Bahia (BR.): Folclore
regional
Micareta
de Feira de Santana
É um
carnaval fora de época, e sempre foi promovido pela cidade de Feira de
Santana-Ba., durante todo o século XX até o atual, pois não podendo competir
com o de Salvador, adiou a sua festa para depois da Semana Santa. Brilhou
sozinha durante os primeiros cinquenta anos, até a folia ser descoberta por
outras cidades brasileiras que a imitaram.
Micareta é a denominação dada no Brasil ao carnaval
fora de época. O nome deriva de uma festa francesa, Mi-carême, e, desde os anos 1990, vem se espalhando por várias capitais e cidades brasileiras. Países como Canadá, Portugal e Espanha já realizaram sua "micareta",
adaptadas conforme a cultura local.
As origens do carnaval fora de época no Brasil remontam às antigas
micaretas europeias que se popularizaram no século XIX.
A origem do carnaval no Brasil está associada ao entrudo. Essa festividade, que consistia em uma batalha de
líquidos nas ruas das cidades, foi trazida pelos portugueses e espalhou-se pelos centros urbanos oitocentistas.
No Rio de Janeiro, a imprensa pôs-se contra o
entrudo, os limões de cheiro e todo tipo de molhaceira na cidade.
Durante os anos de 1880 a 1910, eram inúteis as críticas dos jornalistas e
literatos, e frágil à ação da polícia para desanimar os foliões de suas
brincadeiras de molhar. Até que o termo "carnaval" passou a ser
utilizado pelas autoridades para designar as festas realizadas pelas grandes
sociedades com bailes, desfiles e batalhas de confetes, em detrimento do
entrudo, que passou a ser visto como algo rude e inculto. Em Salvador, o
entrudo foi oficialmente proibido em 1853, pois era visto como jogo sujo,
anárquico e incivilizado. Tanto no Rio de Janeiro como em Salvador, a imprensa
insistia em tecer elogios esfuziantes aos carnavais elegantes de Nice e Veneza,
dando destaque aos bailes à fantasia, desfiles de cordões com bandas de música e
carros alegóricos ricamente ornamentados.
Qual a relação entre carnaval e micareta? Mi-carême é
uma palavra de origem francesa que significa literalmente "meio da quaresma". Em Paris, o primeiro mi-carême foi
comemorado por estudantes, comerciantes, açougueiros, comerciantes e
lavandeiras, entre as quais elegiam a rainha. A festa da mi-carême acontecia
em Paris desde o século XV. Interessante notar que, até o século XIX,
tinha, ainda, aspecto popular. No meio da quaresma, o povo fazia a Queima do Judas e a Serração da Velha.
Essa tradição popular da festa no fim da quaresma
aportou no Brasil no século XVIII, por influência lusa. A Missão Artística Francesa que esteve no Brasil no início do
século XIX captou em pintura um momento da Malhação do Judas em Sábado de Aleluia.
No início do século XX, foi buscada, na Europa, uma
versão sofisticada e elegante para substituir a festa popularizada do Sábado de
Aleluia, vista como incoerente diante dos novos ditames civilizatórios dos
centros urbanos brasileiros, cujo exemplo maior era o Rio de Janeiro.
O cantor baiano Fabrício "Tomate"
Cardoso Kraychete em apresentação na Micareta de Feira de Santana em
2014.
Olga Simson, no seu estudo "A Burguesia se
Diverte no Reinado de Momo", registrou que, em São Paulo, a partir de
1860, no fim da quaresma, realizaram-se bailes de Aleluia à fantasia em teatros
da cidade para a elite, animados pelas bandas do corpo da polícia. Os populares
também a celebravam com folguedos de rua e de salão, elegendo a rainha da
festa. Havia um modismo da nova festa adquirido pela elite, que imitava os
carnavais franceses de Nice – os corsos e batalhas de flores.
A mudança do termo francês Mi-carême para
o brasileiro (ou baiano) Micareta ocorreu em 1935, em Salvador.
Segundo a folclorista Hildegardes
Viana, a micareta foi introduzida em Salvador porque o carnaval estava perdendo
o brilho na capital. A festa foi organizada pela elite local com os seguintes
elementos inovadores: "desfiles nas ruas com os três grandes clubes e uma
profusão de cordões e blocos. O corso, desfile de cordões de foliões
fantasiados em carros abertos, era o mesmo do carnaval, havendo animadas
batalhas de confetes e serpentinas".
A festa que deveria substituir o carnaval, no
entanto, entrou em decadência. Os organizadores tiveram, então, a ideia de
fazer uma eleição para trocar o nome mi-carême e, assim,
reanimar a festividade. O jornal A Tarde de Salvador, em 5 de abril de 1935, registrou
o resultado da eleição:
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Morre, não morre, a
Micareme ganhou novo alento com a campanha feita pelos jornais para a mudança
de nome (...). Depois de ruidosa votação popular, dez nomes foram
selecionados para as semifinais: Refolia, Micareta, Carnavalito Arlequinada,
1ª Festa Outonal, Mascarada, Bicarnaval, Precarême, Brincadeira e Remate. Nas
finais, Refolia e Micareta se pegaram (...) – vencera Micareta por três
votos.
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O ano de 1935 culminou com o processo de
popularização desta festa, que era utilizada pelas elites como forma de impor
outra maneira de brincar aos demais grupos, com a interiorização da micareta
para as cidades de maior porte da Bahia, como Jacobina e Feira de Santana, por
exemplo.
Feira de Santana - 2015
As filarmônicas dos clubes que
animavam as festas eram grande fator de destaque aos grupos participantes. Mas
a micareta dos desfiles dos corsos deixou de ser apreciada pelo povo, que,
muitas vezes, sofria proibições, como a de usar máscaras. Em 1950, a invenção do trio elétrico por Dodô e Osmar em Salvador promoveu uma profunda mudança na
forma de se brincar a festa.
O "novo carnaval do Brasil", nas palavras
de Moraes Moreira, era transformador, pois a música tocada
pelo trio logo se contrapôs às antigas filarmônicas e bandas militares que tocavam para um grupo de foliões em
desfiles pelas ruas. Curiosamente, quando o povo tomou conta da rua para dançar
atrás do trio elétrico, as elites buscaram novamente os clubes sociais,
porém não demorou para que retornassem às ruas, privatizando o espaço público nos chamados blocos carnavalescos.
Na atualidade, há uma indústria cultural que lucra milhões
de reais oferecendo, por todo o Brasil, durante
o ano inteiro, entretenimento com as bandas de axé music, suas estrelas pops e
trios elétricos com toneladas de equipamentos para oferecer som de alta
qualidade aos blocos carnavalescos.
Feira de Santana 2015
Um dos principais motivos da realização das
micaretas é econômico: no período momesco, os cachês artísticos
e aluguel dos trios elétricos atingem valores muito altos, além de competir
com as maiores e tradicionais festas: Salvador, Rio de Janeiro, Recife e São Paulo, por exemplo. Com a comemoração em outra
época, não apenas há uma economia na contratação dos artistas e equipamentos, ou a falta de público que prefira os grandes centros, como, ainda,
os artistas e donos de trios também encontram ocupação por todo o ano (algo que
não ocorria até o advento da Axé Music, na década de 1980).





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