem a obra em questão.
Não reescreverei o livro, sendo assim,
obviamente, haverá relatos não citados e partes que muitos considerarão
importantes as quais não farei referência, entretanto, trata-se de uma resenha
que possui um objetivo, isto é: relatar a Cuba descrita por um Cubano
homossexual (Reinaldo Arenas). Assim sendo, poderá, para alguns, ser uma
resenha diminuta e parcial, é um risco que corro, mas que não me envergonha e
nem desanima tais julgamentos posteriores em vista da importantíssima riqueza
desveladora que jaz na obra em si. O que farei aqui será doar de forma
introdutória a vocês aquilo que de forma completa está no livro em questão.
Estas são MINHAS impressões sobre esta obra, obra que fez as MINHAS opiniões
mudarem, mas, de forma alguma, me dignifiquei a mudar aquilo que Reinaldo
expôs. Que este texto seja a sede para que vocês bebam direto da fonte da obra.
Capa do livro em tradução
brasileira (Best Bolso)
Reinaldo Arenas inicia seu relato mostrando o
contexto de sua família. Garoto pobre nascido numa família grande, ele viveu
sempre rodeado de brincadeiras contextuais à sua época e num forte contato com
a natureza e o sincretismo religioso, uma mistura do catolicismo com as formas
ancestrais de religiões locais. Logo na pré-adolescência ele relata suas “brincadeiras”
sexuais com um primo, o que marca-o para toda a vida. Na adolescência ele
assumiria o homossexualismo, entretanto, ainda de forma escondida, mas
firmemente assimilada de forma interna. Quando jovem ele se alista no exército
de Fidel com a esperança de novos ares para a Cuba reprimida sob o julgo de
Fulgêncio (Ditador Cubano anterior a Fidel), mas também como uma forma de fuga
de sua cidade, que é em demasia pacata e oprimida. Dizia Arenas que cria ser o
socialismo uma forma mais aberta e arejada de lidar, por exemplo, com o
homossexualismo e a miséria. Acreditou com suas forças na utopia que Fidel
pintava. Entretanto, logo ao chegar aos trancos no exército haveria de se
decepcionar.
Sua juventude foi dividida entre dois tempos:
o tempo da opressão militarizada de sua época de guerrilha e o da perseguição
policial em sua época de fugitivo e homossexual assumido. Logo após se
entrincheirar com seus camaradas no exército de Fidel, conseguiu perceber que
aquele movimento revolucionário era muito mais opressor do que ele podia um
dia, em pesadelo, imaginar. Entre os vários relatos de mortes sanguinárias, ele
esmiúça em detalhes, e de forma assustadora, os fuzilamentos sem julgamento
algum feito pelos guerrilheiros de Fidel. Algo que segundo seus relatos eram
diários, e os poucos julgamentos que houvera era tão somente de fachada, ou
seja, meros teatros que apenas sentenciavam o que já, previamente, havia sido
promulgado pelo senso revolucionário dos comunistas.
Após a vitória dos revolucionários começou a
reestruturação comunista na ilha, empresas sendo amplamente estatizadas e
escolas sendo organizadas para se tornarem antros de doutrinações
marxista-leninista. Entre os muitos fatos por ele apresentados, destaca-se a
verdadeira forma militarizada dos tratamentos dados aos alunos: de castigos
físicos às técnicas militares de guerrilha, viviam em constante apreensão como
se a qualquer momento pudesse estourar uma bomba aqui ou haver uma traição
acolá. Segundo Arenas o ensino superior era extremamente falho e incompetente,
em certo momento ele aponta engenheiros que se formavam sem saberem no mínimo
cálculos básicos que um estudante de ensino médio saberia. Mas, e a doutrina
marxista-leninista? Sabiam muito bem, obrigado. Isto se explica, para Reinaldo,
pela preocupação que havia em formar guerrilheiros e não profissionais para um
novo país, na cabeça dos revolucionários haviam ameaças constantes de traição
ou/e invasão dos “imperialistas”, a saber: os Americanos. Por isto julgavam ser
mais importante um soldado do que um professor, ser mais importante um bom
atirador do que um bom engenheiro. O autor conta-nos também sobre as palestras
intermináveis de Fidel e as, também intermináveis, palestras gravadas de Lênin
e Stalin.
Aliás, Reinaldo aponta que Fidel era quase um
adorador da URSS, sua obediência poderia ser considerada religiosa, se não
fosse o fato de ser ateu. Durante um tempo, Arenas, trabalhou para o governo
como cortador de cana, apesar de sua formação superior. Não aguentando mais
este sistema opressor em que jazia sua vida, ele deserta. Começa a viver de
seus escritos e poemas, o que conseguiu fazer, durante um tempo trabalhando em
uma biblioteca, em certa legalidade graças as amizades no alto escalão do
governo; passa a não esconder mais sua homossexualidade, o que tornará sua vida
um verdadeiro inferno, pois seus casos amorosos são numerosos e acabam e surgir
em meios aos burburinhos sociais.
Seus escritos começam a incomodar o partido e
a perseguição inicia-se. Ele perde seu emprego na biblioteca, o que viabilizava
sua produção literária, e também é denunciado como sendo um homossexual — sua
vida promiscua torna-se largamente conhecida em Havana. O homossexualismo é um
crime passível de prisão e, em alguns casos, de morte na Cuba comunista, diz
ele. Não raro ele nos conta como muitos homossexuais foram levados para campos
de trabalho forçado — os Gulags caribenho — ou, sem mais nem menos, apareciam
sem vida boiando no mar, sem que a polícia se movesse para investigar a morte,
que muitas vezes eram causadas pelos próprios poderes policiais, afirmava nosso
autor. Em um dos relatos mais emocionantes da obra, que ele conta-nos em fatos
crus, se trata da perseguição ferrenha a ele e a seus amigos homossexuais, algo
desumano e assustador. Os homossexuais mais extravagantes, diz ele, eram
obrigados a utilizar coleiras, pois assim era possível os policiais colocarem
ganchos sem precisar tocar neles, como se fossem doentes contagiosos ou animais
violentos.
O Reinaldo mesmo foi preso, o seu relato da
prisão talvez seja, também, uma das mais instigante da obra. Se achamos que
nossas prisões brasileiras são desumanas, o que diria vocês sobre prisões em
uma espécie de masmorra, onde diariamente policiais viriam dar-lhes surras
intermináveis — como se o ambiente não fosse, per se, degradante. As pressões
psicológicas eram intermináveis, além das constantes ameaças e as torturas
feitas a outros detentos e, via de regra, a ele.
Por várias vezes ele tentou fugir da ilha,
seja por botes, a nado e até por boias improvisadas; além dele, vários de seus
amigos também tentaram fugir para a costa americana, muitos morrendo no
caminho. O autor conta que, desde a vitória de Fidel, as fugas da ilha
tornaram-se numerosas, mas após a consolidação do poder comunista se tornaram
em demasia recorrentes, um verdadeiro êxodo. Ele próprio tenta este êxodo,
agora, por via estrangeira, ele que, por conta de seus escritos tornarem-se
famosos, principalmente na França, uma amiga francesa tentou viabilizar um
visto para que ela saísse do país através de uma incursão ilegal. Não obstante,
depois de milhares de humilhações públicas, fugas alucinantes e, após ser
caçado como animal, ele consegue um visto de extradição, visto este onde foi
cravado o irrevogável julgo: ele estava sendo expulso por ser homossexual. Já
nos anos de 1980 ele desembarcaria nos EUA como exilado.
Nos Estados Unidos ele inicia uma batalha
para denunciar o que sofreu, não obstante, longe de ser um capitalista, algo
que ele negava com veemência, negando também o comunismo — apesar de
conseguirmos perceber suas tendências políticas dirigidas mais à esquerda do
que à direita. Seus escritos ganharam certa visibilidade o que faz ele
conseguir, durante um tempo, entre conferências e vendas de livros, ter uma
vida satisfatória. Mas aos poucos ela torna-se nada fácil, fazendo com que ele
viva constantemente de favores de amigos. Não obstante tantos reveses, dizia
ele: só de saber que possuía a liberdade de falar sem ser calado por uma força
policial já é algo grandioso. Acabou por contrair HIV, e, na solidão de sua
casa, ao lado do manuscrito revisado deste livro, ele se suicida. Sem esperar
que com esta obra ele ganhe nada além de compreensão e libertação ao seu povo.
O que torna esta história tão importante são
três fatores: Primeiro, a desmistificação da liberdade e igualdade cubana. Este
paraíso só existe nas mentes dos professores marxistas que, na sua grande
maioria, nunca pisaram em Cuba e quando foram pisaram, tão somente, dentro das
cidades modelo, ou seja, as cidades feitas e enfeitadas para que os
estrangeiros alimentem suas utopias comunistas, e rasgarem suas promiscuidades
com a já conhecida prostituição cubana. Já havia lido outras críticas à Cuba,
entretanto críticas de homens claramente tendenciosos quanto suas opiniões
políticas mais conservadoras. O que claramente não é o caso de Arenas. Reinaldo
Arenas sempre se declarou crítico ao capitalismo e, mesmo após as perseguições
comunistas, se declarava socialista. Uma crítica genuína sem interesses
comerciais ou ideológicos, afinal, ao fim da obra ele se suicidou.
Segundo, não há outra tipificação possível
para esta ilha a não ser DITADURA, as perseguições relatadas pelo autor são de
arrepiar. De assassinatos à campos de trabalhos forçados; de perseguição
cultural a perseguição descarada aos homossexuais — pelo simples fato de serem
homossexuais. Li muitas críticas politicamente liberais sobre a Cuba comunista,
mas, e quando temos uma visão crítica tão devastadoras de um Cubano socialista
que sofreu perseguição na própria ilha cubana, quais as desculpas? Quais as
defesas para esta ditadura?
Terceiro, ao ler este livro pela primeira
vez, aos meus 17 anos, eu estava muito encantado com a visão comunista de
igualdade e zero miséria, muito por influência de uma professora comunista no
ensino médio. Este livro, no entanto, foi o que me tirou do torpor ideológico e
afastou de mim todo o utopismo que esta professora me pintou sobre uma Cuba
igualizada, de educação exemplo para todos os países e de respeito humano a
todos os cidadãos. Dizia ela que lá não havia cheiro de miséria, sendo que
Arenas nos relata zonas de extrema pobreza e prostituição na Cuba de Fidel, ele
mesmo toca no assunto tão conhecido das “cadernetas”, as diretrizes dadas pelo
governo sobre o quê, e a quantidade de alimento que você pode angariar por mês.
Após ler este livro eu busquei ser mais
crítico em minhas opiniões, e só depois de dois anos que fiz a leitura desta
obra eu tive a coragem de não mais aceitar o socialismo como uma opção
razoável. Reinaldo Arenas me trouxe para a realidade enquanto saía da vida, de
forma trágica, é verdade. Não concordo em tudo com Reinaldo arenas, seja em
suas atitudes morais e políticas, mas se entendêssemos que Reinaldo foi apenas
um dos milhares que morreram para que a verdade fosse dita, nunca mais
ousaríamos defender esta ditadura. A cada elogio mentiroso dado a cuba, a cada
justificação política que damos a esta ditadura sanguinária, fazemos com que
mais um grito abafado de um cubano desesperado se faça perder nas lacunas
pútridas de nossos discursos utópicos. Deus o abençoe Reinaldo Arenas por
tamanha coragem!



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