Literatura
Por José Silveira
“É
professor universitário, ‘bon vivant’, hedonista e feliz com a vida.”
A decepção é um ensinamento que forma caráter e que nos diz centenas de
coisas. "Já a esperança é cheia de confiança. É algo maravilhoso e belo,
uma lâmpada iluminada em nosso coração. É o motor da vida. É uma luz na direção
do futuro".
“Procuro ar para respirar. Mas não encontro.
Sinto-me sufocado. Sinto vontade de chorar. Não há esperança. Não há futuro”.
Essas frases construídas a partir de
experiências negativas, aparentemente, parecem acompanhar nossa frágil
existência.
Vimos isso, em diversos momentos de nossa
trajetória: nos sonhos frustrados, nos desejos não alcançados, na perda de
entes queridos, no fim de um relacionamento e etc.
O pensamento shakespeariano retratado na peça
Macbeth resgata a ideia da decepção e acompanha o sentimento de nossa
bruxuleante existência: “A vida não passa de uma sombra que caminha, um pobre
ator que se pavoneia e se aflige sobre o palco – faz isso por uma hora e,
depois, não se escuta mais sua voz. É uma história contada por um idiota, cheia
de som e fúria e vazia de significado.”
Viver entre decepções, desilusões, angústias
e aflições são marcas de nosso convívio, de nosso viver, de nosso existir.
Na Grécia Antiga, o jovem Platão passou por
uma situação de decepção e esperança.
Desde a mocidade, Platão interessou-se pela
Filosofia. De família aristocrata e tradicional, Platão descendia do grande
legislador Sólon e era parente de Cármides e Crítias, dois dos “30 tiranos” que
assumiram o poder, por algum tempo, em Atenas.
O interesse por filosofia e política surgiu
desde os primeiros contatos com figuras proeminentes de Atenas.
Primeiro, por intermédio de Crátilo, pensador
que adotava de forma certamente empobrecida, a tese de Heráclito de Éfeso sobre
o movimento universal que transforma incessantemente todas as coisas.
Mas o grande acontecimento da juventude de
Platão foi encontrar Sócrates, o conversador insaciável, o perguntador
implacável, espécie de rogue loquaz.
Sócrates afirmava saber apenas que nada
sabia. E por isso perguntava e perguntava. Atribuía uma missão “divina”: a
missão de conhecer a si mesmo e de levar também aos outros ao autoconhecimento,
à conquista da própria alma.
Para isso era necessário o diálogo bem
conduzido.
E seguia dois pontos cruciais: a) começava
por demolir as opiniões frágeis e enganosas, as noções equivocadas e sem base,
as ideias aceitas e repetidas do interlocutor;
b) após a descoberta do erro e o interlocutor
admitir a sua própria ignorância, havia um esforço de dar à luz a opiniões mais
sólidas e fundamentais.
Nesse momento, Platão é levado a reformular
seu projeto juvenil de participação política.
Compreende que o desejo de atuar
politicamente deve passar primeiro por um processo de iluminação e purificação
do tipo socrático.
Para agir com retidão e justeza, é preciso,
antes, saber o que é justiça; Platão, dessa forma, reconhece que não basta
realizar uma política qualquer, insegura e oportunista.
É necessário estabelecer primeiro as bases
para a política, a justa política. Fazer política pressupõe, a rigor,
conhecimento e preparação. Ou seja, a política correta não pode ser feita sem uma
ciência, uma ética, uma pedagogia.
Em 399 a. C, Platão sofre uma dolorosa lição;
a sua cidade querida, apesar de democrática, estava longe de ser uma cidade
ideal. Sócrates é acusado perante a Assembleia por dois crimes: primeiro, de
corromper a juventude e segundo, de descrer dos deuses tradicionais da cidade.
Julgado, acaba condenado a morrer bebendo
cicuta.
Platão percebe que o justo Sócrates não
pudera continuar viver em Atenas e fora por ela assassinado. Na concepção de
Platão, a partir desse dramático evento, fazer política torna-se, assim,
projetar e tentar construir essa cidade ideal, digna de Sócrates.
E a filosofia também a política passa a ser a
esperança, a procura dos fundamentos teóricos desse projeto político.
Quando funda a Academia, por volta de 387
a.C., o objetivo de Platão não é apenas realizar investigações filosóficas e
científicas, pretende ser também um centro de preparação para uma ação política
baseada na busca da verdade e da justiça.
Platão entende que o conhecimento e a
preparação devem ser esforços conjuntos da procura da verdade, exercício
permanente para conhecer mais e melhor.
Não é uma doutrina. Não é algo fixo, nem
rígido, nem imutável.
É uma investigação sempre aberta, viva,
inquieta e insatisfeita.
Ousa saber!!! Mais! Mais! Mais!
Assim, a esperança de Platão na política e
filosofia que se descortina, ao longo do tempo, é o apelo do amor à sabedoria.
Já diria o filósofo Ralph Waldo Emerson:
“Julgamos a sabedoria de um homem por sua esperança”.






Nenhum comentário:
Postar um comentário